sexta-feira, 22 de junho de 2018

Franciscanos seculares celebram 40º aniversário da Regra de Vida neste domingo.



Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM

 Ela é conhecida como Regra Paulina. Paulo VI, esse papa gigante, aprovou o projeto de vida evangélico-franciscana da Ordem Franciscana Secular. O documento tem a data de 24 de junho de 1978. Depois da abertura das janelas da Igreja para o vento novo do Vaticano II, os responsáveis pela Ordem Terceira Franciscana decidiram promover encontros e reuniões com participantes de todo o mundo para a preparação do documento. No processo de elaboração da Regra, o Brasil se fez representar pela figura veneranda de nosso irmão Paulo Machado da Costa e Silva, hoje com 101 anos, vivendo em Itaipava, no município de Petrópolis. Não é aqui e agora o intuito destas linhas de examinar pormenorizadamente todos os tópicos deste documento, que, apesar de seus quarenta anos de vida, ainda não foi suficientemente assimilado pelos franciscanos da 1ª como da 3ª Ordem. As linhas que se seguem constituem, antes de tudo, expressões de um frade menor que, por muitos anos, vibrou com a Ordem dos Leigos. Limitar-nos-emos a chamar atenção para um ou outro aspecto.

 Antes de mais nada é preciso atentar para o próprio nome. Dizíamos Ordem Terceira Franciscana (OTF). Durante muito tempo valorizou-se o aspecto místico devocional. No tempo de Francisco, no entanto, os irmãos da 3ª Ordem eram tidos como pessoas diferentes, que viviam o caminho da penitência e não pegavam em armas. Em alguns lugares, talvez com o tempo, algumas pessoas que ingressavam nessas fileiras buscavam uma associação piedosa que se vestia das cores franciscanas e que as ajudava a viver no mundo quase de passagem. Fuga do mundo? Uma associação que tivesse muitas cores da Ordem. Não sejamos injustos em nossos julgamentos. Certo, no entanto, que a inclusão desse adjetivo “secular” é de fundamental importância. Os “terceiros” constituem um grupo de cristãos que deseja viver a fé no mundo, no século. Não se trata de viver no mundo de todo dia e fugindo do mesmo mundo. Trata-se de amar esse mundo e de nele atingir a perfeição da caridade.


 Nesta altura de nossa reflexão cabe transcrever um tópico fundamental para a compreensão do projeto de vida aprovado pelo Papa Paulo VI em 1978: “No seio da Família Franciscana ocupa posição específica a Ordem Franciscana Secular que se configura como uma união orgânica de todas as fraternidades católicas espalhadas pelo mundo e abertas a todos os grupos de fiéis. Nelas, os irmãos e as irmãs, impulsionados pelo Espírito a atingir a perfeição na caridade no próprio estado secular, são empenhados pela profissão a viver o Evangelho à maneira de São Francisco e mediante esta Regra aprovada pela Igreja”.

 Leigos, fiéis cristãos leigos, homens e mulheres do século XXI, casados, solteiros, viúvos, intelectuais, costureiros, carteiros, merendeiras, deputados, médicas, sadios e doentes, jovens e idosos. Leigos, pessoas que vivem no mundo, no século, nas coisas de todos os dias. Não seres que buscam refúgio à sombra do Seráfico Pai. Pessoas felizes por seu casamento, a união carinhosa de marido e mulher, a paternidade e a maternidade, a profissão exercida. Pessoas que escutaram a voz do Senhor no paraíso: “Crescei e dominai a face da terra!” Repito, insisto: leigos que gostam de sua secularidade. Leigos que não têm nostalgia secreta de vestir um hábito e ficarem fazendo sermões em toda parte. Um laicato maduro não pode ser feito apenas de alguns auxiliares do clero no altar e na sacristia. Tema importantíssimo esse de um laicato maduro. Se assim na for, perderemos toda a riqueza da Regra de Paulo VI. Será como que colocar pano novo em roupa velha.

 Leigos e leigas que se reúnem em fraternidades, que fazem encontros, reuniões que são como que sacramento de seu mútuo querer bem. Essas reuniões não são intelectuais nem mornas, mas encontros bem vividos, onde os irmãos e as irmãs oram, estudam, estreitam seus laços, e traçam as estratégias do ir pelo mundo. Reuniões com a presença de um frade da Ordem 1ª ou da TOR, não para ser um “enfeite” franciscano, mas homens que vivem o mesmo ideal e que são irmãos, assistentes, encarnação do franciscanismo da Primeira Ordem. Quando penso nesses seculares, sempre vêm à minha mente as metáforas evangélicas do sal da terra, luz do mundo e fermento da massa. Lembro-me sempre do esquema da Ação Católica. Lembro-me sempre de Frei Mateus Hoepers que, nas reuniões da Ordem Terceira de Petrópolis nos anos 1955-56, já dizia que a Ordem preparava as pessoas para o ver-julgar-agir. Quanta sorte ter conhecido Frei Mateus. Os seculares franciscanos são pessoas atingidas pelo “vírus” do Evangelho. Não são homens da mesmice e do frio “institucional”.

São pessoas que desejam transformar sua vida. Por isso, a forma de vida aprovada pelo Papa Paulo VI tem como frontispício a Exortação de São Francisco aos irmãos e irmãs da penitência. Fala dos que fazem e dos que não fazem penitência. Sim, fique sempre claro, os franciscanos seculares fazem parte de um bela tradição de gente que muda o coração, que faz penitência. Nós todos, franciscanos, entramos na Ordem para fazer penitência e mudar nossa vida. Parece que estou ainda ouvindo essas palavras que Frei Constantino Koser não se cansava de repetir. A Ordem Franciscana Secular não é um grupo de gente pacata e passiva, mas de criaturas em estado de conversão. Pessoas que depois de abraçarem o leproso andam sentindo o gosto doce nas coisas amargas e o amargo nas coisas doces.

 Não é aqui o lugar de analisar o mundo em que vivemos. Basta chamar atenção para uma ou outra tendência: sociedade deslizante, mundo das coisas provisórias, exagerado cultivo do corpo, de exibição nos meios de comunicação, do peso da lei do mercado, mundo da indiferença… Há pessoas que sentem que o carisma franciscano pode entusiasmar vidas cansadas de tanta superficialidade e mentira: buscar o altíssimo e bom Senhor, entregar-se prazenteiramente a ele, viver e conviver uns com os outros, ser para o irmão mais como uma mãe, não ter o nariz arrebitado mas ser irmão e irmão menor, viver um estado de êxtase diante da natureza desde a florzinha que nasce no meio da pedras até a majestade dos espaços siderais, tudo dom, pessoas não proprietárias que não atribuem méritos a si mesmas, mas devolvem ao Senhor o que deles recebem, pessoas avessas a toda violência e que procuram apaziguar os lobos que andam por aí e dentro de cada um, gente do evangelho reescrito por Francisco, evangelho da oração nas grutas, evangelho das vestes simples e das casas sem luxo, dos gestos não empolados nem mentirosos, evangelho da misericórdia para com o irmãos que erram, evangelho do respeito pela água, plantas e toda a natureza. Os que ingressam na OFS, os leigos franciscanos, deveriam se revestir destas cores.

 Os franciscanos seculares são pessoas que não ficam presas ao São Francisco romântico das pombinhas e lobos amansados. O Francisco que anima suas vidas é aquele que reescreveu o Evangelho em sua carne e morreu alegre e nu sobre a terra nua: irmão, simplesmente Irmão Francisco.


 A Forma de vida dos seculares franciscanos se detalha nesse documento que faz quarenta anos na festa de São João Batista de 2018: os seculares passam do Evangelho para a vida e da vida para o Evangelho, procuram a pessoa vivente e operante de Jesus nos irmãos, nas Escrituras, na Igreja e nas ações litúrgicas; fazem uma profissão de seguir a Regra, compromisso aceito oficialmente pela Igreja; olham para a Virgem Maria sempre disponível à Palavra; não são fanáticos pela pobreza material, mas vivem sendo meros administradores e não proprietários nesse mundo de avidez; assumem trabalhos no mundo com competência e espírito prestativo, vivem em família sem requintes, trabalham com garra e tomam iniciativas corajosas para que se apresse a instalação do Reino. Limito-me a chamar atenção para estas insistências da Regra.


 Franciscanos no mundo, franciscanos seculares que se sentem muito próximos do Cardeal Bergoglio, que adotou o nome de Francisco para encarnar, de alguma forma, o jeito evangélico franciscano de viver. Não me canso de dizer e afirmar: leigos, leigos no mundo, não leigos de sacristia, não funcionários das coisas antigas, mas homens e mulheres livres no grande mundo, inventando novas formas de fraternidade, acolhendo pessoas certinhas e não tão certinhas, sem exagerar em proclamar leis secas e frias, homens e mulheres simpáticos, capazes de acolher os outros, as crianças, os velhos, os diferentes, homens e mulheres cantores das maravilhas, parecidos com Francisco, das coisas simples e dos gestos puros.


 O amanhã da vida franciscana secular depende da qualidade de vida dos grupos existentes. Na medida em que houver menos discursos sobre a Regra e mais fogo no coração de leigos maduros, a família franciscana poderá oferecer na OFS uma escola de santidade e uma oficina que prepara leigos e leigas cheios do evangelho e realizam o sonho do Papa Francisco que veio do fim do mundo.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Santo Franciscano do dia -13/06 - Santo Antônio de Pádua


Sacerdote, doutor Evangélico da Primeira Ordem (1191-1231). Canonizado por Gregório IX no dia 30 de maio de 1232 

Antônio de Pádua ou – como também é conhecido – de Lisboa, referindo-se à sua cidade natal. Trata-se de um dos santos mais populares de toda a Igreja Católica, venerado não somente em Pádua, onde se erigiu uma esplêndida basílica que recolhe seus restos mortais, mas no mundo inteiro. São queridas dos fiéis as imagens e estátuas que o representam com o lírio, símbolo da sua pureza, ou com o Menino Jesus nos braços, lembrando uma aparição milagrosa mencionada por algumas fontes literárias.

Antônio contribuiu de maneira significativa para o desenvolvimento da espiritualidade franciscana, com seus fortes traços de inteligência, equilíbrio, zelo apostólico e, principalmente, fervor místico.

Ele nasceu em Lisboa de uma família nobre, por volta de 1195, e foi batizado com o nome de Fernando. Começou a fazer parte dos cônegos que seguiam a regra monástica de Santo Agostinho, primeiro no mosteiro de São Vicente, em Lisboa, e depois no da Santa Cruz, em Coimbra, renomado centro cultural de Portugal. Dedicou-se com interesse e solicitude ao estudo da Bíblia e dos Padres da Igreja, adquirindo aquela ciência teológica que o fez frutificar nas atividades de ensino e na pregação.

Em Coimbra, aconteceu um fato que marcou uma mudança decisiva em sua vida: em 1220, foram expostas as relíquias dos primeiros cinco missionários franciscanos que haviam se dirigido a Marrocos, onde encontraram o martírio. Este acontecimento fez nascer no jovem Fernando o desejo de imitá-los e de avançar no caminho da perfeição cristã: então ele pediu para deixar os cônegos agostinianos e converter-se em frade menor. Sua petição foi acolhida e, tomando o nome de Antônio, também ele partiu para Marrocos, mas a Providência divina dispôs outra coisa.

Por causa de uma doença, ele se viu obrigado a voltar à Itália e, em 1221, participou do famoso “Capítulo das Esteiras” em Assis, onde também encontrou São Francisco. Depois disso, viveu por algum tempo escondido totalmente em um convento perto de Forlì, no norte da Itália, onde o Senhor o chamou para outra missão. Convidado, por circunstâncias totalmente casuais, a pregar por ocasião da uma ordenação sacerdotal, Antônio mostrou estar dotado de tal ciência e eloquência, que os superiores o destinaram à pregação. 

Ele começou assim, na Itália e na França, uma atividade apostólica tão intensa e eficaz, que levou muitas pessoas que haviam se separado da Igreja a voltar atrás. Esteve também entre os primeiros professores de teologia dos Frades menores, talvez inclusive o primeiro. Começou a lecionar em Bolonha, com a bênção de Francisco, o qual, reconhecendo as virtudes de Antônio, enviou-lhe uma breve carta com estas palavras: “Eu gostaria que você lecionasse teologia aos frades”. Antônio colocou as bases da teologia franciscana que, cultivada por outras insignes figuras de pensadores, teria conhecido seu zênite com São Boaventura de Bagnoregio e o beato Duns Scotus.

Nomeado como superior provincial dos Frades Menores da Itália Setentrional, continuou com o ministério da pregação, alternando-o com as tarefas de governo. Concluído o mandato de provincial, retirou-se perto de Pádua, onde já havia estado outras vezes. Depois de apenas um ano, morreu nas portas da Cidade, no dia 13 de junho de 1231. Pádua, que o havia acolhido com afeto e veneração em vida, prestou-lhe sempre honra e devoção. O próprio Papa Gregório IX – que, depois de tê-lo escutado pregar, definiu-o como “Arca do Testamento” – canonizou-o em 1232, também a partir dos milagres ocorridos por sua intercessão.

No último período da sua vida, Antônio escreveu dois ciclos de “Sermões”, intitulados, respectivamente, “Sermões dominicais” e “Sermões sobre os santos”, destinados aos pregadores e professores de estudos teológicos da ordem franciscana. Neles, comentou os textos da Sagrada Escritura apresentados pela liturgia, utilizando a interpretação patrístico-medieval dos quatro sentidos: o literal ou histórico, o alegórico ou cristológico, o tropológico ou moral e o analógico, que orienta à vida eterna. Trata-se de textos teológicos-homiléticos, que recolhem a pregação viva, na qual Antônio propõe um verdadeiro e próprio itinerário de vida cristã. É tanta a riqueza de ensinamentos espirituais contida nos “Sermões”, que o venerável Papa Pio XII, em 1946, proclamou Antônio como Doutor da Igreja, atribuindo-lhe o título de “Doutor Evangélico”, porque destes escritos surge a frescura e beleza do Evangelho; ainda hoje podemos lê-los com grande proveito espiritual.

Nos “Sermões”, ele fala da oração como uma relação de amor, que conduz o homem a conversar docemente com o Senhor, criando uma alegria inefável, que envolve suavemente a alma em oração. Antônio nos recorda que a oração precisa de uma atmosfera de silêncio, que não coincide com o afastamento do barulho externo, mas é experiência interior, que procura evitar as distrações provocadas pelas preocupações da alma. Segundo o ensinamento deste insigne Doutor franciscano, a oração se compõe de quatro atitudes indispensáveis que, no latim de Antônio, definem-se como: obsecratio, oratio, postulatio, gratiarum actio. Poderíamos traduzi-las assim: abrir com confiança o próprio coração a Deus, conversar afetuosamente com Ele, apresentar-lhe as próprias necessidades, louvá-lo e agradecer-lhe.

Neste ensinamento de Santo Antônio sobre a oração, conhecemos um dos traços específicos da teologia franciscana, da qual ele foi o iniciador, isto é, o papel designado ao amor divino, que entra na esfera dos afetos, da vontade, do coração, e que é também a fonte de onde brota um conhecimento espiritual que ultrapassa todo conhecimento. Antônio escreve: “A caridade é a alma da fé, é o que a torna viva; sem o amor, a fé morre” (Sermões Dominicais e Festivos II).

Só uma alma que reza pode realizar progressos na vida espiritual: este foi o objeto privilegiado da pregação de Santo Antônio. Ele conhecia bem os defeitos da natureza humana, a tendência a cair no pecado; por isso, exortava continuamente a combater a inclinação à cobiça, ao orgulho, à impureza e a praticar as virtudes da pobreza e da generosidade, da humildade e da obediência, da castidade e da pureza.

No começo do século XIII, no contexto do renascimento das cidades e do florescimento do comércio, crescia o número de pessoas insensíveis às necessidades dos pobres. Por este motivo, Antônio convidou os fiéis muitas vezes a pensar na verdadeira riqueza, a do coração, que, tornando-os bons e misericordiosos, leva-os a acumular tesouros para o céu. “Ó ricos – exorta – tornai-vos amigos (…); os pobres, acolhei-os em vossas casas: serão depois eles que os acolherão nos eternos tabernáculos, onde está a beleza da paz, a confiança da segurança e a opulenta quietude da saciedade eterna” (Ibid.).

Antônio, na escola de Francisco, sempre coloca Cristo no centro da vida e do pensamento, da ação e da pregação. Este é outro traço típico da teologia franciscana: o cristocentrismo. Alegremente, ela contempla e convida a contemplar os mistérios da humanidade do Senhor, particularmente o do Natal, que suscitam sentimentos de amor e gratidão pela bondade divina.

Também a visão do Crucificado lhe inspira pensamentos de reconhecimento a Deus e de estima pela dignidade da pessoa humana, de forma que todos, crentes e não crentes, possam encontrar um significado que enriquece a vida. Antônio escreve: “Cristo, que é a tua vida, está pregado diante de ti, porque tu vês a cruz como em um espelho. Nela poderás conhecer quão mortais foram tuas feridas, que nenhum remédio teria podido curar, a não ser o sangue do Filho de Deus. Se olhas bem, poderás perceber quão grandes são tua dignidade e teu valor (…). Em nenhum outro lugar o homem pode perceber melhor o quanto vale, a não ser no espelho da cruz” (Sermões Dominicais e Festivos III).

Que Antônio de Pádua, tão venerado pelos fiéis, interceda pela Igreja inteira, sobretudo por aqueles que se dedicam à pregação. Que estes, inspirando-se em seu exemplo, procurem unir a doutrina sã e sólida, a piedade sincera e fervorosa e a incisividade da comunicação.

Papa Bento XVI

terça-feira, 12 de junho de 2018

Clara e Francisco, namorados?



Reflexão de Frei Vitório Mazzuco Filho.

Esta pergunta me fazem milhares de vezes. Perguntas são melhores que respostas. Não tenho respostas, tenho modelos: Francisco de Assis e Clara de Assis evidenciam que o fundamental da vida humana é relacionar-se. Amaram a Deus como Alguém real e não como abstração; deixaram suas casas para conquistar a liberdade de amar e repartir. São enamorados do Amor que os fez livres para fazer suas escolhas. Viveram em meio a todos porque souberam sair de si e deixar transparecer amor, ternura, pureza, vigor, prece e ardor. Namoraram as palavras do Evangelho e fizeram parte do sonho de Deus: o amor tem que transformar tudo em homens novos, mulheres novas, mundo novo, Boa Nova proclamada de cima dos tetos. Namoraram, olhos nos olhos, um Crucifixo Glorioso. Francisco reconstruiu um lugar para Ele. Clara embalou em extasiado silêncio o mistério que Dele emanava: ser Amor em pé entre escombros. Iluminaram-se de preces, a linguagem mais expressiva de quem ama; incendiaram um bosque num banquete santo, éros sublimado em ágape, porque amar é alimentar-se.

Namoraram as chagas dos leprosos e mendigos descobrindo sentidos em meio ao podre. Francisco foi pelas estradas do mundo, Clara permaneceu no mundo fontal de todos os passos: a contemplação. Os dois abraçaram a Pobreza na Riqueza de Amar. Abriram seus corações e braços para abraçar o cosmo inteiro. Gosto demais de uma canção de Frei Acílio Mendes, OFMCap, que diz: “Na paz fecundante de São Damião. Os sonhos floriram e amadureceram! As rosas da Páscoa, os lírios da Paixão. A vida de Clara com amor teceram. Francisco é do bosque, Clara é do jardim. Francisco é do rio, Clara é da fonte. Clara e Francisco são do mar sem fim. Ela desce a gruta, ele sobe ao monte. Francisco é do Alverne, fascinante de luz. Clara é da planície, serena e interior”.

Clara e Francisco nos ensinam a reconstruir o Amor e feliz com Ele! Não se faz feliz alguém, mas se faz feliz com Alguém! É preciso colocar o Espírito no interior dos relacionamentos. Foram Clara e Francisco namorados? As Fontes Franciscanas e Clarianas silenciam. Os historiadores dizem que é impossível. A nossa imaginação ferve. As estradas do mundo falam. O mosteiro reza e canta o Amado. Não interessa o que eles foram entre os dois, mas sim o que foram a partir dos dois: aceitaram ser instrumentos de Amor nas mãos do Altíssimo, Esposo e Espelho. Fizeram do Amor um estado de ser, o fazer foi consequência disto. Desprendidos e naturais, tornaram o feminino místico e o masculino sensível.

Santos e fraternos, paternos e maternos, serenos e cordiais, Irmã e Irmão, profundamente humanos e divinos. Na verdade queria escrever algo para o Dia dos Namorados, e resolvi tirar do meu coração o modelo vivo e referencial do casal de Assis, que nunca viveu junto, nem morou junto, mas que reúne há oito séculos tanta gente apaixonada, desde os umbrais da Úmbria até os universais caminhos do Amor! Que Clara e Francisco iluminem e protejam todos os Namorados!

Frei Vitório Mazzuco, OFM

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Artigo - O amor entre Clara e Francisco de Assis



Por Leonardo Boff

Francisco  e Clara , ambos de Assis, são figuras das mais queridas da cristandade, das quais nos podemos realmente orgulhar. Os dois uniam três grandes paixões: pelo Cristo pobre e crucificado, pelos pobres, especialmente os hansenianos e um pelo outro.  O amor por Cristo e pelos pobres não diminuía em nada o amor profundo que os unia, mostrando que entre pessoas que se consagram a Deus e ao serviço dos outros pode existir  verdadeiro amor e relações de grande ternura. Há entre Francisco e Clara algo misterioso que conjuga Eros e Ágape, fascinação e transfiguração. Os relatos conservados da época falam dos encontros freqüentes entre eles. No entanto, “regulavam tais encontros de modo que aquela divina atração mútua pudesse passar despercebida aos olhos das pessoas, evitando boatos púbicos”.

Logicamente, numa pequeníssima cidade como  Assis,  todos sabiam tudo de todos. Assim também do amor entre Clara e Francisco. Uma legenda antiga refere-se a este diz-que-diz-que com terníssima candura:”Certa feita, Francisco havia ouvido alusões inconvenientes. Foi a Clara e disse-lhe: Compreendeste, irmã, o que o povo diz de nós? Clara não respondeu. Sentiu que seu coração começava a parar e que, se dissesse uma palavra mais, iria chorar. É tempo de separar-nos, disse Francisco. Então, tu vais à frente e, antes de vir a noite, terás chegado ao convento. Eu irei sozinho e te acompanharei e longe, conforme o Senhor me conduzir. Clara ajoelhou-se no meio do caminho. Pouco depois, recuperou-se, levantou-se e continuou a caminhar, sem olhar para trás. O caminho passava por um bosque. De repente, ela se sentiu sem forças, sem consolo e sem esperança, sem uma palavra de despedida antes de separar-se de Francisco. Aguardou um pouco.  Pai, disse, quando nos veremos de novo? Quando o verão voltar, quando as rosas florescerem, respondeu Francisco. E então, naquele momento, algo maravilhoso aconteceu. Parecia que por sobre os campos cobertos de neve, tivesse chegado o verão e irrompessem milhares e  milhares de flores. Depois de uma perplexidade inicial, Clara se apressou, colheu um ramalhete de flores e o entregou nas mãos de Francisco”. E a legenda termina dizendo:”Desde aquele momento em diante, Francisco e Clara nunca mais se separaram”.

Estamos diante da linguagem simbólica das lendas. Mas são elas que guardam o significado dos fatos primordiais do coração e do amor. “Francisco e Clara nunca mais se separaram”, quer dizer, souberam articular seu mútuo o amor com o amor a Cristo, aos pobres de tal forma que era um só e grande amor. Efetivamente jamais saíram um do coração do outro. Uma testemunha da canonização de Clara diz com grazie que Francisco para ela “parecia-lhe ouro de tal forma claro e lúcido que ela se via também toda clara e lúcida como se fosse num espelho”. Dá para expressar melhor a fusão de amor entre duas pessoas de excepcional  grandeza de alma?

Em suas buscas e dúvidas ambos se consultavam e buscavam na oração um caminho. Um relato biográfico da época conta: “Certa feita, cansado, Francisco chega a uma fonte de águas cristalinas. Põe-se a olhar, por  longos instantes, para estas águas claras. Depois, tornou a si e disse alegremente a seu amigo íntimo, Frei Leão: Frei Leão, ovelhinha de Deus, que pensas que vi nas águas claras da fonte? A lua, que se espelha lá dentro, respondeu Frei Leão. Não, irmão, não via lua, mas sim, o rosto claro de nossa irmã Clara, cheio de santa alegria, de sorte que todas as minhas tristezas desapareceram”.

 O relato histórico não poderia ser mais carregado de densidade amorosa. Francisco combinara com Clara que na noite do domingo de Ramos, belamente adornada,  fugisse de casa e viesse encontrá-lo na capelinha que havia construído, a Porciúncula. Efetivamente ela fugiu. Chegou à igrejinha e lá estavam Francisco e seus companheiros com tochas acessas. Alegres a aplaudiram e a receberam com extremo carinho. Francisco cortou-lhe os belos cabelos louros. Era o símbolo de sua entrada no novo caminho religioso. Agora eram dois num só e mesmo caminho e até hoje “nunca mais se separaram”.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Especial - Santo Antônio, de Lisboa, de Pádua e do mundo inteiro



A misericórdia nos sermões de Santo Antônio.

Frei Clarêncio Neotti

Tema sempre presente

O tema da misericórdia está muito presente nos Sermões de Santo Antônio. Tanto a misericórdia de Deus para com as criaturas, quanto a misericórdia do homem para com seus semelhantes. De modo acentuado, a misericórdia de Jesus Salvador e de sua santa Mãe Maria, a rainha da misericórdia. Tanto a misericórdia no singular, como virtude necessária, quanto as misericórdias no plural, visíveis nas boas ações de ajuda, especialmente nas chamadas ‘obras de misericórdia’. Tanto a misericórdia como fonte de outras boas qualidades, quanto misericórdia como consequência de atitudes fortes como o perdão, a compaixão e a obrigatoriedade de reparar maldades cometidas.

Que é misericórdia?

Ao menos duas vezes Santo Antônio define o que seja a misericórdia. No sermão do quarto domingo depois de Pentecostes, escreve: “Misericordioso é aquele que tem compaixão da miséria alheia”. Santo Antônio usa propositadamente a palavra ‘miséria’ em contraposição à ‘misericórdia’, coisa que já fizera Santo Agostinho, seu mestre, no livro A Cidade de Deus, 9, 5: “O campo da misericórdia é tão grande quanto o da miséria humana; por isso a misericórdia é a compaixão pela miséria alheia”. Nas Confissões, várias vezes, Santo Agostinho aproxima as duas palavras. No sermão para o 16º domingo depois de Pentecostes, Santo Antônio cunha esta belíssima frase: “Ó Senhor, se me retiras a tua misericórdia, caio na miséria eterna”.

A segunda vez que Santo Antônio define a misericórdia encontro-a no sermão para o 22º domingo depois de Pentecostes. Santo Antônio comenta a parábola do devedor cruel (Mt 18,21-30), contada por Jesus, quando Pedro lhe perguntou quantas vezes deveria perdoar ao irmão pecador. Vamos ao texto: “A misericórdia do Senhor purifica a alma dos vícios, enche-a da riqueza dos carismas, cumula-a com as delícias celestiais. A primeira mortifica o coração contrito. A segunda suaviza-o para o amor. A terceira com a esperança dos bens supernos, inunda o coração com uma espécie de celeste orvalho. E isto é óbvio pela tríplice interpretação da palavra misericórdia. De fato, misericórdia quer dizer o que dá o coração miserável e isto convém à primeira misericórdia. Igualmente misericórdia significa aquele que depõe o rigor do coração e isto convém à segunda. Em terceiro lugar, misericórdia traduz-se por uma espécie de suavidade admirável que inunda o coração e isto convém à terceira. Compadecido, logo, com a tríplice misericórdia daquele servo, deixou-o ir livre e perdoou-lhe a dívida”.

O latim medieval de Santo Antônio não é fácil de traduzir. Além do mais, suas palavras muitas vezes têm sentido subliminar. Vou tentar dizer o texto acima com palavras minhas: Jesus se compadeceu do empregado, perdoou-lhe a dívida e deixou-o ir em paz. Jesus agiu assim, porque era Deus misericordioso. A misericórdia de Deus age de três maneiras: purifica o coração arrependido, enriquece-o com o amor e o enche de alegria, refazendo nele a esperança dos bens eternos. O vício torna o coração miserável. A misericórdia o limpa. A misericórdia leva Deus a não ser rigoroso, mas benigno. A misericórdia leva Deus a ser suave com o pecador. A suavidade, a generosidade e o perdão fazem parte integrante da misericórdia.

O Pai das Misericórdias

Recolho primeiro alguns textos de Santo Antônio, que falam diretamente da misericórdia de Deus Pai, ou seja, daquele Deus de quem Paulo na carta aos Efésios disse “ser rico em misericórdia, porque muito nos amou e nos deu a vida em Cristo” (Ef 2,4). Para Santo Antônio, a misericórdia de Deus é sem limites. Lembra esta verdade no sermão do 3º domingo da Quaresma: “A misericórdia de Deus é maior do que toda a malícia do pecador”. “E porque a misericórdia de Deus não tem medida, ele ouvirá a tua oração”.

Longamente fala Antônio da misericórdia divina no sermão do 16º domingo depois de Pentecostes, comentando a ressurreição do jovem de Naim e sua restituição à mãe viúva. Ele vê no jovem morto a figura de toda a humanidade, morta porque estava no pecado e não tinha a vida em plenitude de Jesus Cristo: “Na restituição do pecador convertido à sua mãe (a Jerusalém celeste) há a profundidade da misericórdia divina. Ó profundidade da divina clemência, longe da compreensão da inteligência humana, porque não tem conta a sua misericórdia. Tendo Deus disposto, como se diz no livro da Sabedoria (11,21), todas as coisas com medida, conta e peso, não quis incluir nestas leis com estes limites a sua misericórdia, antes, ela é que os inclui e os circunda. Por toda a parte está a sua misericórdia, mesmo no inferno, porque não pune tanto quanto exige a culpa do delinquente. Da misericórdia do Senhor, diz o salmista (119,64), está cheia toda a terra, e todos nós, miseráveis, recebemos de sua plenitude. Pela misericórdia de Deus, sou aquilo que sou (1Cor 15,10). Sem ela, nada sou. Ó Senhor, se me retiras a tua misericórdia, caio na miséria eterna. A tua misericórdia é a coluna do céu e da terra. Se a retirares, tudo cairá. Mas as tuas misericórdias são muitas, na frase de Jeremias (Lm 3,22), porque não fomos destruídos. Muitas, na verdade! Quantas vezes pecamos mortalmente, de fato, pela alma ou pelo corpo, e não fomos imediatamente sufocados pelo demônio. Tantas vezes devemos atribuir à infinita misericórdia do Senhor o ainda vivermos! É que ele espera a nossa conversão, e por isso não permite sermos sufocados pelo demônio. Logo, por tantas misericórdias devemos dar graças ao Pai misericordioso; quantas vezes pecamos e não fomos eliminados! Ó miseráveis, porque somos ingratos perante tamanha misericórdia? Deu-lhes tempo de penitência, diz Jó (24,23), e a criatura abusa disto para se ensoberbecer. E entesoura para si ira para o dia da ira. Compadece-te, pois, da tua alma, porque as misericórdias do Senhor são antigas. Ele não se esquece de ter compaixão de quem se considera digno de compaixão”.

No sermão para o 14º domingo depois de Pentecostes, acentua muito a infinita misericórdia de Deus, que se manifesta em todas as circunstâncias: “O justo, se for cortado pelo machado do pecado mortal, não deve desesperar da misericórdia de Deus, que é maior que a sua miséria, mas ter esperança, porque tornará a reverdecer pela penitência”.

Jesus, encarnação da Misericórdia

Para Santo Antônio a misericórdia do Pai se manifesta, sobretudo, na encarnação e na paixão de Jesus: “A misericórdia, isto é, a Encarnação e a Paixão, devemos tê-la diante dos olhos do nosso entendimento”, escreveu no sermão do 16º domingo depois de Pentecostes. Jesus é a encarnação da misericórdia divina na Anunciação, misericórdia que extrapola todos os limites no Calvário e na manhã de Páscoa e se derrama sobre nós, abrindo-nos as portas do céu. Santo Antônio fala da misericórdia de Jesus particularmente na ressurreição do jovem de Naim (Lc 7,11-17), na ressurreição da filha de Jairo e na mesma página a cura da hemorroíssa (Lc 8,40-56), nas parábolas do bom samaritano (Lc 10,30-37), do filho pródigo (Lc 15,11-32), do devedor perdoado (Mt 18,21-27) e da mulher Cananeia, que lhe pediu pela filha possessa (Mt 15,21-28). Observe-se que são quase todos comentários a páginas de Lucas, o evangelista da misericórdia.

Santo Antônio vê na figura do samaritano a pessoa de Jesus: “O samaritano é o Senhor, feito homem por nós. Empreendeu a viagem da vida terrena e veio até junto do machucado, veio feito semelhante ao homem e reconhecido na condição de homem, aproximou-se e se compadeceu de nós, e nos concedeu a sua misericórdia (Sermão para o 13º domingo depois de Pentecostes). Pouco depois, no mesmo sermão, lembrando-se do corpo místico que formamos com Cristo (1Cor 12,27), escreve: “Vemos que o estrangeiro de Jerusalém, para quem a misericórdia era obrigatória, foi mais próximo que o sacerdote ou o levita, ainda que tivessem o mesmo sangue. Ninguém nos é mais vizinho do que aquele que nos curou as feridas, porque faz uma só cabeça com os membros”.

Na explicação do evangelho que fala da ressurreição da filha de Jairo (24º domingo depois de Pentecostes), Santo Antônio se detém sobre o momento em que Jesus a pega pela mão: “Tomou-a pela mão. Jesus toma a nossa mão na sua quando, por sua misericórdia, nos dá o querer, o conhecer e o poder. A mão desta misericórdia reconstrói a pessoa quando dá o conhecer e o querer; acaba-a, quando dá o poder”. Ou seja, Jesus não faz as coisas pela metade. Refaz nossa inteligência e a nossa vontade, para que possamos compreender o bem e segui-lo, porque a pessoa viva normal precisa da inteligência e da vontade. Mais, no mesmo sermão, acrescenta: “Com a mão da misericórdia livra-nos do poder das trevas e transfere-nos para o reino de seu amor”.

No segundo sermão para o segundo domingo da Quaresma, Santo Antônio demora-se em analisar por que Jesus se calava diante do pedido insistente da mulher pagã, nas proximidades de Tiro e Sidônia: “Jesus não respondeu palavra à Cananeia. Ó arcano do divino conselho! Ó profundo e imperscrutável mistério da eterna sabedoria! O Verbo, que no princípio existia junto do Pai, por meio do qual tudo foi feito, não responde à mulher Cananeia, à alma penitente, uma palavra! O Verbo, que torna soltas as línguas das crianças, que dá a boca e a sabedoria, não responde uma palavra! Ó verbo do Pai, criador e conservador de tudo, providência e sustento de quanto existe, responde-me ao menos uma palavra para mim, mulher infeliz, a mim, penitente! E provo, com a autoridade do teu profeta Isaías, que deves responder. De fato, o Pai, a teu respeito, promete aos pecadores, dizendo em Isaías (55,11): A palavra que sair de minha boca não tornará para mim vazia, mas fará tudo quanto eu tenha querido, e surtirá os seus efeitos naquelas coisas para as quais eu a enviei. E que quis o Pai? Certamente que recebesses o penitente, lhe respondesses uma palavra de misericórdia. Acaso não disse: O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou? Filho de Davi, tem, portanto, piedade de mim! Responde uma palavra, ó Verbo do Pai! Igualmente provo com a autoridade do teu profeta Zacarias que deves ter piedade e responder. Assim de ti ele profetizou (13,1): Naquele dia haverá para a casa de Davi uma fonte aberta, para lavar as manchas do pecador. Ó fonte de piedade e de misericórdia, que nasceste de terra bendita da Virgem Maria, que foi da casa e família de Davi, lava as manchas do pecador! Por que é que o Verbo não responde uma palavra? Certamente para excitar o ânimo do penitente a maior arrependimento e estímulo de dor maior. Por isso, dele fala a esposa nos Cânticos (5,6): Procurei-o e não o encontrei. Chamei por ele e não me respondeu”.

Misericordiosos como o Pai

Muitas vezes Santo Antônio liga a misericórdia de Deus ao arrependimento, à dor de ter pecado. No sermão acima chega a dizer que Deus demora em manifestar misericórdia, para que o pecador tenha tempo de se arrepender. O pecador tem, portanto, parte ativa, no recebimento da misericórdia. No sermão para o 22º domingo depois de Pentecostes, observa a respeito do penitente: “O peso da dor, a capacidade de amar, o comprimento da esperança, a humildade do coração chamam a misericórdia”.

Santo Antônio não só falou muito da misericórdia de Deus Pai, não só mostrou que toda a pregação de Jesus está baseada na misericórdia, mas lembrou insistentemente que devemos ser misericordiosos como o Pai; que a vida do cristão é uma vida trançada de obras e de pensamentos misericordiosos. E até chegou a dizer que a misericórdia de Deus pode estar condicionada à misericórdia que temos e fazemos, como Jesus condicionou o perdão de Deus ao perdão que nós dermos. Assim escreve no 23º domingo depois de Pentecostes: “Quem é misericordioso para com os outros terá para ele a misericórdia de Deus”. No sermão para o 16º domingo depois de Pentecostes, Santo Antônio pede ao povo de nunca esquecer a misericórdia de Deus: “Como o rei Davi, deverás ter sempre a misericórdia diante dos teus olhos”. No sermão para a Páscoa, comenta a sarça ardente. Primeiro, diz que o nome ‘Moisés’ significa ‘varão da misericórdia’. Depois, observa que a chama sai do meio de uma sarça e comenta: a sarça é o pobre, coberto de espinhos, atribulado, faminto, nu e aflito. E acrescenta: “Que estes espinhos punjam teu coração, para que tenhas misericórdia do necessitado”.

Maria, mãe de Misericórdia

Ainda uma palavra sobre Maria, mãe e rainha da misericórdia. Santo Antônio fala de Maria e se mostra teólogo mariano em ao menos 16 sermões. Assim, escreve no segundo sermão para o terceiro domingo da Quaresma: “Pecador, refugia-te em Maria. Ela é a cidade do refúgio. Como outrora, o Senhor separou cidades de refúgio para os que tivessem cometido crimes involuntários (Nm 35,11-14), assim agora a misericórdia do Senhor deu refúgio de misericórdia ao nome de Maria até para os homicidas voluntários”. E afirma no sermão para a festa da Purificação: “Maria é chamada mãe de misericórdia. É misericordiosa para os miseráveis, é esperança para os desesperados”.

No sermão para a festa da Assunção, falando das razões de Deus para levá-la em corpo e alma ao céu, exclama: “Ó inestimável dignidade de Maria! Ó inenarrável sublimidade da graça! Ó inescrutável profundidade da misericórdia! Nunca tanta graça nem tanta misericórdia foram nem podem ser concedidas a um anjo ou a um homem, como a Maria Virgem Santíssima, que Deus Pai quis fosse mãe de seu próprio Filho, igual a si, gerado antes de todos os séculos”.

Orações para pedir Misericórdia

Muitos outros textos de Santo Antônio sobre a misericórdia podiam ser citados. Alguns baseariam uma conferência inteira, como a relação entre misericórdia e confiança, misericórdia e penitência, misericórdia e julgamento. Não resisto transcrever três orações do Santo, tiradas de três sermões diferentes.

A primeira é do domingo da Quinquagésima:


“Sê para mim um Deus protetor, reza o Salmo (31,3-4). Com teus braços estendidos na cruz, protege-me e defende-me, como a galinha protege e defende os pintinhos debaixo das asas. No teu lado, traspassado pela lança, encontre eu lugar de refúgio, onde possa esconder-me dos inimigos. Se eu cair, possa eu me abrigar junto de ti e não de outrem. Sê para mim, que sou cego, um guia: dá-me a tua mão misericordiosa e alimenta-me com o leite da tua graça”.

Busco a segunda no sermão para o 3º domingo depois de Pentecostes:


“Senhor, olha para mim e tem compaixão de mim, porque me vejo só e pobre. Olha para o meu abatimento e para o meu trabalho e perdoa todos os meus pecados. Olha para mim com olhar da misericórdia, tu que olhaste para Pedro. Tem compaixão de mim! Perdoa-me os pecados! Acompanha-me, porque me sinto sozinho! Vejo-me pobre e vazio, vem encher o meu vazio”.

Tomo a terceira do sermão para o 4º domingo depois de Pentecostes:


“Para podermos chegar à glória eterna, roguemos ao Senhor Jesus Cristo, Pai misericordioso, que nos infunda a sua misericórdia, a fim de termos misericórdia para conosco e para com os outros. E não julguemos nem condenemos ninguém. Perdoemos aos que pecam contra nós e demos a todos os que nos pedem o que temos e o que somos. Isto se digne conceder-nos aquele que é bendito e glorioso pelos séculos dos séculos. Assim seja!”.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Especial - Santo Antônio, de Lisboa, de Pádua e do mundo inteiro


 Devoção das terças-feiras.

Santo Antônio foi sepultado no dia 17 de junho, terça-feira. Teve então início o costume de lembrá-lo nesse dia. Com o decorrer do tempo o costume passou para o esquecimento.
Reapareceu no século XVII, como explicam os Bollandistas num caso de 1616. Um casal de Bolonha não conseguira ter filhos durante vinte e dois anos, por mais que o desejassem. Foi aí que entrou Santo Antônio. Os esposos apelaram para sua intercessão.

O santo apareceu à esposa, mandando-a visitar por nove dias sua imagem na igreja de São Francisco na dita cidade. Ela conseguiu engravidar, mas deu à luz uma criança deformada. Cheia de confiança levou o filhinho à igreja e o colocou sobre o altar de Santo António.
Tocada apenas a pedra do altar, desapareceu a deformidade. Após isso, espalhou-se a notícia e a devoção das nove terças-feiras, acrescida com o tempo de mais quatro dias, formando o número treze, em lembrança do dia da morte do santo.

Há ainda muitas igrejas, nas quais, às terças-feiras, o movimento de fiéis é considerável. Horários especiais de celebrações eucarísticas, muita gente na fila do confessionário e, ao fim da missa, a bênção de Santo António, com aspersão dos fiéis. Algumas também distribuem pãezinhos de Santo Antônio.

Um exemplo muçulmano - Conta o Ministro Geral dos Frades Menores Conventuais que, em suas passagens por Istambul, impressionou-o o que ocorre às terças-feiras na igreja conventual de Sent Antun. “Nesse dia, todas as semanas e já desde o começo deste século, a bonita e ampla igreja fica sobretudo à disposição dos turcos, e estes, desde a manhã até à noite, sem pausa nem mesmo na hora do almoço, passam em ordem e com devoção diante do altar do Santo e exprimem, cada um segundo a própria sensibilidade religiosa, os próprios pedidos. Fazem-no sem contar as horas, com profunda compreensão, em silêncio e com respeito, com muita compostura e sinceridade. Depois de percorrerem o templo, pausadamente, e muitos tendo até assistido à missa, celebrada em turco, antes de saírem exprimem, em um livro volumoso, os próprios sentimentos, na multiplicidade das línguas médio-orientais…”

Do livro “Santo Antônio Popular”, de Frei Ildefonso Silveira

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Especial - Santo Antônio, de Lisboa, de Pádua e do mundo inteiro.


Iconografia Antoniana

Do grego, ícone (eicón) traz consigo uma idéia de imagem, representação de uma coisa sagrada. Iconografia, como derivada, é a ciência que caracteriza o estudo, a descrição e os conhecimentos de imagens.

Há, de certa forma, na palavra um relativo equívoco, uma vez que ícone é uma representação plana (quadro) e não tridimensional (imagem). Mas como modernamente iconografia é a ciência dos quadros e imagens sacras, vamos lá. Quase como sinônimo, temos a palavra iconologia.

Toda imagem, toda obra de arte, tem em si uma leitura, feita através de atributos e sinais identificadores. Essa leitura pode mudar de acordo com os tempos, os enfoques históricos e a interposição de ciências particulares.

O artista coloca suas palavras através da obra de arte que ele cria. O público, através dos tempos, estabelece critérios de leitura e releitura das obras de arte, sejam elas mundanas ou sacras.

Os símbolos favorecem a hermenêutica, a leitura interpretativa de uma imagem. Os atributos detalham a simbologia. A iconografia de Santo Antônio – pinturas, estátuas e outras expressões artísticas – apresenta grande variedade e riqueza e propicia uma leitura muito ampla da vida e da santidade do retratado.

Olhando as imagens, santinhos e quadros mais conhecidos, nota-se logo a incidência de alguns traços e símbolos que permitem a diferenciação. Como sabemos a diferença, por exemplo, entre São Jorge e São José?

A iconografia nos dá muitas pistas: um aparece vestido de guerreiro, montado a cavalo, combatendo um dragão. O outro é representado por um homem idoso, com o menino Jesus no colo, e geralmente portando um lírio ou um bastão de peregrino. Uma breve visão iconográfica nos possibilita a identificação.

A iconografia é, sem dúvida, uma bela e significativa expressão da religiosidade popular. O povo cria suas imagens, onde o homenageado é quase sempre jovem, belo, transpira santidade e veste-se, quando não ricamente, pelo menos de modo bem apurado.
É a representação, por exemplo, em imagens de Nossa Senhora, onde ela aparece ricamente vestida, com jóias e coroa de ouro na cabeça. O imaginário popular exacerba-se na representação devocional.

A iconografia inspira a evolução de religiosidade. Nessa práxis, os devotos apreciam mais olhar a imagem ou o santinho, do que ler a biografia ou estudar os escritos ou discursos do santo homenageado.

Na verdade, por uma leitura correta dos símbolos e atributos de uma imagem, podem-se estabelecer alguns traços da biografia de um santo.
Para avançar, vejamos a diferença entre símbolos e atributos, em iconografia.
Os símbolos dão a idéia geral da imagem e alguns critérios de interpretação. Por exemplo, na imagem de Santo Antônio, há símbolos de santidade, pertença à Ordem Franciscana, eleição divina e indicação de que foi pregador.
Esses símbolos, santidade, eleição, pregador e franciscano, são mais ou menos universais e imutáveis. Os atributos, que os caracterizam, o lírio, o menino, a Bíblia e o hábito são mutáveis e sujeitos, a cada época, a um tipo de leitura.

Vejamos os atributos:

a) O hábito franciscano - É um atributo que aparece desde a primeira hora e sempre serviu como mesma chave-de-leitura: quer dizer que ele foi franciscano. No século XV apareceram algumas breves representações que mostravam o santo com um hábito cinza, dos penitentes ou mendicantes; o corte tonsurado do cabelo tem o mesmo significado.

b) O livro (o atributo mais antigo) - Representa o Evangelho e a sabedoria de Antônio, primeiro mestre de Teologia da Ordem dos Frades Menores e doutor da Igreja. Lembra o pregador que arrebatava as multidões com as palavras do Evangelho. Por sua sabedoria bíblica, o Papa Gregório IX chamou-o de “Armário (Arca) do Testamento”.

c) O menino - O menino é visto em três tipos de representação:

1. Em cima do livro: em geral aparece sobre o livro aberto que o santo tem na mão, em gesto de quem abençoa, ou, usando um gesto de origem grega, com os dedos médio e indicador levantados, juntos, como a chamar a atenção para alguém que vai falar (no caso, o santo, pregando); pode representar a visão presenciada pelo Conde Tiso, em sua residência; o estar em cima do livro (Bíblia) evoca a característica de Frei Antônio como pregador do Verbo encarnado; o menino, segundo algumas fontes, nos primeiros tempos, não seria Jesus, mas as crianças, por quem o santo tinha enorme predileção; numa obra de El Greco, o menino (Jesus) aparece como brotando das páginas do livro, onde Antônio mostra a revelação do Verbo.

2. No colo do santo: em outras representações, o livro aparece de lado, e o menino Jesus está no colo de Antônio, numa atitude de extraordinária familiaridade, acariciando-lhe o rosto.

3. Sendo mostrado ao santo, pela Virgem Maria: Um quadro (reproduzido em alguns “santinhos”, mostra a Virgem apresentando o Filho à adoração de Antônio).

d) O lírio - O lírio é um símbolo-atributo que aparece nas representações artísticas após o século XV e se toma popularíssimo; tem dois significados: o mais antigo remete a Pádua; o lírio é a flor da estação na qual Antônio morreu; é a flor do campo, ornamental, perfumada,medicinal e frágil. O outro significado simbólico, posterior ao primeiro, refere-se à pureza, à castidade, à pobreza e ao vigor do testemunho de vida, na entrega do coração virginal a Deus. Há ainda um terceiro atributo, paralelo: a natureza, mostrada, pelos franciscanos, como sinal de Deus.

e) A cruz na mão - A cruz na mão (do século XVI) pode significar duas coisas: o espírito missionário do santo, ou, seu desejo de tomar-se um mártir da fé.

f) Os pés desencontrados - Se observarmos as imagens de Santo Antônio, veremos que seus pés não estão um ao lado do outro, mas um mais à frente do outro; trata-se de um indicativo de “em marcha”, “a caminho”, atitude que sempre caracterizou seu trabalho missionário.

g) A fisionomia adolescente - O rosto jovem, alegre e belo é consequência, como já vimos, daquela perfeição que a religiosidade popular passa à arte, relativamente aos santos e bem-aventurados; significa, também, a jovialidade do espírito do cristão.

h) O pão - Em certas obras de arte antigas (século XVI-XVII) vê-se o santo distribuindo o “pão dos pobres”; esse atributo é o mais recente; apareceu em Messina, na Sicília, em meados do século XIX, durante uma época de fome.

i) A chama - A chama de fogo que aparece em alguns ícones, especialmente orientais, simboliza o amor divino, o zelo e a paixão do santo por Jesus e seu Evangelho.

j) A nogueira - Esta é uma representação não muito conhecida; pouco antes de morrer, com falta de ar, Frei Antônio pediu que armassem sua cela no topo de uma nogueira frondosa, possivelmente nas propriedades do Conde Tiso. O santo já estava doente; falam em hidropisia e asma; há quem suspeite de obesidade (“adquirira certa corpulência…”) e diabetes; ali, além da altura (que proporcionava o ar fresco), o odor das resinas da árvore mantinha-o defendido dos mosquitos; pois mesmo ali vinha gente ouvir sua palavra. Uma pintura renascentista mostra o santo em cima da árvore, pregando ao povo, sentado, com a Bíblia na mão, como se estivesse numa cátedra, tendo, abaixo de si, São Boaventura, na época, o coordenador geral dos franciscanos; o estar na árvore é figura do desprender-se da vida terrena, já que o santo estava nos últimos dias de vida.

l) O terço - Para explicitar que Santo Antônio era um homem de oração, a iconografia do século XVI representou-o com um terço pendurado à cintura. O terço foi criado por São Domingos de Guzman (f 1221), utilizando antigos modelos orientais.
Há vários aspectos da vida, das pregações e dos milagres de Santo Antônio constantes de sua iconografia. O “sermão aos peixes”, em Rimini, o “coração do avarento dentro do cofre”, em Florença, “a mula ajoelhada diante do Santíssimo” em Rimini, fazem parte desse emocionante acervo, criado por mestres da pintura. A morte do santo, em Arcella, e lá fora as crianças fazendo o miraculoso anúncio, está magistralmente pintada numa obra de Murillo.

A icnografia leva-nos, como foi dito, a uma leitura analítica mais atenta de todos os símbolos e atributos que a devoção popular e oficial creditaram aos santos. Iconografia é para se ver e entender, independentemente de valores estéticos. Uma obra de arte, seja um quadro sofisticado ou uma rude representação popular, não é para ser achada bonita ou feia, mas para ser entendido o seu sentido.

No caso místico, as imagens de Deus e dos santos servem para criar aquela aproximação física que nossas carências reclamam, para um ajutório de memória, e para avivar a fé, relembrando as práticas e os sacrifícios daquele que está ali retratado.
E nós, hoje? Somos daqueles que entendemos que, pelo fato de possuirmos essa ou aquela imagem em nossa casa, já temos comunhão com quem está ali representado? Há pessoas que vão à igreja, oram diante das imagens, acendem velas e esquecem-se de reverenciar a Cristo, vivo e presente ali na Eucaristia. Somos desses?

Temos formação suficiente que nos dê uma exata noção entre santidade e divindade, imagem, representação, mediação, pessoa e divindade?

Extraído do livro “Santo Antônio, a realidade e o mito”, de Carmen Sílvia Machado Galvão e Antônio Mesquista Galvão, da Editora Vozes