quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Especial - São Pedro de Alcântara, um gigante do espírito.



Atualidade de São Pedro de Alcântara.

Pode um homem como São Pedro de Alcântara dizer-nos alguma coisa a nós, que fazemos parte de uma sociedade que não gosta de perguntas, e muito menos de respostas, sobre o único necessário? Pode um homem como Pedro de Alcântara, em cuja vida se manifesta “suma pobreza, profunda humildade, desprezo e afastamento de tudo o que parecesse estar sendo dado de presente, comodidade pessoal e temporalidade” , dizer alguma coisa aos homens do final deste século e particularmente a nós, frades menores?

Apesar da distância, que aparentemente parece existir entre São Pedro de Alcântara e nós, há aspectos de sua vida extremamente atuais. Entre todos, quero sublinhar três: homem de profunda contemplação, homem de constante busca e discernimento, homem a serviço dos outros como mestre espiritual.

1) Homem de profunda contemplação

São Pedro de Alcântara é um homem de Deus, é um gigante do espírito, porque deixou Deus crescer nele. A oração e a contemplação são o selo, o fundamento, a alma, o coração … é o tudo de sua vida. O espírito de oração e devoção constitui a grande prioridade – qualitativamente fa1ando – do projeto de vida da reforma alcantarina: tudo está em função dela e a seu serviço. A penitência e a mortificação encontram seu sentido mais profundo como disposição para uma oração confiante de abandono, na qual o ser humano se coloca por completo nas mãos de Deus. Sua grande atividade apostólica brota da profunda comunhão com Deus, nascida e alimentada pela “oração de mais horas”. Este primado qualitativo, porém, traz consigo também o primado prático da oração. Esta há de ser a primeira ocupação e preocupação dos Irmãos.

Os homens de hoje, sobretudo nós frades menores, como São Pedro de Alcântara, precisamos redescobrir a beleza do “coração e mente voltados para o Senhor”. O mundo de hoje, marcado por um ateísmo favorável ao religioso, está nos pedindo aos gritos que sejamos testemunhas de Deus, que criemos lugares de experiência de Deus. Nosso futuro dependerá, em grande parte, da capacidade de testemunhar aos outros a presença de Deus. Como nos preparamos, pessoal e comunitariamente, para esse futuro? Como respondemos à vocação de sermos testemunhas de Deus numa sociedade marcada pela secularização?

2) Homem em constante busca e discernimento

Pedro de Alcântara foi um homem em caminho, “peregrino e forasteiro” (1Pd 2,11), não só em sentido físico, mas também, e sobretudo, por sua constante atitude de discernimento e de busca da vontade do Senhor. Porque foi pobre e livre, viveu sempre e inteiramente disponível para o Senhor; porque experimentou a eficácia libertadora da pobreza, se sentiu sempre itinerante, disposto a abandonar atividades, ofícios e estruturas que não respondiam à sua vocação de frade menor.

Os homens de hoje, particularmente os frades menores, precisamos recuperar a liberdade que a pobreza nos dá; recomeçar a itinerância que estimula a criatividade; reacender o anseio pela pátria que nos força a deixar estruturas envelhecidas; abandonar seguranças que nos amarram e certezas que nos imobilizam. Como São Pedro de Alcântara, o discernimento do que o Senhor nos está pedindo aqui e agora há de ser a nossa constante preocupação. Não basta sermos fiéis: o Senhor nos pede uma fidelidade criativa. São Pedro de Alcântara nos ensina a viver abertos àquilo que o Espírito nos pede hoje para sermos fiéis a Cristo, que nos chamou, fiéis a Francisco, que é nosso modelo no seguimento, fiéis ao homem de hoje, a quem temos de testemunhar, com palavras e obras, “que só Ele é onipotente” (CtaO 9).

3) Homem a serviço dos outros como mestre espiritual

São Pedro de Alcântara foi um homem que pôs a serviço dos outros os dons que tinha recebido do Senhor. Um homem em quem a graça do Senhor não foi vã e que fez frutificar os talentos recebidos não só em próprio benefício, mas também em favor dos outros, ajudando a todos que lhe pediam conselho nas coisas que agradam ao Senhor.

São Pedro de Alcântara foi um grande mestre espiritual, porque foi um homem de Deus. Ensinou os caminhos de Deus a partir de sua experiência de Deus. Teresa, a grande, disse de Frei Pedro: “Desde o começo vi que me entendia por experiência própria, e isto era tudo o de que eu precisava … ” E isto, porque “da vida de perfeição – afirma ainda Santa Teresa na sua Autobiografia – só se pode falar com aqueles que a vivem”. Só quem vive na luz pode “iluminar tudo”. Só pode comunicar Deus quem nele vive.

No mundo de hoje há muitas pessoas, sobretudo jovens, que têm grande fome de Deus. Cabe a nós saciar essa fome a partir de uma profunda experiência daquele que é amor. Cabe a nós conduzi-los aos poços de água viva para saciar sua sede de eternidade. Cabe a nós acompanhá-los para que descubram que aquele, a quem buscam, caminha a seu lado; que aquele, por quem suspiram, pede para permanecer em sua casa.

Celebrar significa fazer memória, e fazer memória significa atualizar aquilo que celebramos e aquilo de que fazemos memória. Celebrar e fazer memória de São Pedro de Alcântara exige de todos nós colocar-nos a caminho para viver, encarnando-as em nosso tempo, as prioridades de seu projeto de vida, que não são diferentes das do projeto de vida de Francisco de Assis.

Isto é o que imploramos da Virgem Mãe, a quem invocamos com a mesma oração que lhe dirigia São Pedro de Alcântara: “Ó Virgem Santíssima, Mãe de Deus e Rainha do céu, Senhora do mundo, Sacrário do Espírito Santo, Lírio de pureza, Rosa de paciência, Paraíso de delícias, Espelho de castidade, Modelo de inocência! Rogai por estes pobres desterrados e peregrinos e derramai sobre eles as sobras de vossa superabundante caridade!”

Trecho da Carta do então Ministro Geral da OFM, Frei Giacomo Bini, em outubro de 1999, por ocasião do V Centenário de Nascimento de São Pedro de Alcântara.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Especial - São Pedro de Alcântara, um gigante do espírito


Franciscanos celebram São Pedro de Alcântara dia 19. 

Frei Pedro nasceu em Alcântara (Cáceres, Espanha) em 1499. Filho de Alonso Garabito e de Maria Vilela, recebeu no batismo o nome de Juan de Sanabria. Depois de três anos de estudos em Salamanca (1511-1515), entrou na Ordem Franciscana, na Custódia do Santo Evangelho (1516), que mais tarde, em 1520, se converteria em Província de São Gabriel. Em Majarretes (Badajoz), lugar de seu noviciado, nasceu um novo homem: Juan de Sanabria se transformou em Pedro de Alcântara.

Pouco depois, em 1519, um pouco antes de ser ordenado sacerdote, foi enviado como superior para fundar o Convento de Badajoz. Completados os estudos de filosofia, teologia, direito canônico, moral e homilética, conforme as determinações da época, foi ordenado sacerdote em 1524. Tornou-se superior em Robledillo, depois em Placencia e novamente em Badajoz, até que em 1532 obteve permissão para recolher-se a uma vida mais contemplativa no convento de Santo Onofre da Lapa. Em 1538 foi eleito Ministro Provincial da Província de São Gabriel.


São Pedro de Alcântara

Durante o período em que foi ministro provincial redigiu para seus religiosos estatutos muito severos, aprovados no Capítulo de Placencia, em 1540. Mas o começo de sua reforma teve lugar em 1544 quando, com o consentimento de Julio III, retirou-se para a pequena igreja de Santa Cruz de Cebollas, próximo de Coira. Em 1555 construiu o célebre convento de Pedroso, seguido de outros. A partir deste momento, a reforma prosperou amplamente e, em 8 de maio de 1559, obteve a aprovação de Paulo IV, que permitiu sua difusão também no exterior.

Pedro de Alcântara, com sua reforma, queria trazer de volta a Ordem Franciscana à genuína observância da Regra. Mediante a suma pobreza, a rígida penitência e um sublime espírito de oração alcançou os mais altos graus de contemplação e pode atrair numerosos franciscanos por aquele caminho de reforma que se propunha fazer reviver em seu século o franciscanismo dos primeiros tempos.

Foi confessor e diretor espiritual de Santa Teresa de Ávila e ajudou na reforma da Ordem Carmelita. Santa Teresa escreveu sobre ele: “Modelo de virtudes era Frei Pedro de Alcântara! O mundo de hoje já não é capaz de uma tal perfeição. Este homem santo é de nosso tempo, mas seu fervor é forte como de outros tempos. Tem o mundo a seus pés. Que valor deu o Senhor a este santo para fazer durante 47 anos tão rígida penitência!”.

Depois de uma grande atividade eremítica e apostólica, morreu em Arenas de San Pedro (Ávila), no dia 18 de outubro de 1562, aos 63 anos. Em 1622 foi beatificado por Gregório XV e, em 1669, foi canonizado por Clemente IX. Em 1826 foi declarado Padroeiro do Brasil

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Francisco de Assis, o fascinante.





O mês de outubro, logo no início, dia 4,  nos leva a comemorar as maravilhas operadas pelo  Senhor na figura do italiano  Francisco de Assis. Joseph Lortz, ao escrever uma biografia sobre o santo, deu-lhe o título de Francisco de Assis, santo incomparável (Vozes,  1982).  “Francisco foi tão original e único que dificilmente se pode encontrar um paralelo. E por isso era  incomparável no que tinha de   mais pessoal e próprio. Sua admirável presença nos deixou apenas algumas poucas, porém inestimáveis páginas de louvores, ordenações e bênçãos. Os que conviveram com ele resumiram suas impressões em formas  totalmente insuficientes, se tomarmos em conta a grandeza e a envergadura do santo, ainda que alguns desses escritos sejam magníficos, principalmente os de Tomás de Celano (p. 12).  Demos ao nosso breve texto o título de  Francisco de Assis, o fascinante.

Damos a palavra a Michel Sauquet  que  em 2015 publicou um valioso texto sobre São Francisco:  Le passe-murailles. François d’Assise: un  héritage  pour penser l’interculturel au XXIe siècle. Francisco visto como aquele que derruba, suprime os muros e muralhas. Ele nunca quis fundar uma Ordem. Fê-lo por necessidade.  Suas opões espirituais evidentemente tiveram repercussão na sociedade. Importante sua postura diante do que é diferente.  “São Francisco de Assis por suas palavras e seus atos sugeriu que as diferenças podem ser motivo de alegria e não de sofrimento, motivo de riqueza e não diminuição. Colocou em evidência a vantagem que se pode ter quando se consegue vencer  “o medo dos bárbaros” para retomar o título de um livro do filósofo Tzvetan Torodov”  (p. 11).


Difícil dizer todos os motivos que levaram e levam a tantos a se sentirem próximos de Francisco. Tem-se a impressão que o Poverello é a reencarnação de Jesus Cristo, uma nova presença de Cristo no meio dos homens. Como São Paulo, Francisco podia dizer: “Já não sou eu que vivo. É Cristo que vive em mim”. Conhecida e sempre citada a palavra de Julien Green: “São Francisco de Assis é o cristianismo em todo o seu frescor matinal, é a redescoberta do Evangelho… Por vezes me pergunto se Cristo não nos prodigalizou uma segunda vez o Evangelho na vida de São Francisco”.

Francisco fascina o cardeal Bergoglio que, eleito papa, adota o nome do Poverello Papa Francisco. Em sua Carta Encíclica  Laudato Si’: “Não quero prosseguir esta encíclica  sem invocar um modelo belo e motivador. Tomei o seu nome por guia e inspiração, no momento da minha eleição para Bipo de Roma. Acho que  Francisco é o exemplo por excelência  do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção  particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado  pela sua alegria,  a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”  (Laudato Si”  10)

O Poverello se deixa extasiar pelos mistérios de Cristo, pelo “evangelho” que é Cristo. Fica profundamente tocado pela cena do presépio. Parece sentir na carne a pobreza e as carências do Menino das Palhas. Um Deus que se torna misericórdia na cruz.  Vai chorar incontrolavelmente diante do Crucificado.  “O Amor não é amado”.  No final de sua caminhada, tão curta caminhada,  tem mas mãos, nos pés e no lado os sinais das chagas do Redentor.  Refaz em sua carne os mistérios do Salvador. Não seria por isso que ele é incomparável e fascinante?

Todos andam atrás dele porque ele é irmão. Para ele ninguém é superior a ninguém. Os irmãos respeitam, amam, cuidam dos  irmãos. Lavam os pés uns dos outros. Todos somos irmãos: o menininho, o lobo, o doente, a senhora  Jacoba, as estrelas, o fogo, o bandido e até mesmo a morte.  Ele entoa a cantiga da fraternidade. Por isso é encantador.  Por isso, fascinante.

Nunca quis aparecer. Foi despojado. Não queria que os irmãos se preocupassem com nada, nem mesmo com livros.  Francisco é livre, livre de tudo e de si mesmo, despojadamente livre e amorosamente simples.  Por isso todos correm atrás dele.

Encanta-nos o carinho de Francisco pelo irmão “cristão”, pelo irmão leproso. Francisco, nosso Francisco, é aquele que se aproxima das coisas insignificantes aos olhos de todos. Ali vislumbra uma nítida imagem do Deus que se tornou insignificante. Lava as chagas do leproso, come com o leproso, acerca-se com o que é do leproso.  Depois que o tempo foi passando quando muitos o exaltavam ele dizia ter saudade dos tempos passados, tempo em que não era conhecido e lavava as chagas de desconhecidos leprosos.  Por isso tantos andam atrás dele.

Francisco se faz veículo da paz. Fala da paz e promove a paz.  Quer que seus irmãos se saúdem com votos e desejos de paz: “O  Senhor vos dê a paz”.  Pede que o lobo de Gubbio tenha a bondade de respeitar os habitantes do pedaço.  Suplica que o  bispo e o podestà de Assis se entendam e se perdoem.

O austríaco Kurt Waldheim, antigo secretário geral da ONU, declarava em outubro de 1982: “São Francisco de Assis é o símbolo da paz, do respeito pela natureza e do amor pelos pobres que fazem parte  do ideal  perseguido pelas Nações Unidas  cuja  Carta foi assinada na cidade  de San Francisco (EUA)  que leve o nome do Pobre de Assis”.

Façamos espaço para que Francisco possa passar!  Seu espírito não morreu.

Texto de Frei Almir  Ribeiro Guimarães, OFM

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/?p=143024

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Nossa Senhora Aparecida - Virgem Maria, a Mãe de Deus.




Frei Regis Daher, OFM

A Virgem Maria, a Mãe de Deus, é invocada conforme a história do povo cristão, em locais e regiões as mais distintas. Mesmo no Brasil, ela é chamada por muitos ‘nomes’. É quase automático nos lábios das pessoas, diante do inesperado ou do mistério grande das coisas, a exclamação: “Virgem Maria”! ou “Nossa Senhora”!

Para o descrente ou apenas o racional, a exclamação pode simplesmente ser um reflexo religioso inconsciente… No entanto, é curioso e muito significativo, que culturalmente o povo brasileiro chame sempre pela “mãe”, por uma “mulher”… que a fé sabe ser uma “bendita entre as mulheres”, porque é “cheia de graça”!

No Brasil, ela ganhou as feições simples e humildes de seu povo. É simplesmente a “Aparecida”, porque surgiu das águas, nas redes de gente simples como ela, os pescadores do rio Paraíba. A água escureceu sua imagem da argila, cor da terra. Apareceu negra, cabeça separada do corpo, que o homem colou e uniu. Outros sinais da identificação com o seu Filho e os seus irmãos: os renascidos da água e do espírito, membros do mesmo e único corpo, do qual o Cristo é a cabeça.

Antes dela ser “Aparecida”, já era a “Conceição”, aquela que concebe e dá à luz à própria Luz que veio a este mundo. Sabiamente diziam os Padres da Igreja que, primeiro Maria concebeu seu Filho na fé, crendo na Palavra que lhe foi anunciada e, por isso concebeu-O também no seu corpo. Tornou-se, então, o modelo e protótipo da Igreja, de todos os que, como ela, geram o Cristo pela fé.

São Francisco de Assis, na sua 2ª Carta aos Fiéis (48-53), depois de falar sobre a necessidade da completa conversão da atitude de egocentrismo, afirma:

“Aqueles que assim agirem e perseverarem até o fim, verão repousar sobre si o Espírito do Senhor e ele fará neles sua morada permanente, e serão filhos do Pai celestial cujas obras fazem. E serão esposos, irmãos e mães de nosso Senhor Jesus Cristo. Somos seus esposos, quando a alma crente está unida a Jesus Cristo pelo Espírito Santo. Somos seus irmãos quando fazemos a vontade de seu Pai, que está nos céus. Somos suas mães, se com consciência pura e sincera o trazemos em nosso coração e nosso seio e o damos à luz por obras santas que sirvam de luminoso exemplo para os outros”.

Para São Francisco a grandeza e a importância de Maria está no fato dela ter feito Cristo nosso irmão, dando-lhe a carne de nossa humanidade. Ele a vê sempre unida ao seu Filho. Por isso, a devoção a ela se faz na vida conforme o Evangelho. Francisco não só recorre à proteção de Maria, mas assume as atitudes dela frente a Deus, e como ela, concebe, gera e dá à luz à Palavra de Deus, dando-lhe vida e forma. É a fecundidade espiritual dos que, como Maria, geram o Cristo em suas vidas.

Consagração a Nossa Senhora Aparecida

Ó Maria Santíssima, que em vossa imagem querida de Aparecida, espalhais inúmeros benefícios sobre todo o Brasil, eu, embora indigno de pertencer ao número de vossos filhos e filhas, mas cheio do desejo de participar dos benefícios da vossa misericórdia, prostrado a vossos pés, consagro-vos o entendimento, para que sempre pense no amor que mereceis; consagro-vos a língua para que sempre vos louve e propague vossa devoção; consagro-vos o coração para que depois de Deus vos ame sobre todas as coisas.

Recebei-nos, ó Rainha incomparável, no ditoso número de vossos filhos e filhas, acolhei-nos debaixo de vossa proteção; socorrei-nos em nossas necessidades espirituais e temporais, e sobretudo na hora de nossa morte.

Abençoai-nos, ó Mãe Celestial, e com vossa poderosa intercessão fortalecei-nos em nossa fraqueza, a fim de que, servindo-vos fielmente nesta vida, possamos louvar-vos, amar-vos e render-vos graças no céu, por toda a eternidade.

Assim seja.

sábado, 7 de outubro de 2017

São Francisco de Assis - Medieval ou Moderno?




No dia 04 de outubro festejamos São Francisco de Assis (1181 – 1226). Depois de quase 800 anos da sua morte, podemos nos perguntar: o seu modo de viver e a sua mensagem são ainda atuais?

Quem nos ajudará a refletir sobre isso é o historiador francês, especialista em Idade Média, Jacques Le Goff, em sua obra São Francisco de Assis.

São Francisco Medieval ou Moderno?[1]

A novidade da mensagem de Francisco, a novidade de seu estilo de vida e de seu apostolado abalaram em primeiro lugar seus contemporâneos. “Em um tempo em que a doutrina evangélica era estéril, não apenas em sua terra mas em todo o universo, ele foi enviado por Deus para dar através do mundo inteiro, como os Apóstolos, testemunho da verdade. Nele e por ele o universo conheceu um reerguimento inesperado e uma re-novação de santidade, a semente da antiga religião renovou logo um mundo envelhecido na rotina e na tradição” (Vita prima, 89).

Francisco viveu em sintonia com o seu tempo, se ele foi moderno, é porque seu século o era. E isso não é diminuir nem sua originalidade nem sua importância, mas constatar, como o fez admiravelmente Luigi Salvatorelli[2], que ele “não surgiu como uma árvore mágica no meio do deserto”, mas que é o produto de um lugar e de um momento, “a Itália comunal em seu apogeu”.

Nesse contexto, três fenômenos são decisivos para a orientação de Francisco: a luta de classes, a ascensão dos leigos e o progresso da economia monetária. Diante disso, que tem de moderno a resposta de Francisco?

A cultura e a sensibilidade de cavalaria, que adquiriu antes da conversão, Francisco carregou com ele em seu novo ideal religioso: a Pobreza é sua Senhora, Senhora Pobreza, as Santas Virtudes são de modo semelhante heroínas da corte, o santo é um cavaleiro de Deus, dublê de trovador, de jogral. Os capítulos de Porciúncula inspiram-se nas reuniões da Távola Redonda em torno de Artur. Seria essa a modernidade de São Francisco, a de ter introduzido o ideal de cavalaria no cristianismo, como os primeiros cristãos nele tinham introduzido o ideal esportivo autêntico – o santo atleta de Cristo -, e São Bernardo, o ideal militar da primeira cavalaria, a Milícia de Cristo?

As direções propriamente religiosas de Francisco da mesma forma podem parecer tradicionais. A tendência eremítica remonta no mínimo ao estabelecimento do cristianismo, no século IV, e desde então não cessou. Francisco e seus companheiros em todos os eremitérios que frequentam não são diferentes, à primeira vista, de um povo todo de solitários que, em sua época, frequentava as grutas, as florestas, as altitudes de toda a Itália, da Calábria ao norte dos Apeninos. A prática do trabalho manual se liga ao beneditismo primitivo como à reforma monástica do século XI-XII, conduzida pelos mosteiros de Prémontré e de Cister (Cîteaux). A pobreza é, desde o fim do século XI, a palavra de ordem de todos esses Pauperes Christi, esses Pobres de Cristo que pululam por toda a Cristandade.

A originalidade de Francisco estaria apenas no fato de ter ele resistido à tentação herética à qual a maior parte desses Pobres cedeu? Certamente, dá-se nesse início do século XIII conseguiu-se que permanecessem na Igreja; em 1201 uma comunidade de Umiliati ortodoxos; em 1208, os Poveri Cattolici, ramo da seita valdense reunido em torno de Bernardo Primo. Mas o que é isso diante da multidão de albigenses e na própria Itália, no tempo de Francisco, dos cátaros, que têm um bispo em Florença e uma escola em Poggibonsi, dos patarinos, dos arnaldistas, dos valdenses? Em 1218, em Bérgamo, realiza-se um congresso dos Poveri Lombardi, em 1215 Milão é chamada “fossa de hereges”, Florença em 1227 ainda é tida como infestada pela heresia. E, no início, Francisco verdadeiramente quase se torna herege? É preciso distinguir as tendências e as circunstâncias. Houve certamente umas e outras com elementos que poderiam ter conduzido Francisco à heresia. A intransigente vontade de praticar o Evangelho integral despojado de toda a contribuição da história posterior da Igreja, a desconfiança a respeito da cúria romana, o desejo de fazer reinar entre os Menores uma igualdade quase absoluta e de prever o dever da desobediência, a paixão pela miséria levada até à manifestação exterior do nudismo que Francisco e seus irmãos praticaram à semelhança dos adamitas, o lugar dado aos leigos, tudo isso parecia perigoso, quase suspeito, à cúria romana. E, juntando seus esforços aos dos ministros e custódios assustados com tantas intransigências de Francisco, a cúria o submeteu a uma pressão e exigiu dele, se não abjurações, pelo menos renúncias que o conduziram certamente em 1223 à beira da tentação herética. Ele resistiu. Por quê? Muito provavelmente em primeiro lugar porque nunca alimentou sentimentos que, depois dele, levaram à heresia uma parte dos franciscanos Espirituais. Francisco não foi nem milenarista nem apocalíptico. Jamais interpôs um Evangelho eterno, uma idade de ouro mítica entre o mundo terrestre em que vivia e o mundo do além do cristianismo. Não foi o anjo do sexto selo do Apocalipse com o qual o assimilaram indevidamente alguns Espirituais. As elucubrações escatológicas heréticas dos Espirituais saíram de Gioacchino da Fiore, não de Francisco.

Mas o que o deteve sobretudo foi a determinação fundamental, sem cessar repetida apesar de toda pressão, de permanecer a todo preço – ele e seus irmãos – na Igreja. Por quê? Sem dúvida porque ele não quis quebrar essa unidade, essa comunidade à qual tanto se agarrava. Mas principalmente por causa do seu senso, de sua necessidade visceral de sacramentos. Quase todas as heresias medievais são contra os sacramentos. Ora, Francisco tem necessidade, no mais fundo de seu ser, dos sacramentos e, mais que todos, do primeiro entre eles, a Eucaristia. Para ministrar esses sacramentos, há necessidade de um sacerdote, uma Igreja. Francisco também – o que pode surpreender – está pronto a perdoar muito aos clérigos em troca desse ministério dos sacramentos. Em uma época em que mesmo os católicos ortodoxos põem em dúvida a validade dos sacramentos administrados por padres indignos, Francisco reconhece essa validade e a afirma sem rodeios. É porque distingue criteriosamente clérigos e leigos que ele tem necessidade dos primeiros e fica na Igreja.

Por isso se pode dizer que, com São Domingos, por caminhos diferentes, ele salvou a Igreja ameaçada de ruína pela heresia e por sua descendência interna. Francisco realizou o sonho de Inocência III. Alguns, aliás, escandalizaram-se com isso e o deploraram, desde Maquiavel: “E foram foram tão poderosas as Ordens novas que são a razão pela qual a desonestidade dos prelados e chefes da religião não a arruínam [não arruínam a religião]; vivendo ainda pobremente e tendo tanto crédito nas confissões, com os povos, e nas pregações, eles lhes fazem compreender como é mau falar mau do mal e que é bom viver sob a obediência, e que se estes cometerem erros, deixem a Deus que os castigue; e assim fazem o pior que podem, porque não temem a punição que não vêem e na qual não crêem”.

É certo que Francisco foi um desses álibis que a Igreja perdida no século encontra periodicamente.

Esse Francisco, tão ortodoxo quanto se tenha afirmado e mais tradicional do que frequentemente o apresentam, não foi então verdadeiramente um inovador? Sim, e em pontos essenciais.

Tomando e dando como modelo o próprio Cristo e não mais seus apóstolos, ele comprometeu o cristianismo com uma imitação do Deus-Homem que voltou a dar ao humanismo as ambições mais altas, um horizonte infinito.

Vencendo ele próprio a tentação da solidão para ir ao meio da sociedade viva, nas cidades, e não nos desertos, nas florestas ou no campo, rompia de maneira decisiva com um monaquismo da separação.

Propondo como um programa ideal positivo, aberto ao amor de todas as criaturas e de toda a criação, enraizado na alegria e não mais na accedia mal-humorada, na tristeza, recusando-se a ser o monge ideal da tradição dedicada a chorar, ele abalou a sensibilidade medieval e cristã e reencontrou um júbilo primitivo, depressa abafado por um cristianismo masoquista.

Fazendo com que a espiritualidade cristã chegasse à cultura leiga de cavalaria dos trovadores e à cultura leiga popular do folclore camponês com seus animais, seu universo natural, o maravilhoso do franciscanismo fez saltar a tampa que a cultura clerical fazia pesar sobre a velha cultura tradicional da humanidade.

Aqui também, essa volta às fontes era o sinal e o penhor da renovação e do progresso.

Volta às origens, porque não se pode esquecer finalmente que o franciscanismo é reacionário. Em face do século XIII, moderno, ele é a reação não de um inadaptado como  como Gioachino ou Dante, mas de um homem que quer, diante da evolução, resguardar valores essenciais. No próprio Francisco essas tendências reacionárias podem parecer quiméricas e até perigosas. No século das universidades, a recusa à ciência e aos livros, no século da cunhagem dos primeiros ducados, dos primeiros florins, dos primeiros escudos de ouro, o ódio visceral pelo dinheiro – Francisco, na Regra de  1221, alheio a qualquer sentido econômico, grita: “Não devemos dar maior importância às moedas do que às pedras.” Não é uma perigosa tolice? Seria, se Francisco tivesse desejado estender a toda a humanidade sua Regra. Mas exatamente Francisco não desejou transformar seus companheiros em ordem, não pretendia reunir mais do que um pequeno grupo, uma elite que mantivesse um contraponto franciscano, uma inquietação, um fermento no mundo do bem-estar. Esse contraponto franciscano permaneceu uma necessidade do mundo moderno, para os crentes como também para os não-crentes. E como Francisco pregou, pela palavra e pelo exemplo, com uma chama, uma pureza, uma poesia inigualável, o franciscanismo permanece, ainda hoje, uma “sancta novitas”, segundo a palavra de Tomás de Celano, uma santa novidade, eu Poverello não apenas um dos protagonistas da história, mas um dos guias d humanidade.

Bibliografia

LE GOFF, Jacques. São Francisco de Assis. Trad. Marcos de Castro. 3ª ed.. Rio de Janeiro: Record, 2001.
[1]     Trechos retirados da obra, p. 101 – 115.
[2]     Professor de História do Cristianismo, na Universidade de Nápoles (Itália), 1918-1921. 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A ternura do Poverello pelo Coração do Senhor.



Reflexão sobre o Sagrado Coração de Jesus para a primeira sexta-feira do mês.

Aprendemos, ao longo de nossa vida, a nos colocar reverentes diante do Cristo Jesus, sol, caminho, verdade, vida, pão de nossas vidas.  Temos plena convicção de que Jesus, o Filho de Deus feito homem na carne de Maria, hoje vive entre nós na qualidade de Ressuscitado.  Cada vez que pensamos em Jesus, recordamo-nos de seu amor que foi até o fim, até o esvaziamento de tudo que nele existia pela fresta do coração, pela cavidade de seu peito aberto. Francisco de Assis demonstrou um imenso amor pelo Cristo que ama até o fim.

 Cristo é o Bom Pastor. “Irmãos, todos prestemos atenção ao Bom Pastor que, para salvar suas ovelhas, suportou a Paixão da cruz. As ovelhas no Senhor seguiram-no na tribulação e na perseguição, na vergonha e na fome, na enfermidade e na tentação e em outras coisas mais e a partir disso receberam a glória eterna” (Adm n.VI).  Esse Jesus tão puro e tão belo é o Pastor que dá a vida pelos seus.

 A devoção ao Coração de Jesus está vinculada ao amor de Jesus manifestado na Eucaristia. Os que contemplam o peito aberto de Cristo recebem com  cortesia e humildade o corpo do Senhor: “Pois eu lhes peço humildemente a todos vocês, meus irmãos, beijando-lhes os pés, e com todo o amor de que sou capaz: testemunhem toda reverência e toda honra tão grande como lhes é possível, ao Corpo e ao Sangue santíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo, em quem foi pacificado e reconciliado com Deus todo poderoso, tudo o que há no céu e na terra” (Carta enviada a toda a Ordem 12-13).

 Tomás de Celano não encontra palavras adequadas para descrever o amor do Poverello por Jesus. Francisco estava sempre sorvendo as águas límpidas que jorravam da fonte do puro amor, ou seja, do Coração do Redentor. “Os irmãos que viveram com ele sabem com quanta ternura e suavidade, cada dia e continuamente, falava-lhes de Jesus. Sua boca falava da abundância do seu coração e a gente teria dito que a fonte do puro amor, que enchia sua alma, jorrava de sua superabundância. Quantos encontros entre Jesus e ele. Levava Jesus em seu coração, Jesus em seus lábios, Jesus nos ouvidos,  Jesus nos seus olhos, Jesus em suas mãos, Jesus em toda parte.  Durante as viagens também, muitas vezes, de tanto meditar e cantar Jesus, esquecia-se de caminhar e convidava todos os elementos a louvar Jesus com ele (1Celano 115).

 Em toda a vida, após o encontro com o leproso, Jesus ocupou todo o lugar de sua vida. E o amor apaixonado foi de tal monta que, no final da caminhada, no alto do rude e solene Monte Alverne, o Poverello ganha em suas carnes os sinais de Cristo. Quem desceu do Alverne não era mais Francisco, mas “um outro Cristo”.  Boaventura descreve assim seu amor por Cristo: “Um dia, no princípio de sua conversão,  ele rezava na solidão e, arrebatado por seu fervor, estava totalmente absorto em Deus e apareceu-lhe o Cristo crucificado. Com esta visão  sua alma se comoveu e a lembrança da Paixão de Cristo penetrou nele tão profundamente que, a partir deste momento, era-lhe impossível reprimir o pranto e suspiros quando começava a pensar no Crucificado (Legenda Maior I,5). Ora, os que contemplam o Coração do Redentor também se comovem diante da Paixão do Amado que precisa ser amado.

Frei Almir Ribeiro Guimarães

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

VOLTA FRANCISCO, VOLTA À TERRA!




Ele devia ter se chamado Pascoal

Voara para os céus um homem, um poeta, uma visão nova da vida, um homem como outro não apareceu mais sobre a terra! Voou para o Alto? Não voltará? Volta de novo à terra, ó Pai Francisco. Andaste no trabalho ingente e doloroso de arredar os espinhos que escondem no coração do mundo o Reino dos céus; chagaste no trabalho os teus pés e mãos, teu peito estalou de cansaço num rasgão sangrento. E já os lobos amansavam suas gulas e sanhas, e as andorinhas andavam presas no encanto de tua voz, e os homens deixavam os campos de batalha para correr atrás de ti em convívio fraterno, e até os infiéis, enternecidos, escutavam teus cantares de Paz e Bem. Parece que já nos sorria o paraíso (O Poverello São Francisco de Assis, Pe. Fernando Felix Lopes, Braga, p. 493-494).


1. Quando chega o mês de outubro, nossa atenção se volta para a comemoração de São Francisco, para o desfecho de sua vida, para a páscoa desse homem. Pensamos também em nós todos, que nos dizemos franciscanos e que, ao longo do tempo da vida, vamos construindo nossa identidade, hoje num tempo de incertezas, numa época de sérios questionamentos. Desde os primórdios de nossa história fomos compreendendo que ser cristão franciscano era viver em estado de passagem, de andança, de peregrinação. Roupas e calçados leves, uma vida nas mãos de Deus, uma história a ser construída com as visitas do Senhor, peregrinos sem muita bagagem e pobres caminhando quase que sem lenço nem documento com outros peregrinos, também pobres e simples. Esse o sonho de nossa juventude. O peso das obras e as engrenagens da instituição nem sempre ajudam. É bom contemplar esses momentos finais da vida de Francisco, celebrar sua páscoa e cantar com ele a chegada desta Irmã que leva para a Terra dos Vivos, a Irmã Morte.

2. Lá está ele estendido sobre a terra, esse Francisco! Sem nada e de tudo cumulado. Um homem que foi se tornando transparente. Está deitado na terra nua, encarnação total da pobreza. Canta o salmo, lembra a noite de despedida do Senhor no evangelho de João. Esperando a chegada de Fra Jacoba, ia se despedindo de todos, depois de ter composto a última estrofe para o Cântico das Criaturas. Havia feito a sua parte. “Daquele corpo em destroços, ali estendido no chão, cresce e sobe ao apagar-se na distância das Alturas, a melodia do salmo. E, subindo, a voz como se fora de um homem renascido, na justiça original, voz de criança, argêntea e bela, abre nas trevas da noite esteira de tanta luz que arrasta consigo um bando de cotovias entontecidas por aquela madrugada nova” (O Poverello..., p. 493).

3. André Vauchez, celebrado historiador da Idade Média, evoca alguns detalhes da última passagem de Francisco: “Não há razão alguma para colocar em dúvida o relato dos últimos momentos edificantes do final dos dias de Francisco. Como ele tinha se esforçado por fazer de sua vida umexemplum, Francisco quis teatralizar sua morte fazendo dela um “drama sagrado”, revivendo as últimas etapas da vida de Cristo, da Ceia ao Getsêmani, deixando assim aos irmãos inesquecível lembrança. A Legenda Perusina acrescenta um episódio que tem uma nota de humanidade em todo o desenrolar da cena. Poucos dias antes de sua morte, Francisco teria tido a visita de uma viúva de alta linhagem, Jacoba de Settesoli, que pertencia à família romana dos Frangipani e pela qual ele tinha uma profunda estima e que era retribuída. Quando o Poverello pensou em escrever-lhe para informar de seu estado de saúde, espontaneamente ela veio a Assis trazendo-lhe o que era necessário para atravessar essa última etapa: uma túnica cinza com a qual ele podia ser enterrado, cera para fazer as velas e incenso para perfumar o lugar onde ele ia entregar sua alma. Francisco não havia ainda morrido e Jacoba estava ali e trazia também ummostacciuollo, um doce feito à base de amêndoas, açúcar e mel, que Francisco apreciava muito e que ele tinha degustado por ocasião de sua precedente visita. Comeu-o de uma só vez. Esse episódio acrescenta uma nota pitoresca a esse edificante final de vida: Jacoba, como mulher não podia entrar na Porciúncula, no interior da clausura. Francisco teria escapado a eventuais críticas dos que o cercavam dando à nobre romana um título masculino de “Fra (Irmão) Jacoba”. Aquele que, logo em seguida seria celebrado como um novo Cristo, precisou de uma nova Madalena... E ainda: um santo que se respeita não morre comendo doces! Certamente esta é a razão pela qual este pormenor não aparece nos textos posteriores a 1250 quando a reputação de santidade do Poverello estava solidamente estabelecida” (François d’Assise, Entre l ’ histoire et la mémoire. Bayard, Paris 2009, p. 219-220). Uma morte cheia de humanidade!

4. Esta foi a páscoa de Francisco. A páscoa definitiva na total nudez, na dramatizaçaõ que repetia os últimos momentos de Cristo. Sua vida toda, no entanto, fora uma existência de passagens. Bem no começo de tudo, quando ainda estava em pecados, o Senhor fizera com que ele começasse suas passagens, dirigindo-se aos leprosos. O Senhor o havia conduzido... O Altíssimo é que o convidava ao êxodo. No beijo dado ao leproso houve uma passagem outra: o amargo se transformou em doce e o doce em amargo. Sempre essas passagens que são sugeridas pelo Senhor. Houve a passagem de viver dos lucros da loja do pai para a vida unicamente nas mãos de Deus. Ele e seus irmãos haveriam de ser peregrinos, pessoas com pouca bagagem, sempre em viagem. “Os irmãos não se apropriem de nada, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma. E como peregrinos e forasteiros neste mundo servindo ao Senhor em pobreza e humildade...” (Regra bulada VI). Tudo é provisório, só Deus é definitivo. Reclamar da falta de conforto e buscar segurança é voltar às cebolas do Egito. Os biógrafos falam que ser peregrino é ser recebido em casa alheia, ter a nostalgia da pátria, irradiar a paz à sua passagem.

5. Assim, no verdor de nossos dias, quisemos nós que nossa vida também fosse uma existência marcada pela passagem. Tentamos sair de nós mesmos. Prometemos estar sempre a caminho do Senhor numa vida de intimidade, de busca do silêncio, de auscultação dos caminhos que ele quiser nos mostrar. Pegamos na mão de confrades que começamos a conhecer no noviciado e fomos em frente... talvez ajuntando coisas demais ao longo do caminho: bens materiais, apegos ao nosso ego, vontade de ter mais do que o necessário, falta de coragem de buscar uma terra distante que Deus nos estava mostrando, carreirismo, vontade de poder... Isso, sim, significa voltar às cebolas do Egito. Por vezes tivemos a tentação de nos deter e não caminhar como Abraão na certeza de há uma terra luminosa por detrás da neblina. Nem sempre tivemos coragem de morrer a nós mesmos. Mas muitas vezes, é verdade, na celebração da Eucaristia, fomos também fazendo a nossa páscoa e sentimos que, nesses momentos, havia um fogo novo a nos queimar o interior.

6. Francisco, um pouco antes de subir o Alverne, experimentou aperto no peito e no coração. Tinha a impressão de que a Ordem se lhe escapava das mãos. Não era aquilo que o Senhor queria dos frades. Houve densas trevas em sua caminhada. Sim, parecia que sua obra estava na rota do desvio. A Ordem tinha crescido demais: “Uma angústia profunda apoderou-se então de Francisco. Não seria desviar a fraternidade de sua vocação original, de seu carisma próprio, querer fazer dela uma Ordem, no sentido estrito da palavra? Sempre será difícil conciliar o espírito messiânico da fraternidade com as exigências de uma Ordem. Uma Ordem impõe estruturas, uma regra, uma hierarquia; cria inevitavelmente distinções e, às vezes, até exclusões. Privilegia a instituição, o coletivo. A fraternidade tal qual concebia Francisco, era antes um espaço de liberdade, onde cada irmão podia viver segundo o Espirito do Senhor. Um lugar de acolhimento de todos. Uma zona franca para a vida pura e irradiante, pela própria qualidade de suas relações” (E. Leclerc, O sol nasce em Assis, Vozes, p. 66-67).

7. Francisco sofria. Os frades haviam esquecido o espírito de simplicidade. Por vezes, a cólera subia-lhe ao semblante. Ele foi aos poucos se aproximando de uma área definitiva de passagem, de morte a si mesmo. Estava decepcionado com a Ordem: “Esta crise moral, agravada pela doença, foi para Francisco a passagem obrigatória para um despojamento radical. Ele se perguntava o que o Senhor esperava dele. O que fazer? Quase cego, sofrendo de diversas enfermidades, achou bom pedir sua demissão de ministro. Retirou-se para a solidão de um eremitério para esconder seu sofrimento e sua reovlta” ( E. Leclerc, idem, p. 68).

8. Ele não podia fechar-se num mutismo e num isolamento estéril. Não podia ficar ruminando amargura. Deus o esperava. Foi convidado a empreender uma última passagem. Teve de despojar-se de sua obra pessoal para, no dizer de Leclerc, tornar-se ele mesmo obra de Deus. Foi convidado pelo Senhor a não se perturbar. A Ordem e a obra eram do Senhor. “Francisco entendeu a exortação. E, como Abraão acreditou na Palavra, lançou no coração de Deus toda preocupação: Deus é , isto basta! Então, o coração de Francisco, abismando-se na adoração, tornou-se leve. Leve como a cotovia dos campos. Podia de novo expandir-se a céu aberto. Havia recuperado a alegria e o canto. Havia compreendido que a paz do coração é a forma suprema da pobreza” (p. 68).

9. E aí estamos nós no tempo dos redimensionamentos, da refundação, da busca de caminhos novos que possam ser abertos pelo Espírito. Nos tempos de nossos primeiros entusiasmos quisemos (e continuamos a querer) ser do Senhor e fazer de nossa vida uma existência de serviço para os irmãos, na simplicidade de nossa vida fraterna e nas andanças missionárias, tentando dizer, pelo exemplo e pela palavra, que o Amor precisa ser amado.. Mas tudo muda. Muda o modo de fazer pastoral. As igrejas se esvaziam. Nossas obras, há tempos atrás tão necessárias para a evangelização, tornaram-se pesadas, vazias e inúteis. Monstros, elefantes brancos! Desfazer-se delas? Custa. A própria vida religiosa conhece passagens. José Arregui, OFM, num artigo provocador, publicado na revista espanhola Lumen (2002), escreve: “Creio que é preciso desdramatizar radicalmente a escassez ou ausência de novas vocações: o reino de Deus, o sonho de Deus de um mundo mais feliz, não depende que nossas casas, obras e congregações perdurem. É necessário ir mais adiante e ter a coragem de encarar até mesmo a falta de vocações como um sinal do reino. Não será uma voz do Espírito, um sinal do Espírito criador, o espírito de Pentecostes, cheio de imaginação e novidade? O futuro do Espírito é vida, e a vida é uma novidade permanente. A vida se sobrepõe à morte quando sabemos aceitar a morte de tudo o que não é vivo, vital, vivificador. É preciso aprender a morrer para aprender a viver, não querer aferrar-se à vida que se vai, não querer reter o tempo, não aferrar-se ao nosso próprio passado. O futuro é a novidade de Deus, a imaginação do Espírito” (Ante el futuro de la vida religiosa, p. 206-207). Trata-se novamente do tema da passagem. Passagem-páscoa em nossa vida pessoal franciscana e páscoa das atividades, das obras, do peso daquilo que nos impede de sermos transparências do mundo que se chama reino.

10. Importante viver em profundidade. Viver em profundidade não significa agir freneticamente ad extra nem inventar coisas demais ad intra. Nossas instituições andam estressadas. Projetos, programas, encontros de revitalização, reuniões e reuniões, papéis, por vezes muitos papéis. Não podemos desanimar. Necessário reavivar a brasa, a chama. Mais importante é infundir ânimo àqueles que estão com mais de sessenta e espiam o futuro da Ordem com certa reticência. Será fundamental aceitar pascalmente nossa pobreza. Importante será aceitar nossa pobreza, nossos equívocos, nossas perdas. Nessa situação é possível viver com alegria, com dignidade. Arregui afirma: “Realismo não significa desânimo(...) É possível morrer com confiança e essa, talvez, seja a máxima fecundidade evangélica. Se vivermos com esse realismo confiante, podemos, mesmo sendo poucos e idosos e sem fazer nada de especial, constituir pequenas células de busca e de esperança viva” (p.210).

11. Ignace-Etienne Motte e Gérard Hégo escreveram um livro que fez história e continua atual: A Páscoa de São Francisco (Ed. Franciscana de Braga). Na conclusão, os autores afirmam que Francisco leva a lógica pascal do Evangelho até ultimas consequências. “Quem é apenas peregrino e forasteiro neste mundo, deve necessariamente desprender-se efetivamente de todos os bens do mundo: daí o primado da pobreza. Esta é a contribuição principal da espiritualidade franciscana à espiritualidade cristã. Coube a São Francisco descobri-la e trazê-la à plena luz. Não o fez através da especulação, pois não era teólogo; fê-lo pela experiência vivida. Peregrino e estrangeiro neste mundo, conduzido pelo Senhor para a Terra Prometida, a Terra dos Vivos, o Reino dos céus; assim, pode resumir-se a lição de sua vida. Possivelmente ninguém antes dele teria compreendido o Mistério da Páscoa, realizando-o de maneira concreta pela vida de pobreza: a pobreza franciscana é, antes de tudo, uma atitude religiosa que se explica em grande parte pela mística da Páscoa, a Páscoa de Moisés e a Páscoa de Jesus, morto e ressuscitado e elevado ao Reino dos céus (p.203-204).

12. Sim, somos homens e mulheres da Páscoa. Não nos fixamos em nada, a não ser no Senhor que nesses tempos anda pedindo que caminhemos para frente, mesmo na forte e densa neblina. Está claro: não podemos entrar nessa dança de andar de um lado para o outro, dando a impressão de que estamos renovando não sei o que. Visitar nossas origens, soprar as brasas, viver unidos em nossas casas, deixar que o Senhor nos mostre caminho, deixar que nosso coração bata com as batidas do coração de Deus e não com o frenesi barulhento de um mundo, de um espírito do mundo, que anda querendo que deixemos a trilha da Terra Prometida.

13. “Volta, Pai São Francisco, ao teu trabalho de encher a terra com a paz do Reino de Deus! Mas se não voltas, então espera-me, ó Pai, espera-me que também me quero partir contigo” ( O Poverello...p. 494).

14. Depois de tudo o que foi dito e refletido nessas linhas, me veio uma ideia não tão absurda. Francisco, que primeiro recebeu o nome de João dado pela mãe, depois de Francesco, o francezinho, dado pelo pai Bernardone, na realidade foi construindo uma vida que se transformou no homem das passagens, da Páscoa, e deveria se chamar Frei Pascoal.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM