Uma relíquia viva descia da montanha.
Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Desde a infância muitos de nós fomos aprendendo a gostar desse Francisco. Francisco das coisas pequenas, simples, irmão do sol, das estrelas, da água, do leproso e de frei Leão, Francisco, cheio de carinho para com o Menino das Palhas e o Jesus bondoso e pobre que morre na cruz, esse Jesus que é o amor que precisa ser amado.
São Boaventura escreve: “Francisco, servo verdadeiramente fiel e ministro de Cristo, dois anos antes de devolver o espírito ao céu, como tivesse começado num lugar alto, à parte que se chama Monte Alverne e, um jejum quaresmal em honra do Arcanjo São Miguel, inundado mais profusamente pela suavidade da contemplação do alto e abrasado pela chama mais ardente dos desejos celestes, começou a sentir mais copiosamente os dons da ação do alto. Então, enquanto se elevava a Deus pelos seráficos ardores e o afeto se transformava em compassiva ternura para com aquele que por caridade excessiva quis ser crucificado, numa manhã, pela festa da Exaltação da Santa Cruz, rezando na parte lateral do monte, ele viu como que a figura de um Serafim que tinha seis asas tão fúlgidas, tão inflamadas a descer da sublimidade dos céus, o qual chegando com um vôo rapidíssimo num lugar próximo ao homem de Deus, apareceu não somente alado, mas também crucificado, tendo as mãos e os pés estendidos, e pregados à cruz e as asas de modo tão maravilhoso dispostas de uma e outra parte que elevava duas sobre a cabeça, estendia duas para voar e com as outras duas velava o corpo, envolvendo-o todo (…). Depois de um certo colóquio secreto e familiar, ao desaparecer, a visão inflamou-lhe interiormente o espírito com ardor seráfico e marcou-lhe exteriormente a carne com a imagem do Crucificado, como se ao poder prévio de derreter o fogo seguisse uma impressão do selo” ( Legenda Menor – Os sagrados estigmas, n.1).
Dois anos antes de morrer, Francisco vai ao Monte Alverne. O santo vinha do Oriente, cansado, doente, vendo que, talvez seus irmãos, numerosos, estavam perdendo o ardor dos começos. Francisco, sem amargura, sente vontade de tomar certa distância dos fatos e dos acontecimentos. O Santo se dava conta que estava no final de sua caminhada. Tinha dores em todo o corpo. Estava tomado por estas febres loucas e enxergava mal. Não podia mais suportar a luminosidade do Irmão Sol. Era o tempo da festa da Exaltação da Santa Cruz. Quer fazer a quaresma de São Miguel no silêncio, na meditação, ao lado de seu Frei Leão. Quer estar mais perto de seu Senhor.
Toda sua vida fora busca de Cristo. Um dia ele teria formulado uma oração no seguinte teor: “Senhor, gostaria de ser digno de receber duas graças de vossa parte: experimentar em meu coração o amor que tiveste para com os homens e sentir a dor de tua acerbíssima paixão”. Esta súplica foi sento atendida pelo Senhor ao longo do tempo da vida de seu servo Francisco. Durante anos e anos, depois de sua conversão, ele sempre buscar entrar na intimidade do Senhor Jesus na grutas, nos caminhos, contemplando o rosto dos leprosos. Aos poucos esse Francesco foi “tendo os mesmos sentimentos de Cristo Jesus”. Foi se abrasando no amor de Cristo. Cristo é o Vivo que queima e arde. Estamos diante da mística. Do amado que seduz a amada. Francisco e Cristo se tornam uma unidade. Há uma identificação mística. Francisco continua Francisco e Cristo continua Cristo. Nasce no coração do assisiense o desejo de viver também as dores e os sofrimentos de Cristo.
Eloi Leclerc tenta descrever esse momento: “… a alma de Francisco se rasgava e sentimentos contraditórios se debatiam dentro dele. A inefável beleza do serafim e seu olhar benevolente e cheio de graça o fascinavam e o enchiam de alegria. Ao mesmo tempo, no entanto, o sofrimento do crucificado o aterrorizava. Perguntava-se, então: Como um espírito glorioso, imortal e tão belo podia sofrer a mais cruel agonia? Não sabia o que pensar. A agonia estava junto com o êxtase. A Paixão e a Glória, associadas de maneira estranha, pareciam cair sobre ele como um pássaro de rapina” ( in Francisco de Assis. O retorno ao Evangelho, p. 108).
Francisco não é mais dono de si. Aos poucos, ao longo dos anos da vida, ele foi se despedindo de si, se despojando, esvaziando-se de si mesmo e no espaço do vazio veio o êxtase. O amado ganha a força do amor do Amante. Quem puder compreender, que compreenda. Talvez esse Francisco pudesse dizer com Paulo: Não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim!
Paul Claudel, tentando penetrar no Francisco que desce do monte, escreve: “Francisco tinha dado sua alma de tal forma que nem mesmo seu corpo conserva mais. Quando se lhe pede uma explicação, nada tem a nos dizer. Ele é propriedade de alguém que não explica, mas plenifica. É todo inteiro doação, como um esposo ou um recém-nascido. Caminha ao olhar de todos os homens como alguém que está inebriado, como um esposo que geme e que sorri, cambaleante e ferido de uma glória da qual ele é o inexplicável consorte. Quem desce trôpego do Alverne e mostra chaga e cicatriz secretamente a Clara é Jesus Cristo com Francisco, fazendo uma única realidade viva, sofredora e redentora” (cf. E.Leclerc, op. cit. p. 109).
A partir desse momento Francisco tem o selo do Amado gravado em seu coração e em sua carne. Agora era uma relíquia viva descendo a montanha.
Nós, filhos de Francisco das chagas e das transfigurações, nos recolhemos no silêncio e tentamos pedir a Deus que pela intercessão do Francisco das Chagas nos leva ao Cristo iluminado, transfigurado e ressuscitado.
Francisco da minha vida
Francisco,
pequeno e grande Francisco,
tu continuas vivo entre nós.
Tu és o meu irmão, meu irmão mais velho,
meu irmão modelo,meu irmão da roupa marrom,
das chagas douradas na mão
nos pés e no coração,
apaixonado pelo Senhor Jesus.
Gosto de te contemplar
erguendo os braços ébrio de amor,
cantando os louvores do Altíssimo, Onipotente
e grande Senhor!
Acompanho-te pelas ruas de Assis
com o irmão sol que te aquece o rosto,
pegando nas mãos a irmãzinha água
tão casta e tão transparente,
pisando na terra mãe
que produz variedade de flores e frutos.
Gosto de ver teu olhar acompanhar os irmãos,
os irmãos leprosos que chamavas de irmãos cristãos,
olhando os irmãos que te seguem,
todos eles que são filhos do Altíssimo.
Espreito-te ao jogares tuas roupas
nas mãos de teu pai e a proclamares solenemente
que o teu Pai está nos céus.
Aplaudo-te quando dizes
que os teus seguidores serão menores
e nunca hão de se alegrar, a não ser com
o último de todos os lugares.
Vejo-te percorrendo as ruas e ruelas
da meiga Assis dizendo a todos que o Amor
não é amado.
Aprecio a tua coragem de partir sem segurança,
sem sacola e sem dinheiro
para dizer a todos os homens
que chegou o Reino novo
do Filho de Virgem Maria.
Recolho-me num cantinho
e vejo que sais da contemplação
com as chagas de Cristo Jesus
nas mãos, nos pés e no coração.
Morro e renasço contigo
quando cantas o salmo que fala que é preciso
que Deus nos tire desta prisão.
Francisco de ontem e de sempre,
Francisco da roupa marrom,
Francisco da minha vida!
Frei João Mannes, OFM
No dia 17 de setembro celebra-se a festa da impressão das chagas de São Francisco de Assis. Os estigmas que Francisco recebeu em 1224, no Monte Alverne, após uma visão do Cristo crucificado em forma de Serafim alado, são sinais visíveis de sua semelhança à humanidade de Cristo, nos seus três modos: na vida, na paixão e na ressurreição.
Francisco encontrou-se pela primeira vez com o Crucificado na pequena Igreja de São Damião. Num certo dia, conduzido pelo Espírito, entrou nessa Igreja e prostrou-se diante da imagem do Cristo crucificado que, movendo de forma inaudita os seus lábios, disse: “Francisco, vai e restaura minha casa que, como vês, está toda destruída” (2Cel 10,5). E, conta-nos Celano, que Francisco sentiu desde então uma inefável mudança em si mesmo, pois são impressos mais profundamente no seu coração, embora ainda não na carne, os estigmas da venerável paixão.
No entanto, foi ao ouvir o Evangelho acerca da missão dos apóstolos (Mt 10, 7-13), que Francisco compreendeu o real significado da voz do Crucificado, e imediatamente exclamou: “É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo fazer do íntimo do coração” (1Cel 8,22). Assim, sob o toque ou o apelo de uma afeição, começou devotadamente a colocar em prática o que ouvira, isto é, distribuiu aos pobres todos os seus bens materiais, bem como renegou-se a si mesmo para que, exterior e interiormente livre, pudesse ir pelo mundo e anunciar aos homens a paz, a penitência e, enfim, o amor não amado de Deus.
O amor que é Deus realizou-se na sua profundeza, largura e altitude na pessoa de Jesus Cristo. A encarnação, o estábulo, o lava-pés e a Eucaristia são expressões concretas do modo de amar como só o Deus de Jesus Cristo pode e sabe amar. Porém, foi especialmente ao entregar incondicional e gratuitamente a sua vida na Cruz, que o Filho de Deus revelou à humanidade que Deus é essencialmente caridade perfeita.
Francisco, por inspiração divina, abraçou pobre e humildemente a cruz de Jesus e deixou-se impregnar, arrebatar e transformar totalmente pelo espírito de abnegação divina. Isso quer dizer que a imitação de Cristo, por parte de Francisco, não é mera repetição mecânica dos gestos exteriores de Jesus, mas é manifestação de sua profunda sintonia com a experiência originária de Jesus Cristo: o Reino de Deus. Somente quem possui o Espírito do Senhor pode observar “com simplicidade e pureza” a Regra e o Testamento de São Francisco e realizar em si mesmo as santas operações do Senhor.
Na Terceira consideração dos sacrossantos estigmas considera-se que, aproximando-se a festa da Santa Cruz no mês de setembro, o pai Francisco, na hora do alvorecer, se pôs em oração, diante da saída de sua cela, e entre lágrimas orava desta forma: “Ó Senhor meu Jesus Cristo, duas graças te peço que me faças antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquelas dores que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua acerbíssima paixão; a segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para voluntariamente suportar uma tal paixão por nós pecadores”(I Fioretti)).
E, relata Boaventura que, enquanto Francisco rezava, “viu um Serafim que tinha seis asas (cf. Is 6,2) tão inflamadas quão esplêndidas a descer da sublimidade dos céus. E […] apareceu entre as asas a imagem de um homem crucificado que tinha as mãos em forma de cruz e os pés estendidos e pregados na cruz. […] Imediatamente começaram a aparecer nas mãos e nos pés dele os sinais dos cravos” (LM 13,3).
Assim, Francisco transformara-se todo na semelhança de Cristo crucificado (cf LM 13,5). Pois, de fato, trazia Jesus no coração, na boca, nos ouvidos, nos olhos, nas mãos, nos sentimentos e em todos os demais membros (cf. I Cel 9,115), e conseqüentemente podia exclamar com o apóstolo Paulo: “Eu vivo, mas já não sou eu, é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).
O Pobre de Assis, no seguimento de Jesus Cristo, perdeu a sua própria vida, mas recuperou-a inteiramente em Deus, de acordo com a palavra do Evangelho: “Quem perder a sua vida por causa de mim vai encontrá-la” (Mt 12,25). Todavia, Francisco não somente reencontrou a si mesmo em Deus, como filho de Deus, mas a todos os seres do universo. O Cânticodas Criaturas, que compôs pouco antes de sua morte corporal, é expressão jubilosa dessa intensa experiência eco-espiritual: “Louvado sejas meu Senhor, com todas as tuas criaturas”.
O pai Francisco tornou-se assim um mestre na sequella Iesu. De imediato despertou o fascínio de muitas pessoas e atraiu muitos discípulos e discípulas, entre as quais, Santa Clara. Clara e suas Irmãs, a exemplo de Francisco, também querem chegar ao cimo da montanha da perfeição do amor. A propósito subscrevemos parte do VII capítulo (Do perfeito amor de Deus) de um interessantíssimo opúsculo que Boaventura escreveu à abadessa das Irmãs, do convento de Assis, sobre A perfeição da vida:
“Não é possível excogitar um meio mais apto e mais fácil para mortificar os vícios, para progredir na graça, para atingir o auge de todas as virtudes do que a caridade. Por isso diz Próspero, no seu livro Sobre a vida Contemplativa: “A caridade é a vida das virtudes e a morte dos vícios”. Como a cera se derrete diante do fogo, assim os vícios perecem diante da caridade. Porque a caridade possui tanto poder que só ela fecha o inferno, só ela abre o céu, só ela dá a esperança da salvação, só ela nos torna dignos do amor de Deus.
Tal poder possui a caridade que entre todas as virtudes só ela é chamada propriamente virtude. Quem a possui é rico, tem abundância, é feliz. […] E diz Santo Agostinho: “Se a virtude conduz a uma vida bem-aventurada, eu quisera afirmar em absoluto que nada é propriamente virtude senão o sumo amor de Deus”. Sendo, por conseguinte, o amor de Deus uma virtude tão elevada, cumpre insistir em alcançá-lo acima de todas as demais virtudes; porém, não um amor qualquer, mas só aquele com que Deus é amado sobre todas as coisas e o próximo por amor de Deus.
O modo de amar a teu Criador ensina-o o teu esposo no evangelho: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma e de todo o teu espírito. Repara bem, caríssima serva de Jesus Cristo, que amor o teu dileto esposo exige de ti. Quer o teu amado que ao seu amor dediques todo o teu coração, toda a tua alma, todo o teu espírito, de sorte que absolutamente ninguém em todo o teu coração, em toda a tua alma, em todo o teu espírito, tenha parte com ele. Que, pois, fará para amares o Senhor teu Deus realmente de todo o coração? Que quer dizer: de todo o coração? Vê como São João Crisóstomo ensina: “Amar a Deus de todo o coração significa não estar o teu coração inclinado a nenhuma outra coisa mais do que ao amor de Deus; não te comprazeres nas coisas desse mundo mais do que em Deus, nem nas honras, nem mesmo nos pais.
Se, todavia, o teu coração se ocupar em alguma destas coisas, já não o amas de todo o coração”. Peço-te, serva de Cristo, não te iludas. Fica sabendo que, se amas alguma coisa, e não a amas em Deus e por Deus, já não o amas de todo o coração. Por isso diz Santo Agostinho: “Senhor, menos te ama quem ama alguma coisa contigo”. Se amas alguma coisa que não te faz progredir no amor de Deus, não o amas de todo coração. E se, por amor de alguma coisa, negligencias aquilo que deves a Cristo, já não o amas de todo o coração. Ama, pois, o Senhor teu Deus de todo o coração.
Não somente de todo o coração, mas também de toda a alma devemos amar a Jesus Cristo, nosso Deus e Senhor. Que significa: de toda a alma? Vai dizê-lo Santo Agostinho: “Amar a Deus de toda a alma é amá-lo com toda a vontade, sem restrições”. Amarás, certamente, de toda a alma, se sem contradição e de boa vontade fizeres não o que tu queres, nem o que aconselha o mundo, nem o que te inspira a carne, mas aquilo que reconheceres como sendo a vontade de Deus. Amarás, de fato, a Deus de toda a tua alma quando por amor de Jesus Cristo entregares de boa vontade tua vida à morte, sendo necessário. Se nisto, porém, faltares, já não amas de toda a alma. Ama, pois, ao Senhor teu Deus de toda a tua alma, isto é, faze a tua vontade sempre em conformidade com a vontade divina.
Entretanto, não só de todo o coração, não só de toda a alma, deves amar o teu esposo, Jesus Cristo. Ama-o também de todo o teu espírito. Que quer dizer: de todo o teu espírito? Di-lo novamente Santo Agostinho: “Amar a Deus de todo o espírito, é amá-lo com toda a memória, sem esquecimento”. (in: Obras Escolhidas. Porto Alegre: EST, 1983, p. 433-435).
Mês da Bíblia - A mensagem central da Bíblia
Qual é, em poucas palavras, a mensagem central da Bíblia? A resposta não é fácil, pois depende da vivência. Se você gosta de uma pessoa e alguém lhe pergunta: “Qual é, em poucas palavras, a mensagem desta pessoa para você?”, aí não é fácil responder. O resumo da pessoa amada é o seu nome! Basta você ouvir, lembrar ou pronunciar o nome, e este lhe traz à memória tudo o que a pessoa amada significa para você. Não é assim?
Pois bem, o resumo da Bíblia, a sua mensagem central, é o Nome de Deus! O Nome de Deus é Javé, cujo sentido Ele mesmo revelou e explicou ao povo (cf. Ex 3,14). Javé significa Emanuel, isto é, Deus conosco. Deus presente no meio do seu povo para libertá-lo.
Deus quer ser Javé para nós, quer ser presença libertadora no meio de nós! E Ele deu provas bem concretas de que esta é a sua vontade. A primeira prova foi a libertação do Egito.
A última prova está sendo, até hoje, a ressurreição de Jesus, chamado Emanuel (cf. Mt 1,23). Pela ressurreição de Jesus, Deus venceu as forças da morte e abriu para nós o caminho da vida. Por tudo isso é difícil resumir em poucas palavras aquilo que o Nome de Deus evocava na mente, no coração e na memória do povo por Ele libertado.
Só mesmo o povo que vive e celebra a presença libertadora de Deus no seu meio, pode avaliá-lo. Na nossa Bíblia, o Nome Javé foi traduzido por Senhor. É a palavra que mais ocorre na Bíblia. Milhares de vezes! Pois o próprio Deus falou: “Este é o meu Nome para sempre! Sob este Nome quero ser invocado, de geração em geração!” (Ex 3,15).
Faz um bem tão grande você ouvir, lembrar ou pronunciar o nome da pessoa amada. Aquilo ajuda tanto na vida! Dá força e coragem, consola e orienta, corrige e confirma. Um Nome assim não pode ser usado em vão! Seria uma blasfêmia usar o Nome de Deus para justificar a opressão do povo, pois Javé significa Deus libertador!
O Nome Javé é o centro de tudo. Tantas vezes Deus o afirma: “Eu quero ser Javé para vocês, e vocês devem ser o meu povo!” Ser o povo de Javé significa: ser um povo onde não há opressão como no Egito; onde o irmão não explora o irmão; onde reinam a justiça, o direito, a verdade e a lei dos dez mandamentos; onde o amor a Deus é igual ao amor ao próximo.
Esta é a mensagem central da Bíblia; é o apelo que o Nome de Deus faz a todos aqueles que querem pertencer ao seu povo.
Texto da “Bíblia Sagrada”, da Editora Vozes
São Francisco, o “repetitor Christi”
Por Leonardo Boff
O fascínio e o mistério da figura de São Francisco reside em sua semelhança com o mistério e o fascínio de Jesus Cristo. Há tanto num quanto noutro algo de profundamente simples, transparente, nascivo, originário e convincente. Ambos constituem uma grande interrogação para todo homem verdadeiramente religioso. Ninguém pode subtrair-se ao Numinoso e Divino que se desprende de suas vidas.
Evidentemente, para um cristão por maiores que sejam as semelhanças entre São Francisco e Jesus Cristo nunca chegarão a esconder as infinitas diferenças que vigoram entre eles. Um é o Filho Unigênito e Eterno do Pai e o outro é, na expressão de São Boaventura, um humilde repetidor de Jesus. ‘
Um constitui a realidade-fonte, outro a realidade-reflexo. São Francisco jamais quis seguir um caminho pessoal. Nunca buscou uma experiência nova. Propôs-se com todo empenho a imitar e a “seguir a doutrina e as pegadas de Cristo” ‘, o “totus Christus crucifixus et configuratus”.’
Nele há “uma deliberada renúncia a toda originalidade”. * Jamais antes e depois de São Francisco assistimos no Ocidente a um tão apaixonado amor a Cristo a ponto de tentar imitá-lo nos mínimos pormenores, na letra e no espírito. Queria venerar e reproduzir todos os aspectos da vida e do mistério de Cristo, não apenas os humanos, como se sói repetir.’
Jamais alguém dentro do Cristianismo logrou assimilar Jesus Cristo em sua vida como São Francisco a ponto de trazer no corpo os sinais da Paixão e na alma as arras do Reino de Deus. Com acerto resume São Boaventura o sentido do impulso de São Francisco: “saciava toda a alma no seu Cristo e se entregava todo, de corpo e de alma, somente a ele”.
Extraído do livro “Nosso Irmão Francisco de Assis”, da Editora Vozes
Frei Sandro Roberto da Costa*
Na data comemorativa da Independência do Brasil, é oportuno resgatar, mesmo que rapidamente, a memória de um frade franciscano que teve um papel de destaque em todo o processo que resultou na separação do Brasil de Portugal. Falamos aqui de frei Francisco de Santa Tereza de Jesus Sampaio, frade da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, mais conhecido como frei Sampaio.[1]
Filho de pai português e mãe brasileira, Francisco de Sampaio nasceu no Rio de Janeiro em 1778. Em 1793, aos 15 anos, recebeu o hábito franciscano, no convento Santo Antônio. Ordenado sacerdote em 1802, desde 1800 exercia o ofício de Pregador, sinal de uma precoce capacidade oratória, uma vez que os Pregadores eram escolhidos apenas entre os sacerdotes, e apenas depois de alguns anos de ordenados. Foi professor de Eloquência Sagrada e Teologia, nos Conventos de São Paulo e do Rio de Janeiro, entre 1802 e 1808. Com a chegada da família imperial ao Rio de Janeiro, em 1808, o jovem frade iniciou uma carreira que se revelaria brilhante: Pregador da Capela Imperial e Examinador da Mesa de Consciência e Ordens a partir de 1808; Teólogo da Nunciatura em 1812; Capelão-Mor de Sua Alteza Real e Censor Episcopal em 1813; Deputado da Bula de Cruzada em 1824. Também assumiu serviços importantes na administração interna da Província.

Sampaio não frequentou nenhuma universidade ou curso de especialização, além dos cursos mantidos pela Província nos Conventos de São Paulo e Rio de Janeiro. Seus anos de magistério o obrigaram a profundar seus conhecimentos, aliados à sua natural capacidade intelectual. Além do bom nível dos estudos mantidos pela Província, a biblioteca do Convento Santo Antônio era então “uma das mais ricas da América“.[2]
O pensamento de frei Sampaio encontra-se expresso, sobretudo, nos seus sermões e artigos de jornais. O púlpito era, tanto quanto a imprensa, uma tribuna de debate político na época. Frei Sampaio manuseou com maestria os dois instrumentos. Orador sacro de renome, Sampaio exerceu destacada atividade política, principalmente a partir de 1820, no fervilhar das discussões acerca da independência do Brasil. Residindo no Convento de Santo Antônio, no centro dos acontecimentos políticos da colônia, o frade criou uma rede de relações, utilizando-se de suas influências em defesa da causa que abraçara. Em defesa dos interesses do país, frei Sampaio também militou na Maçonaria, como a maior parte do clero “ilustrado” da época.[3] Sua cela tornou-se lugar seguro para as reuniões dos patriotas, onde foram tomadas decisões importantes para a emancipação política. Também o futuro imperador D. Pedro tomava parte nessas reuniões.[4]
Na cela do culto frade foi redigido aquele que passaria à história como um dos mais importantes documentos no processo de independência. Instado a retornar a Portugal, o Príncipe Regente D. Pedro hesitava em tomar uma decisão. Os articuladores da independência resolveram redigir um manifesto, recolhendo o maior número possível de assinaturas, e o apresentaram ao príncipe, no dia 09 de janeiro de 1822, como apoio popular à sua permanência. Este “Manifesto do Povo do Rio de Janeiro”, também conhecido como Manifesto do Fico, foi redigido por frei Sampaio, como foi provado historicamente, e desembocou naquele que passou à história como “O Dia do Fico”[5]. A este libelo em defesa da soberania da nação frente a Portugal, somam-se os vários sermões e pregações, proferidos em várias ocasiões solenes, em celebrações, antes e depois da independência, na presença de autoridades, da corte, do próprio príncipe e de milhares de pessoas. O excepcional orador franciscano empregava seus dotes para defender a causa nacional, como neste breve trecho pronunciado antes da independência:
“Ó Deus, tu conheces que o meu interesse sobre a glória do Brasil não nasce de pretensões nem de vistas particulares, e por isso é merecedor de tua aprovação. Dirige portanto as minhas ideias; que elas, saindo dos pórticos do templo, se espalhem por todas as províncias deste continente, e que vão ao longe mostrar os sentimentos do Brasil na época atual, em que se fazem esforços para que ele retroceda da mocidade ao estado de infância: vejam os legisladores o que somos, para que mudando de planos concordem no que de justiça e de necessidade devemos ser. Senão… Óh Deus!”[6]
Frei Sampaio exerceu ainda profícua atividade de jornalista, sempre em defesa da causa nacional. Consolidada a independência, o frade continuou militando ao lado do Imperador, defendendo o sistema de Monarquia Constitucional, o que lhe granjeou a dura oposição dos Republicanos. Escrevendo regularmente no jornal “Revérbero Constitucional Fluminense“, foi convidado pelo imperador a dirigir o “Regulador Luso-Brasílico“, depois “Regulador Brasílico“. Em 1823, tendo fundado o “Diário do Governo“, órgão oficial do Império, D. Pedro I chamou Sampaio para ser o diretor. Neste órgão, na polêmica que antecedeu a elaboração da primeira Constituição do país, frei Sampaio travou duras batalhas jornalísticas, não sendo poupado dos ataques e críticas dos opositores e adversários políticos. É de sua lavra o “Projeto de uma Constituição Monárquica”, de 1823, que teria grande influência na redação da Constituição de 1824.
Durante sua viagem a Santos e São Paulo, em 1822, D. Pedro conheceu Domitila de Castro, a Marquesa de Santos, que foi tendo cada vez mais influência sobre o Príncipe, inclusive sobre assuntos de administração política. José Bonifácio, seu Conselheiro, acabou degredado em 1823. Frei Sampaio, amigo pessoal da Princesa Leopoldina, esposa do Imperador, também foi perdendo prestígio. O Imperador passou a dar cada vez mais espaço ao Padre Januário da Cunha Barbosa, um dos mais ferrenhos adversários políticos de frei Sampaio [7]. O ano de 1825 marca a retirada de frei Sampaio das atividades públicas. No dia 11 de dezembro de 1827 ele proferia seu último sermão público, justamente nas exéquias daquela que havia sido sua companheira nas lutas pela independência: a Princesa Leopoldina. No dia 13 de setembro de 1830, era frei Sampaio que falecia no Convento de Santo Antônio. Partia, certamente levando na alma a certeza de que lutara bravas e belas batalhas, e que deixaria marcas profundas na história do País que ajudara a criar.
[1] Sobre frei Sampaio existe ingente bibliografia. Dada a importância de sua participação no processo de independência do Brasil, praticamente todos os historiadores o citam. Temos, além disso, seus Sermões e artigos de jornais da época. Mas falta uma obra de peso, que aprofunde as raízes e inspirações de seus pensamentos e sermões, que faça jus à importância desse personagem. Limitamo-nos a citar aqui alguns estudos: G. A. Titon, Um Prócer da Independência: Frei Sampaio, Revista Eclesiástica Brasileira 32 (127) setembro 1972, 590-611; J. H. Rodrigues, O Clero e a Independência, in Revista Eclesiástica Brasileira, 32 (126) junho 1972, 315-316; B. Rower, O Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro, Vozes, Petrópolis 1937; I. Silveira, Partidarismo Nacionalista nos Claustros Franciscanos, Vida Franciscana 32 (1964) 23-45.
[2] G. A. Titon, Um Prócer da Independência: Frei Sampaio, o.c., 592.
[3] Na relação clero e maçonaria no Brasil-colônia os historiadores são concordes em acentuar o aspecto mais político que anticlerical da associação, e por isso a grande participação do clero. Afirma Thales de Azevedo: “Seria ingênuo e injusto reduzir a atuação da maçonaria durante a Colônia e o Império a uma oposição ao catolicismo. Ao mesmo tempo que operava em função de planos de âmbito internacional, de que o trabalho no Brasil era mero acessório, as lojas teriam tido uma função coordenadora, da qual clérigos e outros católicos se teriam utilizado para maior eficácia de sua atividade política, explicando-se dessa maneira a aparente incoerência ou infidelidade daqueles à doutrina da Igreja” Cfr. Thales de Azevedo, Igreja e Estado em Tensão e Crise, Ática, SP, 1978, 131.
[4] “Também o príncipe Dom Pedro, depois de ganho para a causa do Brasil, passou a frequentar a cela de frei Sampaio, chegando os dois a tornar-se amigos íntimos e colaboradores”. G. Titon, Um Prócer da Independência, o.c., 598.
[5] No Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, no Rio de Janeiro, encontra-se a “Sala do Fico”, antiga cela de frei Sampaio, onde conserva-se também a mesa onde foi lavrado e assinado o documento.
[6] Sermão em ação de graças pela prosperidade do Brasil, pregado na Capela Real a 7 de março de 1822. Cfr. J. H. Rodrigues, O Clero e a Independência, o. c., 315.
[7] D. Pedro teria prometido a frei Sampaio o bispado de São Paulo, promessa que não cumpriu, por oposição da Marquesa de Santos.
* Frei Sandro Roberto da Costa possui doutorado em História da Igreja pela Pontifícia Universitas Gregoriana – Roma, Itália (2000). Foi diretor do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis por dois mandatos (2007-2009/2010-2012). Atualmente leciona as disciplinas História da Igreja Antiga e Medieval. É pároco da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, na Rocinha, Rio de Janeiro.
Fonte: Instituto Teológico Franciscano (ITF)
O profeta e o seu Evangelho
Por N.G. Van Doornik
Francisco teve com o Evangelho uma intimidade difícil de se compreender. Amava o Evangelho, mas ele não teria sido Francisco, se seu amor não tivesse desejado possuir o próprio livro.
A magnífica Bíblia da Idade Média, com os maravilhosos textos desenhados em elegantes letras, tinha para ele algo de sagrado. Já foi, de per si, um rito religioso, quando ele, com seus dois companheiros, entrou na pequena igreja de São Nicolau e lá abriu o livro sobre o altar. Manifesta-se aqui uma forma de respeito que, em nosso tempo, impregnado de obras tipográficas, se tomou impossível: o respeito pela palavra manuscrita.
Com isso, adquirem um sentido mais profundo certas ações aparentemente mágicas. Nas cartas que ditava, não permitia Francisco que se riscasse uma letra, mesmo que fosse um erro de ortografia. Recolhia com o mesmo respeito qualquer pedacinho de pergaminho que encontrava no chão.
Perguntaram-lhe, certa vez, por que tinha tanto cuidado até mesmo com obras de autores pagãos. A resposta tem um quê de surpreendente: “Porque nelas se encontram as letras que compõem o glorioso nome do Senhor”. Por umas cinco vezes insiste ele, em suas cartas, em que se devem guardar respeitosamente as palavras do Evangelho, onde quer que sejam encontradas.
Francisco sentia o alcance psicológico desse simbolismo. “Devemos cuidar de tudo que encerra Sua Palavra sagrada. Assim ficamos profundamente compenetrados da sublimidade do nosso Criador e de nossa dependência em relação a Ele”, escreverá mais tarde ao Capítulo de seus irmãos.
A verdadeira dificuldade de se compreender como Francisco lia a Bíblia, não se encontra na cultura medieval. O que é difícil compreender é o fato raro de a Bíblia ser lida aqui por um homem que era como ela o desejava. Ele não tinha necessidade dum comentário que a suavizasse. Com heróica abertura, Francisco aceitava o texto ao pé da letra, pois este já de há muito o havia empolgado. Talvez tenha ele, alguma vez, explicado a Bíblia de uma maneira por demais rigorosa – nunca, porém, branda demais.
Devemos perguntar se a concepção de Francisco a respeito da Bíblia ainda vale para nós. Em cada mudança religiosa na história, encontra-se o homem diante da pergunta: que é propriamente autêntico na Bíblia e que é que se conseguiu descobrir com o correr do tempo?
E em cada período são sempre os grandes cristãos que, da forma mais pura, reconhecem a autenticidade. Não se requer uma visão genial para se descobrir o que corrigir num texto ou apontar alguns cantos carcomidos numa estrutura eclesiástica antiquada.
Quando se trata, porém, de valores eternos, é absolutamente necessária uma visão de fé. Não é tão estranho que um homem como Francisco, que se afastara, por assim dizer, da própria cultura para viver o Evangelho até às últimas consequências – que este Francisco tenha descoberto algo que sobrepuja qualquer cultura.
As grandes personalidades não estão à frente de seu tempo, estão acima dele.
Extraído do livro “Francisco de Assis, Profeta de Nosso Tempo”, Editora Vozes
Francisco, Homo totus Evangelicus
Francisco entrou na intimidade do Evangelho e percebeu-o puro e sem retoques. Por isso, a Igreja o chamará de Homo totus Evangelicus, quer dizer, que “se evangelizou” na totalidade do ser e na radicalidade das exigências. E mostrou, ao mesmo tempo, que o Evangelho, no seu todo, é algo possível de ser traduzido em vida.
O próprio Papa, Inocêndo III, observara que a norma de vida da primitiva comunidade era por demais árdua para compor um programa de vida, mas a tempo foi advertido que não poderia declará-la impossível, pois declararia impossível o Evangelho de Cristo.
Para Francisco a afirmação do Papa significava a impossibilidade de seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois vinham eles retraçados, concretamente, nas páginas do Evangelho. Esta com certeza, com que percebia o Evangelho fazia com que Francisco a ele recorresse com a simplicidade e a confiança de quem recorre a um “diretor espiritual”.
Com naturalidade, colocava os livros dos Evangelhos à sua frente e os abria, a esmo, encontrando exatamente a Palavra que lhe servia de resposta. Não argumentava, não discutia, não duvidava. Deus acabara de lhe falar. E feliz partia para executar as ordens que acabara de ler.
Assim fala Celano, na vida I (n° 92-93): que abrindo o Evangelho, pôs-se de joelhos e pediu a Deus que lhe revelasse qual a sua vontade. “Levantando-se, fez o sinal da cruz, tomou o livro do altar e o abriu com reverência e temor. A primeira coisa que deparou, ao abrir o livro, foi a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, no ponto em que anunciava as tribulações por que haveria de passar. Mas, para que ninguém pudesse suspeitar de que isso tivesse acontecido por acaso, abriu o livro mais duas vezes e o resultado foi o mesmo.
Compreendeu, então, aquele homem cheio do espírito de Deus, que deveria entrar no reino de Deus depois de passar por muitas tribulações, muitas angústias e muitas lutas…”
Texto de Frei Hugo Baggio (extraído do livro “São Francisco Vida e Ideal, da Editora Vozes)