segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Especial - A mística franciscana no Mês da Bíblia.


São Francisco, o “repetitor Christi”

Por Leonardo Boff

O fascínio e o mistério da figura de São Francisco reside em sua semelhança com o mistério e o fascínio de Jesus Cristo. Há tanto num quanto noutro algo de profundamente simples, transparente, nascivo, originário e convincente. Ambos constituem uma grande interrogação para todo homem verdadeiramente religioso. Ninguém pode subtrair-se ao Numinoso e Divino que se desprende de suas vidas. 

Evidentemente, para um cristão por maiores que sejam as semelhanças entre São Francisco e Jesus Cristo nunca chegarão a esconder as infinitas diferenças que vigoram entre eles. Um é o Filho Unigênito e Eterno do Pai e o outro é, na expressão de São Boaventura, um humilde repetidor de Jesus. ‘

Um constitui a realidade-fonte, outro a realidade-reflexo. São Francisco jamais quis seguir um caminho pessoal. Nunca buscou uma experiência nova. Propôs-se com todo empenho a imitar e a “seguir a doutrina e as pegadas de Cristo” ‘, o “totus Christus crucifixus et configuratus”.’ 

Nele há “uma deliberada renúncia a toda originalidade”. * Jamais antes e depois de São Francisco assistimos no Ocidente a um tão apaixonado amor a Cristo a ponto de tentar imitá-lo nos mínimos pormenores, na letra e no espírito. Queria venerar e reproduzir todos os aspectos da vida e do mistério de Cristo, não apenas os humanos, como se sói repetir.’ 

Jamais alguém dentro do Cristianismo logrou assimilar Jesus Cristo em sua vida como São Francisco a ponto de trazer no corpo os sinais da Paixão e na alma as arras do Reino de Deus. Com acerto resume São Boaventura o sentido do impulso de São Francisco: “saciava toda a alma no seu Cristo e se entregava todo, de corpo e de alma, somente a ele”.

Extraído do livro “Nosso Irmão Francisco de Assis”, da Editora Vozes

Franciscano do dia - 05/09 - Bem-aventurado Gentil de Matelica



Sacerdote e mártir da Primeira Ordem (+1340). Pio VI concedeu em sua honra ofício e Missa.

Gentil nasceu em Matelica, nas Marcas, filho da nobre família Finiguerra. Ele logo decidiu dedicar-se a Deus ingressando entre os Frades Menores no convento de Matelica. Desejoso de maior solidão, ele foi até o Santuário de La Verna. Ali permaneceu muitos anos santificando aquele lugar com a oração, a penitência e íntima união com Deus. Inclusive foi nomeado guardião.

Após esta intensa preparação espiritual se dirigiu a terras de missão. Chegou ao Egito e permaneceu no Cairo para aprender a difícil língua árabe. Apesar de sua intensa dedicação, as dificuldades pareciam insuperáveis, até que o Senhor o ajudou de forma surpreendente, pois logo começou a falar árabe e as línguas dos países vizinhos. Além de evangelizar no Egito, excursionou até a Ásia Menor, Armênia e Pérsia.

No espaço de poucos anos chegou aos mais importantes centros de Pérsia. Frei Gentil trabalhou intensamente em meio a dificuldades de viagem e adaptação às diversas populações. Deixando os confins da Pérsia, chegou a Erzerum, cidade completamente muçulmana. A hostilidade tradicional dos seguidores de Maomé se manifestou repentinamente. Mas conseguiu algumas conversões. De Erzerum, pelo caminho das caravanas, se dirigiu a Trebisonda, um importante porto. Os testemunhos que ficaram de seu apostolado são significativos.

De fato, durante séculos os fiéis de Trebisonda chamavam-se os “cristãos de Frei Gentil”. O Espírito Santo havia atuado naquele país através de Frei Gentil. De Trebisonda passou à Crimeia, onde trabalharam missionários franciscanos e dominicanos. A sua presença e sua pregação despertaram naqueles povos novo entusiasmo. Da Crimeia voltou para a Pérsia, onde permaneceu em Salmestre perto Tabriz. Os prolongados trabalhos apostólicos foram minando suas forças e preparando para o encontro com Cristo. Enquanto estava catequizando um grupo de novos convertidos foi violentamente aprisionado por alguns sectários que, em nome da autoridade muçulmana, o levaram ao governador, que o condenou à morte. Amarrado a um poste, com um violento golpe de cimitarra foi decapitado. Isso aconteceu em Tabriz em 05 de setembro de 1340. Seu corpo jaz na igreja dos franciscanos em Veneza.

domingo, 4 de setembro de 2016

Santa Franciscana do dia - 04/09 - Santa Rosa de Viterbo


Virgem da Terceira Ordem (1234-1252). Canonizada por Calixto III em 1457. 

Rosa viveu numa época de grandes confrontos, entre os poderes do pontificado e do imperador, somados aos conflitos civis provocados por duas famílias que disputavam o governo da cidade de Viterbo. Ela nasceu nesta cidade num dia incerto do ano de 1234. Os pais, João e Catarina, eram cristãos fervorosos. A família possuía uma boa propriedade na vizinha Santa Maria de Poggio, vivendo com conforto da agricultura.

Envolta por antigas tradições e sem dados oficiais que comprovem os fatos narrados, a vida de Rosa foi breve e incomum. Como sua mãe, Catarina, trabalhava com as Irmãs Clarissas do mosteiro da cidade, Rosa recebeu a influência da espiritualidade franciscana, ainda muito pequena. Ela era uma criança carismática, possuía dons especiais e um amor incondicional ao Senhor e a Virgem Maria. Dizem que com apenas três anos de idade transformava pães em rosas e aos sete, pregava nas praças, convertendo multidões. Aos doze anos ingressou na Ordem Terceira de São Francisco, por causa de uma visão em que Nossa Senhora assim lhe determinava.

No ano de 1247 a cidade de Viterbo, fiel ao Papa, caiu nas mãos do imperador Frederico II, um herege, que negava a autoridade do Papa e o poder do Sacerdote de perdoar os pecados e consagrar. Rosa teve outra visão, desta vez com Cristo que estava com o coração em chamas. Ela não se conteve, saiu pelas ruas pregando com um crucifixo nas mãos. A notícia correu toda cidade, muitos foram estimulados na fé, e vários hereges se converteram. Com suas palavras confundia até os mais preparados. Por isto, representava uma ameaça para as autoridades locais.

Em 1250, o prefeito a condenou ao exílio. Rosa e seus pais foram morar em Soriano onde sua fama já havia chegado. Na noite de 5 de dezembro 1251, Rosa recebeu a visita de um anjo, que lhe revelou que o imperador Frederico II, uma semana depois, morreria. O que de fato aconteceu. Com isto, o poder dos hereges enfraqueceu e Rosa pode retornar a Viterbo. Toda a região voltou a viver em paz. No dia 6 de março de 1252, sem agonia, ela morreu.

No mesmo ano, o Papa Inocêncio IV, mandou instaurar o processo para a canonização de Rosa. Cinco anos depois o mesmo pontífice mandou exumar o corpo, e para a surpresa de todos, ele foi encontrado intacto. Rosa foi transladada para o convento das Irmãs Clarissas que nesta cerimônia passou a se chamar, convento de Santa Rosa. Depois desta cerimônia a Santa só foi “canonizada” pelo povo, porque curiosamente o processo nunca foi promulgado. A canonização de Rosa ficou assim, nunca foi oficializada. Mas também nunca foi negada pelo Papa e pela Igreja. Santa Rosa de Viterbo, desde o momento de sua morte, foi “canonizada” pelo povo.

Em setembro de 1929, o Papa Pio XI, declarou Santa Rosa de Viterbo a padroeira da Juventude Feminina da Ação Católica Italiana . No Brasil ela é A Padroeira dos Jovens Franciscanos Seculares. Santa Rosa de Viterbo é festejada no dia de sua morte, mas também pode ser comemorada no dia 4 de setembro, dia do seu translado para o mosteiro de Clarissas de Santa Rosa, em Viterbo, Itália.

sábado, 3 de setembro de 2016

Franciscano do dia - 03/09 - Bem-aventurado Apolinário de Posat


Sacerdote e mártir da Primeira Ordem (1739-1792). Beatificado por Pio XI no dia 27 de outubro de 1926. 

Entre os 191 mártires trucidados pelos revolucionários franceses em Paris a 17 de outubro de 1792 estava também um capuchinho suíço, João Tiago Morel, ou seja, o Pe. Apolinário de Posat. Nascera 12 de junho de 1739 no vilarejo de Préz-vers-Noréal, perto de Friburgo, filho de João Morel e Maria Elizabeth Maître. Completou sua formação religiosa e escolástica na escola paroquial de Francisco José Morel, seu tio.

Depois dos estudos teológicos, ordenado padre, em 1747, foi enviado para Préz-vers-Noreál, e logo depois para Belfaux onde o tio tinha sido transferido como pároco em 1752. Três anos depois aperfeiçoou sua formação no colégio São Miguel em Friburgo, dirigido pelos jesuítas e morou na casa da mãe que, desde 1750, fora feita parteira profissional de Friburgo pelo Estado.

A sua inclinação à piedade e à vida religiosa fazia prever sua próxima entrada na Companhia de Jesus, mas no dia 26 de setembro, aos 23 anos, vestia o hábito capuchinho no convento de Zug, com o nome de Frei Apolinário de Posat. Terminado o noviciado e emitida a profissão religiosa, foi encaminhado logo para as ordens sacras, sendo ordenado sacerdote a 22 de setembro de 1764 em Bulle, sua terra de origem. De 1765 a 1769 foi para Lucerna, onde estudou teologia com o Pe. Ermano Martinho de Reinach.

Bem preparado na piedade e na ciência, lançou-se no apostolado itinerante a serviço das várias paróquias e nas missões populares, de 1769 a 1774, mudando frequentemente para os conventos de Sion, Porrentruy, Bucce e Romont. No fim de agosto de 1774, por seis anos consecutivos, foi professor e diretor dos estudantes capuchinhos de teologia de Friburgo. Foi vigário conventual de Sion em 1780 e por um ano retomou a atividade missionária, sendo finalmente transferido, ainda como vigário, para o convento de Bulle.

Em 1785, em Stans, tornou-se diretor da escola anexa ao convento e catequista dos rapazes do vilarejo vizinho de Buren. Os seus dotes de apóstolo e a capacidade de explicar, de maneira atraente a doutrina, atraia muita gente que se ajuntava aos seus pequenos discípulos.

O seu confessionário era muito procurado. Depois da oração coral da meia noite ele quase nunca voltava a repousar, mas se dedicava aos estudos, à oração e à meditação.

Um apóstolo tão eficaz inquietou os inimigos da fé, iluministas e jurisdicionalistas, que começaram a difundir calúnias dizendo que as lições de catecismo do frade não eram ortodoxas ou desacreditando o seu ensinamento escolástico levando-o ao ridículo ou maquiando a sua reputação moral. A campanha diabólica crescia e Frei Apolinário foi constrangido pelos superiores a defender-se com um memorial. Para evitar maiores complicações aos confrades foi transferido para Lucerna aos 16 de abril de 1788.

Tempos depois o Provincial de Bretanha, Vitorino de Rennes, propôs a Frei Apolinário de Posat de trabalhar como missionário na Síria, junto aos confrades franceses. A Providência dispôs diversamente: Paris seria seu último campo de apostolado e o altar do seu sacrifício. As coisas se precipitaram, estourou a revolta, a 14 de julho de 1789 a Bastilha caiu nas mãos dos revoltosos e a revolução estendeu-se por todo território francês. O superior de Marais encarregou Frei Apolinário, que conhecia o tedesco de seguir os outros cinco mil tedescos presentes na cidade.

Supressas as ordens religiosas e fechados 3000 conventos e mosteiros, ele foi feito vigário para os fiéis de língua tedesca na paróquia de São Suplício e capelão dos encarcerados de Tournelle. Fechado no convento de Marais, encontrou alojamento em uma casa de leigos que ele utilizou como um convento de Clausura. Confiscados todos os bens eclesiásticos e promulgada a Constituição Civil do clero, os sacerdotes de São Suplício refutaram abertamente o juramento. Entre eles estava o Frei Apolinário que mais uma vez foi golpeado pela calúnia, como se ele tivesse aceito o juramento. Ele se defendeu com um opúsculo intitulado “Le Séducteur Démasqué’ dizendo que, obedecer à Igreja equivalia obedecer ao Espírito que fala através da Hierarquia e acrescentava: “Nós devemos escutar a Igreja e não a Comuna de Paris. É a sabedoria eterna que a comanda”.

De 13 para 14 de agosto de 1792 assistiu a um moribundo e de manhã celebrou a missa e depois se apresentou aos comissários da Sessão de Luxemburgo, declarando que não prestara juramento, apesar de não ser um conspirador. Foi imediatamente colocado junto aos 160 refratários na igreja do Carmo. Aos 13 de agosto de 1792 foi promulgado o decreto de deportação, para esconder o massacre já decidido para o domingo seguinte. O Comissário que presidiu às execuções, dizia-se desconcertado: “Eu não entendo mais nada; estes padres marcham para a morte com alegria como se fossem para as núpcias”.
“… Aleluia, aleluia, aleluia! Em verdade, em verdade vos digo, logo a França, impregnada pelo sangue de tantos mártires, verá florir a religião no seu solo”, disse Frei Apolinário antes de morrer”.

Frei Eurípedes Otoni da Silva – OFMCap

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Artigo - Misericórdia: encher o coração da miséria dos outros


Frei Almir Guimarães

A Igreja vive um grande tempo de reflexão sobre o tema misericórdia. O Papa Francisco convida-nos a sair, buscar, procurar, curar feridas. A Igreja é um hospital onde os soldados feridos nas batalhas são curados. Misericórdia é palavra mágica. Contemplar o Coração de Jesus é estar diante de divina misericórdia, da misericórdia feita carne, morte e ressurreição. Ele é o Bom Samaritano

Sirva-nos de texto de meditação esta página de Santo Agostinho, filho de Santa Mônica. Inspiramo-nos no texto publicado pelo Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização (Paulinas/Paulus, p. 57-58).

“Desejo transmitir-vos, queridos fiéis, alguns pensamentos sobre o valor da misericórdia. Por muito que tenha experimentado que estejais disponíveis para toda boa obra, é todavia necessário que sobre este assunto vos faça um sermão bastante empenhado. Vamos a isso: o que é misericórdia? Não é outra coisa senão encher o coração, de um pouco da miséria dos outros. A palavra “misericórdia” deriva da dor que se sente pelo “miserável”. 

Há duas palavras contidas nesse conceito: miséria e coração. Quando o teu coração é atingido pela miséria dos outros, então isso é misericórdia. Prestai atenção, portanto, meus irmãos: todas as boas obras que fazemos na vida estão relacionadas com a misericórdia. Por exemplo: se tu deres pão a quem tem fome, da-lho com a participação do coração, não com chalaça, para evitar tratar um homem semelhante a vós como se fosse um cão. 

Portanto, quando fizeres um ato de misericórdia, comparta-te assim: se deres um pão, procura sentir-te participante da pena de quem tem fome; se deres de beber, participa da pena de quem tem sede; se deres roupa a alguém, partilha a pena de quem não tem o que vestir; se deres hospitalidade, partilha a pena de quem é peregrino; se visitares um enfermo, procura sentir pena por quem está doente; se fores um funeral, sente o luto; e se levares a paz aos litigantes, pensa no afã de quem tem uma contenda. Se amarmos a Deus e ao próximo, não podemos fazer nada sem sentir pena no coração”.

Jesus nos amor misericordiosamente, sentindo pena no coração!


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Especial - A mística franciscana no Mês da Bíblia.


O profeta e o seu Evangelho

Por N.G. Van Doornik

Francisco teve com o Evangelho uma intimidade difícil de se compreender. Amava o Evangelho, mas ele não teria sido Francisco, se seu amor não tivesse desejado possuir o próprio livro.

A magnífica Bíblia da Idade Média, com os maravilhosos textos desenhados em elegantes letras, tinha para ele algo de sagrado. Já foi, de per si, um rito religioso, quando ele, com seus dois companheiros, entrou na pequena igreja de São Nicolau e lá abriu o livro sobre o altar. Manifesta-se aqui uma forma de respeito que, em nosso tempo, impregnado de obras tipográficas, se tomou impossível: o respeito pela palavra manuscrita.

Com isso, adquirem um sentido mais profundo certas ações aparentemente mágicas. Nas cartas que ditava, não permitia Francisco que se riscasse uma letra, mesmo que fosse um erro de ortografia. Recolhia com o mesmo respeito qualquer pedacinho de pergaminho que encontrava no chão.

Perguntaram-lhe, certa vez, por que tinha tanto cuidado até mesmo com obras de autores pagãos. A resposta tem um quê de surpreendente: “Porque nelas se encontram as letras que compõem o glorioso nome do Senhor”. Por umas cinco vezes insiste ele, em suas cartas, em que se devem guardar respeitosamente as palavras do Evangelho, onde quer que sejam encontradas.

Francisco sentia o alcance psicológico desse simbolismo. “Devemos cuidar de tudo que encerra Sua Palavra sagrada. Assim ficamos profundamente compenetrados da sublimidade do nosso Criador e de nossa dependência em relação a Ele”, escreverá mais tarde ao Capítulo de seus irmãos.

A verdadeira dificuldade de se compreender como Francisco lia a Bíblia, não se encontra na cultura medieval. O que é difícil compreender é o fato raro de a Bíblia ser lida aqui por um homem que era como ela o desejava. Ele não tinha necessidade dum comentário que a suavizasse. Com heróica abertura, Francisco aceitava o texto ao pé da letra, pois este já de há muito o havia empolgado. Talvez tenha ele, alguma vez, explicado a Bíblia de uma maneira por demais rigorosa – nunca, porém, branda demais.

Devemos perguntar se a concepção de Francisco a respeito da Bíblia ainda vale para nós. Em cada mudança religiosa na história, encontra-se o homem diante da pergunta: que é propriamente autêntico na Bíblia e que é que se conseguiu descobrir com o correr do tempo?

E em cada período são sempre os grandes cristãos que, da forma mais pura, reconhecem a autenticidade. Não se requer uma visão genial para se descobrir o que corrigir num texto ou apontar alguns cantos carcomidos numa estrutura eclesiástica antiquada.

Quando se trata, porém, de valores eternos, é absolutamente necessária uma visão de fé. Não é tão estranho que um homem como Francisco, que se afastara, por assim dizer, da própria cultura para viver o Evangelho até às últimas consequências – que este Francisco tenha descoberto algo que sobrepuja qualquer cultura.

As grandes personalidades não estão à frente de seu tempo, estão acima dele.

Extraído do livro “Francisco de Assis, Profeta de Nosso Tempo”, Editora Vozes

Franciscano do dia - 01/09 - Bem-aventurado João Francisco Burté


Sacerdote e mártir da Primeira Ordem (1740-1792). Beatificado por Pio XI no dia 27 de outubro de 1926.

João Francisco Burté nasceu no dia 21 de junho de 1740 em Rambervillers, Lorena, filho de João Batista e Ana Maria Colot. Aos 16 anos, solicitou ingresso entre os Irmãos Menores Conventuais do convento de Nancy. Ele iniciou o noviciado em 24 de maio de 1757, e depois de um ano totalmente dedicado ao Senhor, ele professou. No mesmo convento continuou seus estudos. Havia ali numerosos religiosos preparados em diversas disciplinas. Quando em Nancy foi instituída a Faculdade de Teologia, bom número dos Frades Menores Conventuais foram chamados para ensinar. João Francisco, que havia se distinguido pelo aproveitamento nos estudos, com apenas quatro anos de sacerdócio foi chamado para ensinar teologia, primeiro no convento, e logo na faculdade diocesana, depois de um brilhante exame.

Em 1775, ele foi nomeado guardião do convento. Depois de três anos, ele foi responsável por representar sua Província religiosa em Paris. Ele foi escolhido como um pregador do rei, porque todos o consideravam um religioso doutor, piedoso, eloquente e modesto. Por sua destacada cultura, o recomendaram ao trabalho de Bibliotecário no grande convento em Paris, onde foi nomeado guardião de mais de 60 religiosos.

Em 1789 veio o desastre da Revolução Francesa. Em 1790 foram suprimidas as ordens religiosas, e os edifícios da Igreja foram declarados de propriedade do Estado. O que se viu em seguida na França foi a luta aberta à oposição, à dispersão e ao assassinato. João Francisco e seus religiosos manifestaram sua adesão à fé, rechaçando o juramento da lei emanada do Estado contra a Igreja.

Em 12 de agosto de 1792, o bem-aventurado João Francisco, juntamente com seus religiosos foi preso, levado para o convento dos Carmelitas, transformado em cárcere. Ali foi interrogado, investigado, assim como os bispos e outros sacerdotes. Frei João se mostrou, nestas situações terríveis, sempre como um autêntico sacerdote, franciscano genuíno, rico em zelo e caridade, sobretudo com os sacerdotes perseguidos. A Igreja do Carmo estava repleta de presos, mas não se ouvia um só lamento, a Missa estava proibida e os detentos se uniam em constante oração diante do altar-mor. Entre os presos também havia três bispos. Eles prepararam um grande massacre. A guilhotina parecia demasiada lenta para cortar 500 ou 600 cabeças por dia…

Era domingo, 2 de setembro de 1792. Duas dezenas de homens armados com lanças, espadas, machados e armas de fogo atacaram João e os 180 sacerdotes prisioneiros. Eles foram barbaramente assassinados. As vítimas serenamente rezavam ou realizavam atos de heroísmo. E assim a vida do bem-aventurado João Francisco foi heroicamente imolada por sua profissão de fé. No momento do martírio tinha 52 anos.

Fonte: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.