quinta-feira, 5 de outubro de 2017
VOLTA FRANCISCO, VOLTA À TERRA!
Ele devia ter se chamado Pascoal
Voara para os céus um homem, um poeta, uma visão nova da vida, um homem como outro não apareceu mais sobre a terra! Voou para o Alto? Não voltará? Volta de novo à terra, ó Pai Francisco. Andaste no trabalho ingente e doloroso de arredar os espinhos que escondem no coração do mundo o Reino dos céus; chagaste no trabalho os teus pés e mãos, teu peito estalou de cansaço num rasgão sangrento. E já os lobos amansavam suas gulas e sanhas, e as andorinhas andavam presas no encanto de tua voz, e os homens deixavam os campos de batalha para correr atrás de ti em convívio fraterno, e até os infiéis, enternecidos, escutavam teus cantares de Paz e Bem. Parece que já nos sorria o paraíso (O Poverello São Francisco de Assis, Pe. Fernando Felix Lopes, Braga, p. 493-494).
1. Quando chega o mês de outubro, nossa atenção se volta para a comemoração de São Francisco, para o desfecho de sua vida, para a páscoa desse homem. Pensamos também em nós todos, que nos dizemos franciscanos e que, ao longo do tempo da vida, vamos construindo nossa identidade, hoje num tempo de incertezas, numa época de sérios questionamentos. Desde os primórdios de nossa história fomos compreendendo que ser cristão franciscano era viver em estado de passagem, de andança, de peregrinação. Roupas e calçados leves, uma vida nas mãos de Deus, uma história a ser construída com as visitas do Senhor, peregrinos sem muita bagagem e pobres caminhando quase que sem lenço nem documento com outros peregrinos, também pobres e simples. Esse o sonho de nossa juventude. O peso das obras e as engrenagens da instituição nem sempre ajudam. É bom contemplar esses momentos finais da vida de Francisco, celebrar sua páscoa e cantar com ele a chegada desta Irmã que leva para a Terra dos Vivos, a Irmã Morte.
2. Lá está ele estendido sobre a terra, esse Francisco! Sem nada e de tudo cumulado. Um homem que foi se tornando transparente. Está deitado na terra nua, encarnação total da pobreza. Canta o salmo, lembra a noite de despedida do Senhor no evangelho de João. Esperando a chegada de Fra Jacoba, ia se despedindo de todos, depois de ter composto a última estrofe para o Cântico das Criaturas. Havia feito a sua parte. “Daquele corpo em destroços, ali estendido no chão, cresce e sobe ao apagar-se na distância das Alturas, a melodia do salmo. E, subindo, a voz como se fora de um homem renascido, na justiça original, voz de criança, argêntea e bela, abre nas trevas da noite esteira de tanta luz que arrasta consigo um bando de cotovias entontecidas por aquela madrugada nova” (O Poverello..., p. 493).
3. André Vauchez, celebrado historiador da Idade Média, evoca alguns detalhes da última passagem de Francisco: “Não há razão alguma para colocar em dúvida o relato dos últimos momentos edificantes do final dos dias de Francisco. Como ele tinha se esforçado por fazer de sua vida umexemplum, Francisco quis teatralizar sua morte fazendo dela um “drama sagrado”, revivendo as últimas etapas da vida de Cristo, da Ceia ao Getsêmani, deixando assim aos irmãos inesquecível lembrança. A Legenda Perusina acrescenta um episódio que tem uma nota de humanidade em todo o desenrolar da cena. Poucos dias antes de sua morte, Francisco teria tido a visita de uma viúva de alta linhagem, Jacoba de Settesoli, que pertencia à família romana dos Frangipani e pela qual ele tinha uma profunda estima e que era retribuída. Quando o Poverello pensou em escrever-lhe para informar de seu estado de saúde, espontaneamente ela veio a Assis trazendo-lhe o que era necessário para atravessar essa última etapa: uma túnica cinza com a qual ele podia ser enterrado, cera para fazer as velas e incenso para perfumar o lugar onde ele ia entregar sua alma. Francisco não havia ainda morrido e Jacoba estava ali e trazia também ummostacciuollo, um doce feito à base de amêndoas, açúcar e mel, que Francisco apreciava muito e que ele tinha degustado por ocasião de sua precedente visita. Comeu-o de uma só vez. Esse episódio acrescenta uma nota pitoresca a esse edificante final de vida: Jacoba, como mulher não podia entrar na Porciúncula, no interior da clausura. Francisco teria escapado a eventuais críticas dos que o cercavam dando à nobre romana um título masculino de “Fra (Irmão) Jacoba”. Aquele que, logo em seguida seria celebrado como um novo Cristo, precisou de uma nova Madalena... E ainda: um santo que se respeita não morre comendo doces! Certamente esta é a razão pela qual este pormenor não aparece nos textos posteriores a 1250 quando a reputação de santidade do Poverello estava solidamente estabelecida” (François d’Assise, Entre l ’ histoire et la mémoire. Bayard, Paris 2009, p. 219-220). Uma morte cheia de humanidade!
4. Esta foi a páscoa de Francisco. A páscoa definitiva na total nudez, na dramatizaçaõ que repetia os últimos momentos de Cristo. Sua vida toda, no entanto, fora uma existência de passagens. Bem no começo de tudo, quando ainda estava em pecados, o Senhor fizera com que ele começasse suas passagens, dirigindo-se aos leprosos. O Senhor o havia conduzido... O Altíssimo é que o convidava ao êxodo. No beijo dado ao leproso houve uma passagem outra: o amargo se transformou em doce e o doce em amargo. Sempre essas passagens que são sugeridas pelo Senhor. Houve a passagem de viver dos lucros da loja do pai para a vida unicamente nas mãos de Deus. Ele e seus irmãos haveriam de ser peregrinos, pessoas com pouca bagagem, sempre em viagem. “Os irmãos não se apropriem de nada, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma. E como peregrinos e forasteiros neste mundo servindo ao Senhor em pobreza e humildade...” (Regra bulada VI). Tudo é provisório, só Deus é definitivo. Reclamar da falta de conforto e buscar segurança é voltar às cebolas do Egito. Os biógrafos falam que ser peregrino é ser recebido em casa alheia, ter a nostalgia da pátria, irradiar a paz à sua passagem.
5. Assim, no verdor de nossos dias, quisemos nós que nossa vida também fosse uma existência marcada pela passagem. Tentamos sair de nós mesmos. Prometemos estar sempre a caminho do Senhor numa vida de intimidade, de busca do silêncio, de auscultação dos caminhos que ele quiser nos mostrar. Pegamos na mão de confrades que começamos a conhecer no noviciado e fomos em frente... talvez ajuntando coisas demais ao longo do caminho: bens materiais, apegos ao nosso ego, vontade de ter mais do que o necessário, falta de coragem de buscar uma terra distante que Deus nos estava mostrando, carreirismo, vontade de poder... Isso, sim, significa voltar às cebolas do Egito. Por vezes tivemos a tentação de nos deter e não caminhar como Abraão na certeza de há uma terra luminosa por detrás da neblina. Nem sempre tivemos coragem de morrer a nós mesmos. Mas muitas vezes, é verdade, na celebração da Eucaristia, fomos também fazendo a nossa páscoa e sentimos que, nesses momentos, havia um fogo novo a nos queimar o interior.
6. Francisco, um pouco antes de subir o Alverne, experimentou aperto no peito e no coração. Tinha a impressão de que a Ordem se lhe escapava das mãos. Não era aquilo que o Senhor queria dos frades. Houve densas trevas em sua caminhada. Sim, parecia que sua obra estava na rota do desvio. A Ordem tinha crescido demais: “Uma angústia profunda apoderou-se então de Francisco. Não seria desviar a fraternidade de sua vocação original, de seu carisma próprio, querer fazer dela uma Ordem, no sentido estrito da palavra? Sempre será difícil conciliar o espírito messiânico da fraternidade com as exigências de uma Ordem. Uma Ordem impõe estruturas, uma regra, uma hierarquia; cria inevitavelmente distinções e, às vezes, até exclusões. Privilegia a instituição, o coletivo. A fraternidade tal qual concebia Francisco, era antes um espaço de liberdade, onde cada irmão podia viver segundo o Espirito do Senhor. Um lugar de acolhimento de todos. Uma zona franca para a vida pura e irradiante, pela própria qualidade de suas relações” (E. Leclerc, O sol nasce em Assis, Vozes, p. 66-67).
7. Francisco sofria. Os frades haviam esquecido o espírito de simplicidade. Por vezes, a cólera subia-lhe ao semblante. Ele foi aos poucos se aproximando de uma área definitiva de passagem, de morte a si mesmo. Estava decepcionado com a Ordem: “Esta crise moral, agravada pela doença, foi para Francisco a passagem obrigatória para um despojamento radical. Ele se perguntava o que o Senhor esperava dele. O que fazer? Quase cego, sofrendo de diversas enfermidades, achou bom pedir sua demissão de ministro. Retirou-se para a solidão de um eremitério para esconder seu sofrimento e sua reovlta” ( E. Leclerc, idem, p. 68).
8. Ele não podia fechar-se num mutismo e num isolamento estéril. Não podia ficar ruminando amargura. Deus o esperava. Foi convidado a empreender uma última passagem. Teve de despojar-se de sua obra pessoal para, no dizer de Leclerc, tornar-se ele mesmo obra de Deus. Foi convidado pelo Senhor a não se perturbar. A Ordem e a obra eram do Senhor. “Francisco entendeu a exortação. E, como Abraão acreditou na Palavra, lançou no coração de Deus toda preocupação: Deus é , isto basta! Então, o coração de Francisco, abismando-se na adoração, tornou-se leve. Leve como a cotovia dos campos. Podia de novo expandir-se a céu aberto. Havia recuperado a alegria e o canto. Havia compreendido que a paz do coração é a forma suprema da pobreza” (p. 68).
9. E aí estamos nós no tempo dos redimensionamentos, da refundação, da busca de caminhos novos que possam ser abertos pelo Espírito. Nos tempos de nossos primeiros entusiasmos quisemos (e continuamos a querer) ser do Senhor e fazer de nossa vida uma existência de serviço para os irmãos, na simplicidade de nossa vida fraterna e nas andanças missionárias, tentando dizer, pelo exemplo e pela palavra, que o Amor precisa ser amado.. Mas tudo muda. Muda o modo de fazer pastoral. As igrejas se esvaziam. Nossas obras, há tempos atrás tão necessárias para a evangelização, tornaram-se pesadas, vazias e inúteis. Monstros, elefantes brancos! Desfazer-se delas? Custa. A própria vida religiosa conhece passagens. José Arregui, OFM, num artigo provocador, publicado na revista espanhola Lumen (2002), escreve: “Creio que é preciso desdramatizar radicalmente a escassez ou ausência de novas vocações: o reino de Deus, o sonho de Deus de um mundo mais feliz, não depende que nossas casas, obras e congregações perdurem. É necessário ir mais adiante e ter a coragem de encarar até mesmo a falta de vocações como um sinal do reino. Não será uma voz do Espírito, um sinal do Espírito criador, o espírito de Pentecostes, cheio de imaginação e novidade? O futuro do Espírito é vida, e a vida é uma novidade permanente. A vida se sobrepõe à morte quando sabemos aceitar a morte de tudo o que não é vivo, vital, vivificador. É preciso aprender a morrer para aprender a viver, não querer aferrar-se à vida que se vai, não querer reter o tempo, não aferrar-se ao nosso próprio passado. O futuro é a novidade de Deus, a imaginação do Espírito” (Ante el futuro de la vida religiosa, p. 206-207). Trata-se novamente do tema da passagem. Passagem-páscoa em nossa vida pessoal franciscana e páscoa das atividades, das obras, do peso daquilo que nos impede de sermos transparências do mundo que se chama reino.
10. Importante viver em profundidade. Viver em profundidade não significa agir freneticamente ad extra nem inventar coisas demais ad intra. Nossas instituições andam estressadas. Projetos, programas, encontros de revitalização, reuniões e reuniões, papéis, por vezes muitos papéis. Não podemos desanimar. Necessário reavivar a brasa, a chama. Mais importante é infundir ânimo àqueles que estão com mais de sessenta e espiam o futuro da Ordem com certa reticência. Será fundamental aceitar pascalmente nossa pobreza. Importante será aceitar nossa pobreza, nossos equívocos, nossas perdas. Nessa situação é possível viver com alegria, com dignidade. Arregui afirma: “Realismo não significa desânimo(...) É possível morrer com confiança e essa, talvez, seja a máxima fecundidade evangélica. Se vivermos com esse realismo confiante, podemos, mesmo sendo poucos e idosos e sem fazer nada de especial, constituir pequenas células de busca e de esperança viva” (p.210).
11. Ignace-Etienne Motte e Gérard Hégo escreveram um livro que fez história e continua atual: A Páscoa de São Francisco (Ed. Franciscana de Braga). Na conclusão, os autores afirmam que Francisco leva a lógica pascal do Evangelho até ultimas consequências. “Quem é apenas peregrino e forasteiro neste mundo, deve necessariamente desprender-se efetivamente de todos os bens do mundo: daí o primado da pobreza. Esta é a contribuição principal da espiritualidade franciscana à espiritualidade cristã. Coube a São Francisco descobri-la e trazê-la à plena luz. Não o fez através da especulação, pois não era teólogo; fê-lo pela experiência vivida. Peregrino e estrangeiro neste mundo, conduzido pelo Senhor para a Terra Prometida, a Terra dos Vivos, o Reino dos céus; assim, pode resumir-se a lição de sua vida. Possivelmente ninguém antes dele teria compreendido o Mistério da Páscoa, realizando-o de maneira concreta pela vida de pobreza: a pobreza franciscana é, antes de tudo, uma atitude religiosa que se explica em grande parte pela mística da Páscoa, a Páscoa de Moisés e a Páscoa de Jesus, morto e ressuscitado e elevado ao Reino dos céus (p.203-204).
12. Sim, somos homens e mulheres da Páscoa. Não nos fixamos em nada, a não ser no Senhor que nesses tempos anda pedindo que caminhemos para frente, mesmo na forte e densa neblina. Está claro: não podemos entrar nessa dança de andar de um lado para o outro, dando a impressão de que estamos renovando não sei o que. Visitar nossas origens, soprar as brasas, viver unidos em nossas casas, deixar que o Senhor nos mostre caminho, deixar que nosso coração bata com as batidas do coração de Deus e não com o frenesi barulhento de um mundo, de um espírito do mundo, que anda querendo que deixemos a trilha da Terra Prometida.
13. “Volta, Pai São Francisco, ao teu trabalho de encher a terra com a paz do Reino de Deus! Mas se não voltas, então espera-me, ó Pai, espera-me que também me quero partir contigo” ( O Poverello...p. 494).
14. Depois de tudo o que foi dito e refletido nessas linhas, me veio uma ideia não tão absurda. Francisco, que primeiro recebeu o nome de João dado pela mãe, depois de Francesco, o francezinho, dado pelo pai Bernardone, na realidade foi construindo uma vida que se transformou no homem das passagens, da Páscoa, e deveria se chamar Frei Pascoal.
Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
quarta-feira, 4 de outubro de 2017
FRANCESCO, O FILHO DE PIETRO BERNARDONE, CONTINUA VIVO...
Quando outubro chega outra vez
E depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrou o que eu devia fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do Santo Evangelho (Testamento 14).

1. Sim, Francesco, o filho de Pietro Bernadorne, queria viver evangelicamente. Nada mais, nada menos. Uma vez mais chega o mês de outubro e diante de nossos olhos se desenha a figura desse Francesco, filho de Pietro Bernardone. O que foi acontecendo com esse filho de Pietro Bernardone? Celebramos a 4 de outubro o dia desse Francesco que invadiu nossa vida com alegria e vigor: seu trânsito glorioso, a missa solene, a bênção dos animais e as exortações sobre a preservação do meio ambiente, desta casa de todos nós que anda seriamente em perigo. Mas, sobretudo, alguém que, nos anos verdes de nossa vida, nos fascinou. Alguma coisa precisa permanecer em nós depois de passados os festejos de outubro. O espírito de Francisco não morre. Não queremos ser coniventes com uma mentalidade que transforma Francisco apenas em alguma coisa adocicada e folclórica: passarinhos, água caindo em cascata, capuz na cabeça, um frade rolando pela neve e pronto. Nesta reflexão, feita no momento em que estamos entrando em outubro, queremos simplesmente lembrar três ou quatro coisas que marcaram a trajetória do filho de Pietro Bernadone. Ele continua vivendo entre nós através de seu espírito e de seus inumeráveis discípulos que costumam ser simplesmente designados de franciscanos. Qualquer coisa nos diz que, com modéstia e simplicidade, somos convidados a conservar viva a memória do Evangelho através de nossa presença e de nossa palavra de frades menores. Esta a razão de ser do movimento franciscano no mundo e na Igreja.
2. “Francisco de Assis não foi de início um modelo de doçura. Suas ambições o haviam atirado à guerra: a guerra voluntária como caminho para a glória. Mas ele encontrou Cristo e, finalmente, se o universo se transfigurou aos seus olhos, foi porque seu coração se abriu à grande doçura de Deus. Francisco soube domesticar sua própria agressividade. Converteu o lobo, aquele lobo que não vive apenas nas florestas, mas que se oculta em cada um de nós. E o lobo feroz se tornou fraternal. Aquela força de combate e de crueldade metamorfoseou-se numa energia de amor, numa força criadora de comunhão entre os seres” (E. Leclerc. O sol nasce em Assis, Vozes, p. 95). Francisco tem a doçura de Deus.
3. Francisco é alguém que leva a sério o Evangelho. Se pudéssemos resumir numa palavra a vida desseFrancesco, talvez fosse suficiente dizer isto: que ele é alguém que leva a sério o Evangelho. Pode-se mesmo dizer que se tornou um Evangelho vivo, boa nova viva com seus posicionamentos e suas atitudes. Reescreveu o Evangelho em sua carne. No fim de sua vida tinha no corpo as chagas doídas e gloriosas do Cristo Jesus. Numa época como a nossa em que a fé talvez se tenha tornado muito fragilizada, em que a pastoral parece ter perdido seu fogo e se revestido de burocracia, esse Francesco d’Assisi se nos apresenta como aquele que quer tão somente o Evangelho. O Evangelho para ele, no entanto, não é um texto morto, mas Alguém, esse Jesus, que salta das páginas escritas e inflama o coração. Por isso não se pode fazer glosas ao Evangelho.
4. Tem-se a impressão que, nos albores de sua vocação, Francisco andava literalmente à procura de um tesouro. Ele sente um apelo para fugir de toda mediocridade. Gosto da maneira como Michel Hubaut fala do encontro de Francisco com o Evangelho: “O evangelho feriu a Francisco como o bisturi do cirurgião. A tranquila homilia que atormentava a assembleia dominical se converteu para ele num evangelho de fogo. A fé é o contrário do medo. E com isso Francisco queria arriscar tudo: renunciar ao desejo de manipular ou manejar sua vida, os dons que havia recebido e entrar no projeto de Deus a seu respeito. Aposta na fé. Não se pode compreender nada de Francisco se não entendermos sua conversão como o desejo do homem que se abre ao desejo de Deus (cf. El camino franciscano, Verbo Divino [Navarra] 1984, p. 19). Mais ainda: “Na vida de Francisco, Deus não tem um espaço reservado apenas no culto semanal. Invadiu todo o seu espaço e seu tempo de homem. E isso significa crer. Francisco voltará sempre a esta convicção: guardar a fé. Buscar Deus em todas as partes. Sabe ele muito bem como as coisas, em nosso interior e ao nosso redor, constituem um obstáculo para essa presença. Crer é fazer cair incontáveis barreiras, não poucas vendas dos olhos para que atrevamo-nos a colocar um ato de confiança que nos oriente incondicionalmente a uma chamada que vem de outro lugar” (p. 19-20). Penso que a força da frase precedente está na resposta incondicional. Esta a base do chamamento de Francisco. Este o fundamento do viver dos franciscanos: agarrar o projeto do Evangelho e acreditar num amanhã que será rasgado para nós e nossa fraternidade. Quando nossos frades fazem sua profissão solene estão dizendo: “Tu estás comigo. Meu futuro não é meu futuro. Mas o futuro que tu me mostras. Dá-me a singeleza de uma criança e que eu não largue minha mão de Tua mão. Dá-me viver minha promessa na casa de irmãos transparentes”. Que futuro o Senhor está mostrando aos frades da Imaculada?
5. Sentimos hoje mais do que nunca que precisamos com urgência voltar ao Evangelho. O tema parece gasto. Não há, no entanto, outra saída para um certo mal-estar do mundo, da Igreja e para nossas fraternidades franciscanas. Apesar de todo o progresso, de uma melhor distribuição de rendas e de tantos avanços, continuam a existir miseráveis em todos cantos: nas favelas, nos barcos de refugiados que chegam aos países mais desenvolvidos da Europa, nesses seres que morrem e matam, nos jovens drogados, despedaçados, quebrados. As pessoas não são felizes e vivem um sentimento de insatisfação. O ser humano parece perdido e a humanidade dá a impressão de regredir. Quantas vezes nós mesmos, sem angústias neuróticas, em momentos de verdade, queremos também começar tudo de novo e, quem sabe, de uma outra maneira.
6. Voltar ao Evangelho não é apenas ler as páginas de um texto e citar pensamentos do Novo Testamento. Para Francisco, o Evangelho é uma pessoa. “O coração da espiritualidade de Francisco: a fé vigilante. Para além das ideologias, dos anunciadores de desgraças, dos slogans publicitários a respeito da felicidade, permanecer disponível ao chamado de Deus, ao Espírito do Senhor. Iluminar novamente nossas fontes interiores. Escutar Deus. Buscar a Deus. Deixar-se amar e modelar por Deus. Deixar-se conduzir de novo no meio da noite pela esperança que ganhou rosto em Jesus Cristo. Despertar desta sonolência espiritual que fez nosso mundo ocidental adormecer em meio à abundância. O projeto evangélico de São Francisco se enraíza na fé” (p. 20-21).
7. Quando se fala de Francisco não se pode deixar de evocar o encontro com o leproso. “Todas as aventuras humanas começam por uma experiência fundante. A experiência fundadora do movimento franciscano está vinculada aos leprosos. Servindo e cuidando dos leprosos é que Francisco fez a experiência de Deus e da felicidade, experiência que ele mesmo, no Testamento, descreve como passagem do amargo para o doce. Foi ali que compreendeu que ele não podia ser conivente com mau caminho que a comuna de Assis havia encetado, baseada na apropriação e acumulação de bens materiais, sem atenção para com esses que constituíam uma minoria subjugada. Foi ali que Francisco descobriu que devia mudar e voltar ao Evangelho, à boa nova proclamada aos pobres. A experiência fundadora de Francisco consistia na tomada de consciência que existiam irmãos e irmãs humanos, excluídos, entregues à própria sorte, que isso não era justo, que isso nada tinha de equitativo, que Deus se importava com o fato, e que lá era o lugar de Deus. Para os primeiros franciscanos, construir uma vida segundo o Evangelho não queria dizer fugir para longe, mas oferecer uma sociedade alternativa fundada sobre a economia evangélica do serviço e da partilha, ali, nas portas de Assis, na terra de Deus. Do mesmo modo que os primeiros cristãos que ameaçam a ordem do império romano, os primeiros irmãos e irmãs que seguiram Francisco ameaçavam pacificamente e sem violência a recentíssima democracia de Assis: Ninguém me disse o que eu devia fazer, escreveu Francisco em seu Testamento, mas ele compreendeu que Deus queria que ele vivesse segundo o Evangelho, graças a Deus, esta declaração “herética” esteve na origem de um movimento que está ainda em pleno vigor” (Jean-François Godet-Calogeras, Retour aux sources, in Evangile Aujourd’hui, n. 226, p. 44-45).
8. Os frades de ontem e de hoje, homens do evangelho, são também pessoas abertas ao Espírito. O novo que se pede não nasce de relatórios e de pesquisas e estatísticas, mas de frades que se deixam guiar pelo Espírito do Senhor. O Poverello exorta os frades a não perderem esse espírito do Senhor. Os comentaristas dizem que no contexto da Regra bulada Francisco pensava no espírito de Cristo. Vale transcrever o texto e o contexto: “Admoesto, no entanto, e exorto no Senhor Jesus Cristo a que os irmãos se acautelem de toda soberba, vangloria, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, detração e murmuração; e os que não sabem ler não se preocupem em aprender, mas atendam a que, acima de tudo, devem desejar possuir o espírito do Senhor e seu santo modo de operar” (Regra Bulada X).
9. A redescoberta do Evangelho pode fazer a terra arder. Esse Espírito do Senhor é que age na história.“Aconteceu muitas vezes que os cristãos, fechados numa falsa interioridade ou presos às estruturas do passado, não souberam discernir os apelos do Espírito nas forças vivas que agem na história dos homens, para grande prejuízo da Igreja e da sociedade. A Igreja só pode renovar-se em contato com as aspirações profundas dos homens. Este é o lugar onde se opera uma nova leitura do Evangelho. Da mesma forma, os anseios e buscas da sociedade ganham sua dimensão totalmente humana à luz dessa leitura renovada. O que dá força e irradiação à figura de Francisco é o fato de ter realizado o encontro do Evangelho com a história. E uma vez mais pôde fazer a terra arder” (Eloi Leclerc, Francisco de Assis. O retorno ao evangelho, Vozes, p. 127).
10. Francisco tem uma atitude de busca da verdade. Quer a verdade de Deus, dos outros e a própria verdade. Não quer aparência. Por isso busca a vontade de Deus. Famosa a frase: “O que queres de mim?” Verdade da vida de oração e da vida fraterna, verdade na prática pastoral e verdade no trato com os irmãos, verdade a respeito dos irmãos e da administração. Verdade, misturada com misericórdia. Mas uma vida verdadeiramente evangélica, sem mentiras e acomodações medíocres, sem fachada, sem duplicidade. Uma vida verdadeira.
11. Francisco é o despojado. Despoja-se dos bens, do orgulho, da auto-suficiência, do narcisismo, do carreirismo. Começa por despojar-se de todos os bens. Esse despojamento era necessário. André Vauchez, um dos mais conhecidos medievalistas ainda vivos, recentemente escreveu uma biografia sobre Francisco de Assis. Falando do despojamento dos bens: “De todos os que vinham seguir o gênero de vida do começo, Francisco exigia que vendessem seus bens e distribuíssem em seguida o dinheiro aos pobres. Numa sociedade em que os direitos do individuo contavam menos do que os interesses da linhagem não era fácil para alguém que possuía desfazer de seus bens, porque devia obter o acordo com todos os possuidores e reembolsá-los de sua parte na hora de uma eventual venda. Assim, quase a cada vez, o ingresso na fraternidade dos irmãos de Francisco provocava com o que um traumatismo social e fazia nascer na opinião pública reações que iam da mau humor à hostilidade declarada diante desse punhado de loucos que perturbavam o jogo normal da partilha senhorial e as estratégias do clã familiar” (François d’Assise, A. Vauchez, Fayard, 2009, p. 85). Importante a venda dos bens e a distribuição do dinheiro aos pobres. Consequência disso: há também o despojamento do orgulho, da suficiência, do narcisismo. Uma vida evangélica.
12. Francisco entra num serviço minorítico e fraterno. Abandona a dominação e o poder. Imita o Cristo servidor. Tudo começa com a alegria de estar junto das pessoas simples, de modo especial dos leprosos. Uma fraternidade de menores! Éloi Leclerc fala do tipo de fraternidade evangélica inventada por Francisco: “Uma fraternidade evangélica não pode ser simplesmente uma comunidade de pobres voluntários, que cultivam a pobreza como uma virtude. Num universo fechado, desligado do mundo e da história. Deve também ser uma fraternidade com os pequenos e os pobres, partilhar de suas condições de vida e de suas aspirações, a fim de que a voz profunda do mundo, suspirando por uma comunidade mais justa e mais fraterna, ressoe no coração da esperança do Reino. Os primeiros frades menores aparecem verdadeiramente como mensageiros da Boa Nova tentando viver em fraternidade com os mais humildes e mais carentes” (E. Leclerc, Francisco de Assis. O Retorno ao Evangelho, Vozes, CEFEPAL, p. 63).
13. Nada de fraternidade sem arestas. Os biógrafos de Francisco afirmam que aos poucos ele também compreendeu que deveria viver uma fraternidade aberta mesmo com aqueles que não haviam compreendido seu projeto e talvez não o vivessem. Numa de suas últimas obras, já citada anteriormente (O sol nasce em Assis), o mesmo Éloi Leclerc escreve com extrema justeza: “A comunhão com os irmãos, com todos os irmãos, eis o que é primordial e que devemos salvar antes de tudo. A separação é o pior que pode acontecer. Colocando a comunhão fraterna acima de tudo, Francisco salvava seu carisma e, ao mesmo tempo, a instituição (...). Não se trata de sonhar com uma fraternidade ou uma Igreja de pessoas puras, mas aceitar viver com os irmãos, com todos os irmãos. Não só com os justos, mas também com os medíocres e pecadores. Não só com os sadios, mas também com os doentes e com estropiados... E no meio de todos, trata-se de testemunhar a infinita paciência de Deus, seu inesgotável perdão e sua graça sempre renovada. Pois este é verdadeiramente o coração de Deus. Quando se dá este testemunho, então começa aqui e agora o Reino de Deus: a luz do Evangelho brilha na obscuridade do mundo” (O sol..., op.cit., p. 70-71).
14. Jean-François Godet, frade menor, professor na Universidade Saint Bonaventure de Nova York, já mencionado: “O espírito do Evangelho não morre. Nos últimos decênios vimos emergir uma busca de vida evangélica. De um lado isso se deveu às inspirações do Concílio do Vaticano II no sentido de que as comunidades voltassem ao espírito de seus fundadores e não se identificassem simplesmente como auxiliares do clero. Mudar estruturas e mentalidades hoje parece difícil. Será preciso fazer transformações na maneira como as pessoas vivem juntas e como se tratam mutuamente. O espírito do Evangelho engendra uma nova conduta política, social e econômica. Os primeiros franciscanos podiam se servir da linguagem da vida evangélica com honestidade porque todo seu comportamento, toda sua atividade era fortemente marcado pelo Evangelho. Quando falamos hoje de vida evangélica, talvez antes de servirmo-nos das palavras do Evangelho deveríamos agir concreta e intensamente para o surgimento de um mundo de irmãos e de irmãs que possam partilhar os bens de Deus. Isso quer dizer, por exemplo, que devemos nos certificar que todos os seres humanos tenham acesso à comida e à moradia, à educação e aos cuidados médicos, a um trabalho decente e a um salário digno. Isto significa trabalhar junto com os que batalham por um mundo de nações verdadeiramente unidas. Isto quererá dizer que tomemos posição contra tudo o que exclui e fere outros seres humanos.” (op.cit., p. 47-48).
15. Vamos terminando. A festa de São Francisco não pode ser um dia que passa e nada mais. Ela deve poder marcar nossas vidas. Precisa colocar dentro de nós uma saudade daquele tempo em que resolvemos vender tudo e seguir Francisco. Temos vontade de pedir aos céus e ao Francisco da glória que volte a esta terra. “Voou para o Alto? Não voltará? Volta de novo à terra, ó Pai São Francisco. Andaste no trabalho ingente e doloroso de arredar os espinhos que escondem no coração do mundo o Reino dos céus; chagaste no trabalho os teus pés e mãos, teu peito estalou de cansaço num rasgão sangrento. E já os lobos amansavam suas gulas e sanhas, e as andorinhas andavam presas no encanto de tua voz, e os homens deixavam os campos de batalha para correr atrás de ti, em convívio fraterno, e até os infiéis, enternecidos escutavam os teus cantares de Paz e Bem. Parece que já nos sorria o paraíso. Mas foste embora naquela madrugada de luz que num instante fulgiu nos negrumes da terra, e logo se apagou. E foi outra vez a noite do pecado. Há mais espinhos sobre a crosta da terra; anda à solta, mais açulados e gulosos, os lobos que nos espreitam; fugiram aterradas as andorinhas; e as irmãs cotovias, tristes encapuchadas, vivem numa saudade imensa daquela madrugada que não chegou a amanhecer. Volta, pai São Francisco, ao teu trabalho de encher a terra da paz do Reino de Deus! Mas se não voltas, então espera-me, ó Pai, que também me quero partir contigo” (Fernando Felix Lopes, O Poverello. S. Francisco de Assis, Ed. Franciscana Braga, 1950, p. 493-494).E ordeno firmemente por obediência a todos os meus irmãos, clérigos e leigos, que não introduzam glosas na Regra, nem nestas palavras dizendo: assim devem ser entendidas, mas como o Senhor me concedeu de modo simples e claro, dizer e escrever a Regra e estas palavras, igualmente de modo simples e sem glosa, as entendais com santa operação e as observeis até o fim (Testamento 38-39).
Santo Franciscano do dia - 04/10 - São Francisco de Assis
Diácono, fundador das Três Ordens, Patrono da Itália (1182-1226). Canonizado por Gregorio IX no dia 16 de julho de 1228.
“Nasceu para o mundo um sol”: com estas palavras, na “Divina Comédia” (Paraíso, Canto XI), o máximo poeta italiano Dante Alighieri alude ao nascimento de Francisco, no final de 1181 ou início de 1182, em Assis. Pertencente a uma família rica – seu pai era comerciante de tecidos –, Francisco transcorreu uma adolescência e uma juventude despreocupadas, cultivando os ideais de cavalaria da época. Aos 20 anos, fez parte de uma campanha militar e foi preso. Ficou doente e foi libertado. Após sua volta a Assis, começou nele um lento processo de conversão espiritual, que o levou a abandonar gradualmente o estilo de vida mundano que havia levado até então.
A este período correspondem os célebres episódios do encontro com o leproso, a quem Francisco, descendo do cavalo, deu o beijo da paz, e da mensagem do Crucificado na pequena igreja de São Damião. Em três ocasiões, o Cristo na cruz adquiriu vida e lhe disse: “Vai, Francisco, e repara minha Igreja, que está em ruínas”. Este simples acontecimento da palavra do Senhor ouvida na igreja de São Damião esconde um simbolismo profundo. Imediatamente, São Francisco foi chamado a reparar esta pequena igreja, mas o estado ruinoso deste edifício era o símbolo da situação dramática e inquietante da própria Igreja nessa época, com uma fé superficial que não forma e não transforma a vida, com um clero pouco zeloso, com o esfriamento do amor; uma destruição interior da Igreja que comportou também uma decomposição da unidade, com o nascimento de movimentos hereges. Contudo, nessa Igreja em ruínas, o Crucifixo está no centro e fala: convida à renovação, chama Francisco a um trabalho manual para reparar concretamente a pequena igreja de São Damião, símbolo do chamado mais profundo a renovar a própria Igreja de Cristo, com sua radicalidade de fé e com seu entusiasmo de amor por Cristo.
Este acontecimento, ocorrido provavelmente em 1205, faz pensar em outro acontecimento similar, ocorrido em 1207: o sonho do Papa Inocêncio III. Este viu em sonhos que a Basílica de São João de Latrão, a igreja mãe de todas as igrejas, estava desmoronando e que um religioso pequeno e insignificante a escorava com os ombros, para que não caísse. É interessante notar, por um lado, que não é o Papa quem ajuda para que a Igreja não caia, mas um religioso pequeno e insignificante, que o Papa reconhece em Francisco quando este o visita. Inocêncio III era um papa poderoso, de grande cultura teológica, como também de grande poder político e, no entanto, não é ele quem renova a Igreja, e sim um pequeno e insignificante religioso: é São Francisco, chamado por Deus. Por outro lado, no entanto, é importante observar que São Francisco não renova a Igreja sem ou contra o Papa, mas em comunhão com ele. As duas realidades estão juntas: o Sucessor de Pedro, os bispos, a Igreja fundada sobre a sucessão dos apóstolos e o carisma novo que o Espírito Santo cria nesse momento para renovar a Igreja. Na comunhão se dá a verdadeira renovação.
Voltemos à vida de São Francisco. Dado que seu pai, Bernardone, reprovava sua grande generosidade com os pobres, Francisco, na frente do bispo de Assis, com um gesto simbólico, despojou-se de todas as suas roupas, pretendendo, assim, renunciar à herança paterna: como no momento da criação, Francisco não tinha nada, a não ser a vida dada por Deus, em cujas mãos se entregou. Depois, viveu como um eremita, até que, em 1208, houve outro acontecimento fundamental no itinerário da sua conversão. Escutando uma passagem do Evangelho de Mateus – o discurso de Jesus aos apóstolos enviados à missão –, Francisco se sentiu chamado a viver na pobreza e a dedicar-se à pregação. Outros companheiros se uniram a ele e, em 1209, ele se dirigiu a Roma, para submeter ao Papa Inocêncio III o projeto de uma nova forma de vida cristã. Recebeu um acolhimento paternal por parte daquele grande pontífice que, iluminado pelo Senhor, intuiu a origem divina do movimento suscitado por Francisco. O Pobrezinho de Assis havia compreendido que todo carisma dado pelo Espírito Santo deve ser colocado ao serviço do Corpo de Cristo, que é a Igreja; portanto, agiu sempre em comunhão plena com a autoridade eclesiástica. Na vida dos santos não há contraposição entre carisma profético e carisma de governo e, se houver alguma tensão, estes sabem esperar com paciência os tempos do Espírito Santo.
Na realidade, alguns historiadores do século XIX e também do século passado tentaram criar atrás do Francisco da tradição um “Francisco histórico”, assim como se tenta criar atrás do Jesus dos evangelhos um “Jesus histórico”. Este Francisco histórico não teria sido um homem de Igreja, mas um homem unido imediatamente só a Cristo, um homem que pretendia criar uma renovação do povo de Deus, sem formas canônicas e sem hierarquia. A verdade é que São Francisco teve realmente uma relação imediatíssima com Jesus e com a Palavra de Deus, à qual queria seguir sine glossa, assim como ela é, em toda a sua radicalidade e verdade. É verdade também que, inicialmente, ele não tinha a intenção de criar uma ordem com as formas canônicas necessárias, mas simplesmente, com a Palavra de Deus e com a presença do Senhor, queria renovar o povo de Deus, convocá-lo novamente à escuta da Palavra e à obediência a Cristo. Além disso, sabia que Cristo nunca é “meu”, e sim sempre “nosso”, que não posso ter Cristo sozinho e construir “eu”, contra a Igreja, contra sua vontade e seu ensinamento, mas somente na comunhão da Igreja constituída sobre a sucessão dos apóstolos se renova também a obediência à Palavra de Deus.
Também é verdade que ele não tinha a intenção de criar uma nova ordem, mas somente renovar o povo de Deus para o Senhor que vem. Porém, compreendeu, com sofrimento e com dor, que tudo deve ter sua ordem, que também o direito da Igreja é necessário para dar forma à renovação e, assim, realmente se inseriu de forma total, com o coração, na comunhão da Igreja, com o Papa e com os bispos. Ele sempre soube que o centro da Igreja é a Eucaristia, na qual o Corpo de Cristo e seu Sangue estão presentes. Através do sacerdócio, a Eucaristia é a Igreja. Onde o sacerdócio, Cristo e a comunhão da Igreja caminham juntos, somente aí habita também a Palavra de Deus. O verdadeiro Francisco histórico é o Francisco da Igreja e, precisamente dessa maneira, ele fala também a nós, os crentes, e aos crentes de outras confissões e religiões.
Francisco e seus frades, cada vez mais numerosos, estabeleceram-se na Porciúncula – ou igreja de Santa Maria dos Anjos –, lugar sagrado por excelência da espiritualidade franciscana. Também Clara, uma jovem mulher de Assis, de família nobre, entrou na escola de Francisco. Teve origem, assim, a Segunda Ordem Franciscana, a das Clarissas, outra experiência destinada a produzir frutos insignes de santidade na Igreja.
Também o sucessor de Inocêncio III, o Papa Honório III, com sua bula Cum dilecti, de 1218, apoiou o singular desenvolvimento dos primeiros Frades Menores, que iam abrindo suas missões em diversos países da Europa, inclusive em Marrocos. Em 1219, Francisco obteve autorização para dirigir-se ao Egito e falar com o sultão muçulmano Melek-el-Kâmel, para pregar também lá o Evangelho de Jesus. Eu gostaria de sublinhar este episódio da vida de São Francisco, que tem uma grande atualidade. Em uma época em que estava em curso um enfrentamento entre o cristianismo e o islã, Francisco, armado voluntariamente só com sua fé e sua mansidão pessoais, percorreu com eficácia o caminho do diálogo. As crônicas nos falam de um acolhimento benevolente e de uma cordial recepção do sultão. Este é um modelo que deve inspirar, ainda hoje, as relações entre cristãos e muçulmanos, para promover um diálogo na verdade, no respeito e na compreensão mútuos (cf. Nostra Aetate, 3). Parece então que Francisco esteve na Terra Santa em 1220, lançando assim uma semente, que deu muitos frutos: seus filhos espirituais, de fato, fizeram dos Lugares Santos onde Jesus viveu um âmbito privilegiado de sua missão. Penso, com gratidão, nos grandes méritos da Custódia Franciscana da Terra Santa.
Ao voltar à Itália, Francisco entregou o governo da Ordem ao seu vigário, Frei Pedro Cattani, enquanto o Papa confiou à proteção do cardeal Ugolino, o futuro Sumo Pontífice Gregório IX, a Ordem, que reunia cada vez mais adesões. Por sua vez, o fundador, dedicado completamente à pregação – que levava a cabo com grande êxito –, redigiu uma Regra, depois aprovada pelo Papa.
Em 1224, no eremitério de Verna, Francisco viu o Crucifixo em forma de um serafim e, do encontro com o serafim crucificado, recebeu os estigmas; converteu-se, assim, em um com Cristo: um dom, portanto, que exprime sua identificação com o Senhor.
A morte de Francisco – seu transitus – ocorreu na noite de 3 de outubro de 1226, na Porciúncula. Após ter abençoado seus filhos espirituais, morreu, deitado sobre a terra nua. Dois anos mais tarde, o Papa Gregório IX o inscreveu no elenco dos santos. Pouco tempo depois, erigiu-se em Assis uma grande basílica em sua honra, meta, ainda hoje, de muitíssimos peregrinos, que podem venerar o túmulo do santo e desfrutar da visão dos afrescos de Giotto, pintor que ilustrou de forma magnífica a vida de Francisco.
Já foi dito que Francisco representa um alter Christus; era verdadeiramente um ícone vivo de Cristo. Ele também foi chamado de “irmão de Jesus”. De fato, este era o seu ideal: ser como Jesus, contemplar o Cristo do Evangelho, amá-lo intensamente, imitar suas virtudes. Em particular, ele quis dar um valor fundamental à pobreza interior e exterior, ensinando-a também aos seus filhos espirituais. A primeira bem-aventurança do Sermão da Montanha – “Felizes os pobres, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5, 3) – encontrou uma luminosa realização na vida e nas palavras de São Francisco. Verdadeiramente, queridos amigos, os santos são os melhores intérpretes da Bíblia; estes, encarnando em sua vida a Palavra de Deus, tornam-na mais atraente que nunca, de forma que ela fala realmente conosco. O testemunho de Francisco, que amou a pobreza para seguir Cristo com dedicação e liberdade totais, continua sendo, também para nós, um convite a cultivar a pobreza interior para crescer na confiança em Deus, unindo também um estilo de vida sóbrio e um desapego dos bens materiais.
Em Francisco, o amor a Cristo se expressou de maneira especial na adoração ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Nas Fontes Franciscanas, lemos expressões comoventes, como esta: “Pasme o homem todo, estremeça a terra inteira, rejubile o céu em altas vozes quando, sobre o altar, estiver nas mãos do sacerdote o Cristo, Filho de Deus vivo! Ó grandeza maravilhosa, ó admirável condescendência! Ó humildade sublime, ó humilde sublimidade! O Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, se humilha a ponto de se esconder, para nosso bem, na modesta aparência do pão” (Francisco de Assis, Escritos).
Neste Ano Sacerdotal, quero também recordar a recomendação dirigida por Francisco aos sacerdotes: “Ao celebrar a Missa, ofereçam o verdadeiro sacrifico do Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, pessoalmente puros, com disposição sincera, com reverência e com santa e pura intenção” (Francisco de Assis, Escritos). Francisco mostrava sempre um grande respeito pelos sacerdotes e recomendava respeitá-los sempre, inclusive no caso de que pessoalmente fossem pouco dignos. A motivação do seu profundo respeito era o fato de que eles receberam o dom de consagrar a Eucaristia. Queridos irmãos no sacerdócio, não nos esqueçamos jamais deste ensinamento: a santidade da Eucaristia nos pede que sejamos puros, que vivamos de maneira coerente com o Mistério que celebramos.
Do amor a Cristo nasce o amor às pessoas e também a todas as criaturas de Deus. Este é outro traço característico da espiritualidade de Francisco: o senso de fraternidade universal e de amor pela criação, que lhe inspirou o célebre “Cântico das criaturas”. É uma mensagem muito atual. Como recordei em minha recente encíclica, Caritas in veritate, só é sustentável um desenvolvimento que respeite a criação e que não danifique o meio ambiente (cf. N. 48-52), e na Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano, sublinhei que também a constituição de uma paz sólida está unida ao respeito pela criação. Francisco nos recorda que na criação se manifesta a sabedoria e a benevolência do Criador. A natureza é entendida por ele precisamente como uma linguagem com a qual Deus fala conosco, através da qual a realidade divina se torna transparente e podemos falar de Deus e com Deus.
Queridos amigos: Francisco foi um grande santo e um homem alegre. Sua simplicidade, sua humildade, sua fé, seu amor a Cristo, sua bondade com cada homem e cada mulher o tornaram alegre em toda situação. De fato, entre a santidade e a alegria subsiste uma relação íntima e indissolúvel. Um escritor francês disse que no mundo só existe uma tristeza: a de não ser santos, isto é, a de não estar perto de Deus. Vendo o testemunho de Francisco, compreendemos que este é o segredo da verdadeira felicidade: ser santos, estar perto de Deus!
Que Nossa Senhora, ternamente amada por Francisco, obtenha esse dom para nós. Confiamo-nos a Ela com as palavras do próprio Pobrezinho de Assis: “Ó Maria, Virgem Santíssima, não há outra semelhante, nascida neste mundo, entre as mulheres; filha e serva do Rei altíssimo, o Pai celeste. Mãe de Jesus Cristo, nosso Senhor; esposa do Espírito Santo, rogai por nós (…) junto ao vosso santíssimo e dileto Filho, nosso Senhor e Mestre” (Francisco de Assis, Escritos).
Papa Bento XVI
terça-feira, 3 de outubro de 2017
Transitus - Morte e Vida de São Francisco de Assis
Por Frei Nilo Agostini, OFM
Todo debilidato, com voz fraca, sumida, entoa Francisco o Salmo 142: mea ad Dominum clamavi (“Com minha voz clamei ao Senhor...”). O Salmo vai sendo entoado pouco a pouco, e ao chegar ao versículo Educ de custodia animam meam (“Arranca do cárcere minha alma, pra que vá cantar teu nome, pois me esperam os justos e tu me darás o galardão”). Faz-se grande e profundo silêncio. Acabara de morrer, cantando, Francisco de Assis.
Quem é este que transfigura o trauma da morte em expressão de liberdade tão suprema? Desaparece o sinistro da morte. E Francisco vai ao seu encontro como quem vai abraçar e saudar uma irmã muito querida.
Ano de 1226. Francisco se acha muito debilitado. Seu estômago não aceita mais alimento algum. Chega a vomitar sangue. Admiram-se todos como um corpo tão enfraquecido, já tão morto, ainda não tenha desfalecido. Transportado de Sena para Assis, Francisco ainda encontra forças para exortar os que acorrem a ele. E aos irmãos diz: “Meus irmãos, comecemos a servir ao Senhor, porque até agora bem pouco fizemos”. Ao chegar a Assis, um médico se apresenta e constata que nada mais resta a fazer. Ao que Francisco exclama: “Bem-vinda sejas, irmã minha, a morte!” E convida aos irmãos Ângelo e Leão para cantarem o Cântico do Irmão Sol, ao qual Francisco Acrescenta a última estrofe em louvor a Deus pela morte corporal.
Cria-se uma atmosfera tão jovial e alegre que o Ministro Geral da Ordem, Frei Elias, interpela Francisco para que pare com toda aquela atmosfera, vista como “cantoria”, para que enfim ele morra “convenientemente”, pois poderia escandalizar os moradores de Assis. “Com tudo o que sofro, me sinto tão perto de Deus que não posso senão cantar!” – respondeu-lhe Francisco.
Aproximando-se a hora derradeira, Francisco deseja ser levado para a capelinha de Nossa Senhora dos Anjos, na Porciúncula, onde tudo havia começado. Lá, num gesto de despojamento, de identificação com o Cristo crucificado e de integração com o Pai, pede que o deixem, nu, sobre a terra e diz aos frades: “Fiz o que tinha que fazer. Que Cristo vos ensine o que cabe a vós”. Despede-se de todos os irmãos; abençoa-os; lembra-lhes que “o Santo Evangelho é mais importante que todas as demais instituições”. Ainda deseja que Irmã Jacoba lhe traga alguns daqueles deliciosos biscoitos. Anima o seu médico, dizendo-lhe: Irmão médico, dize com coragem que a minha morte está próxima. Para mim, ela é a porta para a vida!” E, então, canta o Salmo 142. Francisco parte cantando, cortês, hospitaleiro e reconciliado com a morte.
O canto de Francisco está baseado em uma percepção realista da morte: “Nenhum homem pode escapar da morte”. Mas como pode ser irmã aquela que engole a vida, que decepa aquela pulsão arraigada em cada um de nós, fundada em um “desejo” que busca triunfar sobre a morte e viver eternamente? Francisco acolhe fraternalmente a morte. Nele realiza-se, de forma maravilhosa, o encontro entre a vida e a morte, em um processo de integração da morte.
Francisco acolhe a vida assim como ela é, ou seja, em sua exigência de eternidade e em sua mortalidade. Tanto a vida como a morte são um processo que perdura ao longo de toda a vida. A morte faz parte da vida. Como e despertar e o adormecer, assim é a morte para o ser humano. Ela não rouba a vida; dá a esse tipo de vida a possibilidade de outro tipo de vida, eterna e imortal, em Deus.
A morte não é então negação total da vida, não é nossa inimiga, mas é passagem para o modo de vida em Deus, novo e definitivo, imortal e pleno! Francisco capta esta realidade e abriga a morte dentro da vida. Acolhe toda limitação e mostra-se tolerante com a pequenez humana, a sua e a dos outros.
A grandeza espiritual e religiosa de Francisco no saudar e cantar a morte significa que já está para além da própria morte; ela, digna hóspede não lhe é problema; ao contrário, ela é a condição de viver eternamente, de triunfar de modo absoluto, de vencer todo embotamento do pecado que a transforma em tragédia. Francisco soube mergulhar na fonte de toda a vida. “Enquanto Deus é Deus, enquanto Ele é o vivente e a Fonte de toda a vida, eu não morrerei, ainda que corporalmente morra!”
Morte, drama sagrado,
não uma tragédia.
Morte, bem-vinda,
não uma inimiga.
Morte, uma irmã,
não uma ladra.
Morte, abertura para a plena liberdade,
presença do Reino de Deus, utopia do justos.
“Deus enxugará as lágrimas dos seus olhos, e a morte não existirá mais,
nem haverá mais luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou” (Ap 21,4).
“Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã,
a morte corporal, da qual nenhum vivente pode escapar” (São Francisco, Cântico do Irmão Sol). T
Sermão proferido por Frei Nilo Agostini, na Festa de São Francisco de Assis, 04/10/1991
Especial São Francisco de Assis.
A docilidade ao Espírito requer ousadia.
Frei Sinivaldo S. Tavares, OFM
Vivemos numa situação de crise e, entre surpresos e perplexos, constatamos um processo de profundas transformações. Muitas são as indagações que brotam da experiência dos homens e das mulheres do nosso tempo. Inúmeras, as sementes de vida e de esperança entranhadas no nosso cotidiano que, ansiosamente, atendem o momento propício da germinação. Estamos convencidos de que o projeto evangélico de Francisco de Assis goza de uma atualidade surpreendente. Ele tem despertado em todas as culturas e épocas fascínio e acolhida. Seremos capazes, também nós, de encarnar o projeto evangélico de Francisco? Estamos dispostos a oferecer-lhe aquela concreção singular capaz de contagiar alma e corpo, vida e palavra, atitudes pessoais e relacionais?
1. A “ortopráxis” como verificação da “ortodoxia” do nosso carismaO Vaticano II convocou-nos à recuperação do nosso carisma inspiracional. Desde então, temos nos empenhado em redescobrir nossa. identidade franciscana, mediante o estudo das Fontes, e em repropô-la nas nossas legislações e documentos recentes. Nossa maior dificuldade, todavia, tem sido encarnar de maneira significativa aqueles valores nos quais cremos e esperamos e que publicamente professamos. Precisamos estabelecer com a nossa mais genuína tradição uma relação de “fidelidade criativa”. Não basta se debruçar sobre os textos franciscanos. Eles surgiram como fruto da experiência concreta de Francisco e de seus primeiros companheiros. Testemunham o esforço deles em encarnar o evangelho em meio à realidade desafiante dos inícios do século XIII.
Celano escreve que Francisco “fez do seu corpo uma língua” (1Cel 97). Pois compreender é bem mais do que simplesmente explicar. Não que a explicação se oponha à reta compreensão. No entanto, muitas das nossas explicações, ao invés de conduzir-nos à aplicação, nos detêm num prazeroso “incesto intelectual”, responsável por situações de perniciosa estagnação. Importa recuperar o princípio evangélico de que é pelo fruto que se conhece a árvore. Não se trata, portanto, de condicionar o ser ao fazer quanto de perceber que o ser se revela e se verifica no fazer.
2. O desafio perene de requalificar nossa vidaNão estamos imunes à onda do pragmatismo e do eficientismo. Preocupamo-nos demasiadamente com a visibilidade e, não raras vezes, assumimos atitudes triunfalistas e prepotentes. Francisco recorda que somos chamados a ser irmãos e menores e que nisto consiste propriamente nossa missão evangelizadora. Importa recuperar a gratuidade fundamental da nossa existência, expressão do dom livre e desinteressado de Deus. Discernir em cada situação a presença discreta de Deus que nos desafia e interpela.
Ver as diferenças não como ameaça à unidade, nem como sintoma de uma comunhão perdida. Acolhê-las, ao contrário, como expressão da multiforme e fecunda graça de Deus. Não apenas suportá-las, numa atitude de indiferença, por vezes, reveladora de uma tácita cumplicidade. Mas assumi-las como ocasião propícia para se deixar surpreender pelo Deus de Jesus. Isso só é possível para aqueles que, sabiamente, aprenderam a suspeitar de si mesmos e dos próprios projetos. E perceberam que a diferença do outro, muitas vezes, pode se tomar oportunidade privilegiada de enriquecimento e de amadurecimento.
Para tanto, é necessário que nos proponhamos a reconstruir nossa identidade interior. Resgatar o mistério da própria vocação mediante a escuta silenciosa da Palavra de Deus e a participação assídua à Eucaristia. Redescobrir, através da leitura atenta e da meditação da Palavra de Deus, que Ele irrompe na nossa vida cotidiana de formas e modos cada vez novos e que nos interpela a realizar sua vontade.
Celebrar a Eucaristia como memória do Mistério pascal de Cristo que se recria na vida de cada um de nós e das nossas fraternidades. Somente em tal caso a Eucaristia será experimentada como aquele alimento que nos revigora no esforço em “fazer o que sabemos que Ele quer e de querer sempre o que lhe agrada” (Carta a toda a Ordem, 50). Somente enquanto alicerçados sobre uma formação espiritual sólida, seremos capazes de reconciliar as diversidades presentes em nossas fraternidades e províncias.
Somos chamados, hoje mais do que nunca, a recuperar os votos na sua força libertadora. Não são, em primeiro lugar, sinais de uma carência que deve ser abraçada numa atitude de ascetismo heróico. São, na verdade, expressão de um amor maduro, desinteressado, capaz de suportar todo e qualquer sacrifício. Não devemos, portanto, nos comportar como pessoas castradas na sua humanidade. Os votos, quando vividos na sua radicalidade, deixam transparecer aquela humanidade mais genuína que, como germe, está escondida no âmago de cada um. Eles testemunham uma sadia experiência de êxodo: nos libertam da idolatria do poder, do ter e do prazer e nos propiciam o encontro com o outro na sua irredutível diferença.
3. A urgência e a imprescindibilidade de se recuperar a ousadiaOlhando para a realidade das nossas províncias, surge quase que espontaneamente a pergunta: “Será mesmo necessário agir sozinho para poder ser criativo?” O que fazer para não nos deixarmos sucumbir frente à tentação sedutora da estagnação ou da estéril repetição do passado? Somos suficientemente contemplativos a ponto de discernir em cada acontecimento uma senda que conduz a Deus e de acolher com generosidade os inúmeros apelos que Ele nos lança em meio a tantas situações que constituem o nosso cotidiano mais ordinário? O que fizemos daquela ousadia com a qual abraçamos a vida franciscana? Por que nossas fraternidades se deixam contaminar pelo vírus do uniformismo massificante e asfixiante?
Entre tantos desafios que nos são colocados, talvez o maior de todos seja justamente o de restituir credibilidade ao nosso projeto de vida. E isto requer ousadia. Não podemos nos omitir nem mesmo postergar esta incumbência às gerações futuras. É fundamental que assumamos uma atitude de diálogo com nossos reais interlocutores. Que estejamos dispostos a ouvi-los com respeito e caridade, conscientes de que temos tanto a aprender deles. Que saibamos discernir, a exemplo dos nossos pais na fé, “as sementes do Verbo”, a secreta presença de Deus no mundo moderno e nas demais religiões e culturas. Que estejamos abertos a promover, juntamente com todos os seres humanos de boa vontade, relações mais justas e fraternas, no respeito pela liberdade e dignidade de cada pessoa.
Esta atitude dialógica assume feições muito concretas no trato com os jovens que pedem para serem admitidos à nossa experiência de vida. Não há dúvida de que cabe a nós propor-lhes a riqueza da nossa tradição cristã e franciscana. É preciso, todavia, respeitar e valorizar a “recepção criativa” testemunhada por eles ao encarnar o carisma franciscano nas concretas situações em que vivem e segundo desafios e indagações inusitados. Não tem sido esta a dinâmica do processo histórico de constituição da nossa mais genuína tradição franciscana?
4. Deixar-se inspirar por Aquele que faz novas todas as coisasEstamos imersos num mundo em constante transformação. Precisamos vencer o medo e a inércia que paralisa nosso caminhar. Para estarmos à altura dos inúmeros desafios do tempo presente é preciso, em primeiro lugar, alargar nossos horizontes para além das preocupações com a própria sobrevivência e com a eficiência antropocêntrica. Necessário se faz, portanto, rever nossos critérios e projetos. Somos convocados a fazer memória do nosso passado, deixando Cristo irromper em nossa vida através do Seu Espírito Vivificante. Francisco dizia que o Ministro Geral da Ordem era o Espírito Santo. A razão de tal escolha não residiria propriamente no fato de ser Ele aquele que “faz novas todas as coisas”?
Texto da “Revista Franciscana”, 2006, da FFB.
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Especial São Francisco de Assis.
São Francisco de Assis, uma alternativa humanística e cristã
Por Leonardo Boff
O contato com Francisco produz uma crise muito profunda e salutar. Sua figura envolve os leitores dentro de um círculo luminoso no qual descobrimos nossa mediocridade e lentidão face aos apelos que vêm da verdade mais profunda do coração e do evangelho. Ele conduziu sua vida sempre a partir da utopia e a manteve viva como uma brasa contra todas as cinzas do dia-a-dia e a razoabilidade da história. Incorporou o arquétipo da integração dos elos mais distantes, historizou o mito da reconciliação do céu e da terra, dos abismos e das montanhas. Daí o fascínio que se irradia dele e a catársis humana e religiosa que ele opera.
Diante de Francisco descobrimo-nos imperfeitos e velhos. Ele aparece como o novo e o futuro por todos buscado, embora tenha vivido há 800 anos. Mas este sentimento é sem amargura, pois sua mensagem encerra tanta doçura que o medíocre se sente convidado a ser bom, o bom a ser perfeito e o perfeito a ser santo. Ninguém fica imune à sua convocação vigorosa e ao mesmo tempo terna.
Francisco em sua gesta nos coloca imediatamente diante do evangelho e do sermão da montanha. Tomou absolutamente a sério a mensagem de Jesus como se lhe fora dirigida pessoalmente a ele. Assumiu tudo ad litteram et sine glosa e procurou viver com coração generoso e alegre. Não queria saber de interpretações. Bem sabia que quase sempre as interpretações emasculam a força do evangelho. E o evangelho lhe era simplesmente a formula vitae.
Se procurou orientar-se sempre a partir do evangelho e não da sensatez da razoabilidade, não era, entretanto, um fanático. Por isso se abraça a vida evangélica mostra também o sentido de uma regra; se vive do carisma compreende igualmente a instituição; se se entrega às duras penitências, sabe também alegrar-se e ser com todos cortês; se assume uma pobreza radical, postula outrossim uma fraternidade extremamente sensível à satisfação das necessidades uns dos outros; se é rigoroso para consigo mesmo, mostra-se ao mesmo tempo compassivo para com o confrade que grita na noite: morior fame!
Sempre segurou firme os dois pólos, mas começando todas as vezes pelo pólo do evangelho. Quebrou sem receios as barreiras instituídas para assegurar a vida livre do evangelho. Por isso é que nele coexistem admiravelmente ternura e vigor, que resultam da tensão sustentada permanentemente entre o evangelho e a regra, entre o sermão da montanha e a ordem. Se houvesse apenas vigor, emergiria então a figura de um santo duro, inflexível e sem coração. Se houvesse somente ternura, projetaria a imagem de um santo sentimental, adulçorado e sem perfil. Ternura e vigor compaginando-se na mesma pessoa criam o sol de Assis, como diria Dante, sol que gera ao mesmo tempo luz e calor, sol cantado pelo Poverello como “belo e radiante e com grande esplendor”, mas também criam a lua com sua luminosidade amena e amaciadora de todas as pontas que ferem e fazem sangrar. Francisco aflora assim como um homem solar e lunar, integração feliz dos opostos.
Francisco faz ainda um apelo de inaudita importância para a nossa situação atual. Vivemos num mundo de objetos; tudo é feito objeto de troca, de interesse, de negociação, de falsificação, de mascaramento e de fetichização. As coisas mais e mais perderam seu uso humano direto e simples como satisfação de necessidades objetivas que devem ser atendidas coletivamente. Com sua pobreza radical Francisco postula uma radical expropriação, especialmente do dinheiro cuja natureza se resume em ser puro objeto de troca sem nenhum uso a não ser a troca. Inaugura, no exato momento de formação do espírito capitalista, assentado na troca, uma existência humana que se baseia unicamente no valor do uso: duas túnicas, um capuz, calçados para os que precisam, os instrumentos de oração e de trabalho. A ausência de qualquer excedente visa, limpar o caminho de todos os obstáculos para o encontro dos homens entre si em sua transparência de irmãos, servindo-se mutuamente como convém entre membros de uma mesma família. Este projeto pode parecer utópico e, de fato, o é. Mas a utopia pertence à realidade porque esta não se resume naquilo que é e pode ser medido, mas muito mais naquilo que nela é possível e pode ser no futuro. A utopia expressa as possibilidades todas da realidade concretizadas. Porque ainda não foram concretizadas, ela convoca para novas realizações, a superar o já feito e ensaiado na direção de formas mais plenas e humanizadoras.
A utopia de Francisco de uma fraternidade sem plus-valia e, por isso, não exploradora, anima as buscas modernas por caminhos de satisfação das necessidades coletivas com o menor custo social e pessoal possível.
A seriedade evangélica de Francisco vem cercada de leveza e de encanto porque é imbuída profundamente de alegria, finura, cortesia e humor. Há nele uma inarredável confiança no homem e na bondade misericordiosa do Pai. Em conseqüência exorcizou todos os medos e ameaças. Sua fé não o alienou do mundo nem fez dele um mero vale de lágrimas. Pelo contrário, transformou-o pela ternura e pelo cuidado em pátria e lar do encontro fraterno, onde os homens não aparecem “como filhos da necessidade, mas como filhos da alegria” (G. Bachelard). Podemos dançar no mundo porque ele constitui o teatro da glória de Deus e de seus filhos.
Francisco de Assis mais que um ideal é um espírito e um modo de ser. E o espírito e o modo de ser só se mostram numa prática, não numa fórmula, idéia ou ideal. Tudo em Francisco convida para a prática: exire de saeculo, sair do sistema imperante, numa ação alternativa que concretize mais devoção para com os outros, mais ternura para com os pobres e mais respeito para com a natureza.
Texto do livro de Leonardo Boff, “São Francisco de Assis, Ternura e Vigor”, Editora Vozes, 1981.
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