quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

“Francisco, homem feito oração”.



Frei Almir Guimarães

Seguindo os passos de São Francisco, que se transformou “não só o orante, mas na própria oração”  (2Cel 95), removendo todos os obstáculos, “os irmãos sirvam, amem, honrem e adorem o  Senhor Deus de coração limpo e mente pura”, porquanto, é necessário orar sempre sem esmorecer, pois tais são os adoradores que o Pai procura  (Constituições  Gerais  OFM art. 10, § 2).

Assim como Jesus foi o verdadeiro adorador do Pai, façam da oração e da contemplação, a alma do próprio ser e do próprio agir  (Regra OFS, n. 8).

 Segundo Tomás de Celano, Francisco de Assis é a personificação da oração. Não era um orante, mas a própria oração. Dificilmente poder-se-ia ter encontrado uma fórmula mais feliz para descrever a dimensão orante de Francisco. É o homem do ininterrupto diálogo com o Senhor. Depois de sua conversão passa a viver na atmosfera de Deus. Percorre um longo e maravilhoso itinerário em seu relacionamento com Deus: há os suspiros profundos de insatisfação com sua vida quando é convocado a dirigir-se a novos horizontes;   percorre as planícies e vales onde estão os homens, seus irmãos, morando com eles, seus irmãos de vocação e de seguimento límpido do Evangelho; há essa comunhão amorosa de Francisco com o Senhor Jesus;  sua oração passa  pela exaltação da bondade  do Criador manifestada no sol e nas estrelas, na água e na mãe terra; oração de imensa intimidade atingindo seu píncaro mais denso e imperscrutável na configuração de  Francisco a Cristo Jesus no alto do Tabor franciscano que é o Alverne. Ali podia ele dizer com Paulo: “Já não sou eu que vivo. É Cristo que vive em mim” (Gl 2,20). Para Francisco, a oração significa, efetivamente, dar lugar a um Outro.

 A oração é, efetivamente, um mistério. É experiência que se faz e não discurso que se profere. Tem muito a ver com amizade e amor. É relacionamento entre a fraqueza e a plenitude, o amante e a amada, o esposo e a esposa. Pela oração, o homem tenta aproximar-se do seu Senhor que é amor, fogo, exigência, fonte de vida, misericórdia, paz e  Francisco viveu o relacionamento com Deus como plenitude inebriante. Os louvores ao Deus altíssimo, escritos por Francisco no final de sua vida, no verso da  bênção dada a Frei Leão: “Vós sois o Forte… o Grande… o Altíssimo… a Delícia do amor…a Sabedoria… a Humildade… a Beleza, nossa eterna vida… (Louvores ao Deus Altíssimo). Curioso observar, que neste texto, escrito quase no final da vida do santo,   haja tão pouca alusão a Cristo. Nesses versos de louvor, sente-se  um transbordamento talvez não encontrado em outro místico da historia da Igreja. A impressão que se tem é que o Amante seduziu  o amado. A sedução foi tal que o biógrafo chegou a afirmar que o santo estava separado de Deus apenas pela parede da carne e procurava  estar  sempre presente no céu 9 (cf. 2Cel 94).

Desde o momento de sua conversão, Francisco é alguém que procura fazer espaço para a chegada de um Outro. Assim começou a ser trabalhado pelo Espírito. Michel Hubaut concebe a oração em São Francisco como abertura ao Espírito (cf. M. Hubaut, El camino franciscano (trad. Espanhola do original francês), Estela, 1984, p. 53-67). Foi fazendo lugar dentro de si para acolher um Outro e viver em função dele. Foi se dando conta que era preciso romper com anelos e desejos, ambições e projetos pessoais. O processo de conversão de Francisco é marcado por um período de vazio, de não sentido, de espera de algo que estava para acontecer, como realização de uma promessa de amor. Os dias longos passados na prisão de Perusa, a prolongada enfermidade, os sonhos que povoavam tumultuadamente seu interior foram levando Francisco do exterior para o interior, do aparente para o essencial, do ilusório para a verdade. Nessa época, Francisco vive na atmosfera das perguntas, questionamentos, insatisfações: “Que queres de mim? Que queres que eu faça? Por que esta insatisfação dentro de mim?” Tais questões são parecidas com aquelas que colocamos hoje no começo de nossa aventura espiritual.

 Michel Hubaut ainda observa: “O Espírito o orienta rumo ao futuro imprevisto de Deus. Nele desperta uma “faculdade interior” e descobre que o homem é dotado de um “sentido interior” que a Bíblia chama de coração capaz de colocá-lo em relação com Deus. Se o homem experimenta dificuldade em relacionar-se com o  Senhor é porque perdeu o caminho de seu coração. Paulo, o apóstolo, fala do homem sem inteligência e obscurecido. Os grandes orantes foram sempre pessoas que se empenharam em visitar o seu interior a fim de que  lá encontrassem Alguém que andava querendo plenificar-lhes o coração. Os que desejam fazer esta experiência de plenitude despoja-se de tudo, toma distância da autossuficiência, renuncia a si mesmo. Sem esse vazio interior, vazio de si, não há possibilidade de chegada do Outro.

 Éloi Leclerc mostra como Francisco começa a desprender-se das glorias humanas  e do desejo de prestígio. Nada o satisfaz. Aos poucos vai se dirigindo para regiões de “A partir desse dia (um pouco antes da conversão), inaugura-se na vida de Francisco um tempo de silêncio. Sim, uma imperiosa necessidade de silêncio toma conta dele. Procura afastar-se da agitação mundana e do mundo dos negócios. Esforça-se, segundo a expressão de Tomás de Celano, ‘por reter Cristo em seu interior’ (1Cel 6). A superfície do  mundo tão cheia de brilho não mais o atrai. Procura a profundidade de uma caverna ou  sombra de uma capela solitária nos campos. Lá acha o seu tesouro, diz ele. Passa nesses lugares horas a fio. Tornou-se um homem convocado pela profundidade” (E. Leclerc, Francisco de Assis. Retorno ao Evangelho, Petrópolis, p.35).

 Quem reencontra o caminho do coração e se dirige às regiões da profundidade começa a empreender um novo êxodo ou empreende uma viagem como a de Abraão: deixa suas seguranças, sua parentela, a terra firme em que costuma pisar e se dirige a horizontes novos que serão indicados pela ternura do amor de Deus. O que pode então acontecer é mistério que está nas mãos e no coração de Deus. Certamente, maravilhas poderão acontecer se o que foi convidado tiver a coragem de despojar-se de si mesmo, de seus projetos para acolher a visita do Outro, do Inesperado.

 Francisco experimentará durante toda a sua via uma imperiosa necessidade da oração silenciosa e de espaços de recolhimento. A vida e a trajetória de Francisco serão pontilhadas de lugares ermos e de eremitérios. Descobre o gosto pelo silêncio na vetusta e  arruinada capela de São Damião. Mais tarde, nesse lugar, as Clarissas viveriam intensíssima contemplação silenciosa. Os biógrafos assinalam à profusão esses espaços eremíticos: Poggio Bustone, Greccio, Fonte Colombo, Rivo Torto, Narni. Lugar de silêncio e de oração era o Alverne, ápice da vida de união de Francisco com o Altíssimo, monte da transfiguração dolorosa desse amante do Esposo.

 Francisco sempre desejou com grande intensidade esta vida eremítica. Chegou mesmo a pensar que fosse esse o caminho que o Senhor queria que ele percorresse. Queria o retiro exterior nos bosques, nas fendas dos rochedos, nas capelas abandonadas. “Quando rezava nos matos e nos lugares desertos, enchia os bosques se gemidos, derramava lágrimas por toda a parte, batia no peito e, e achando-se mais escondido que num esconderijo conversava  muitas vezes em voz alta com  Respondia ao Juiz, fazia pedidos ao Pai, conversava com o amigo, brincava com o esposo”(2Cel  95).

 Nestas longas e intermináveis jornadas de oração, Francisco foi acolhendo a visita do Espírito, um presente que ele mesmo, por suas próprias forças não podia se oferecer. A oração não é, em primeiro lugar, alguma coisa que fazemos, mas uma acolhida que oferecemos. O orante permite que Deus se aposse dele: “Quer andasse ou parasse, viajando ou residindo no convento, trabalhando ou repousando, entregava-se à oração, de modo que parecia ter consagrado a ela todo o seu coração e todo o seu corpo, toda a sua atividade e todo o seu tempo. Compenetrado destas verdades jamais desprezava por negligência qualquer visita do Espírito; mas ao contrário, sempre que elas se apresentavam, seguia-as cuidadosamente, e enquanto duravam, procurava gozar da doçura que lhe comunicavam” (Legenda Maior de Boaventura 10, 1-2).

Francisco não é mais dono de si, de sua história, de seu presente e de seu futuro. Está sempre se colocando nas mãos do Altíssimo esperando suas novas manifestações, sempre no universo da fé.  Forçosamente, o Deus Altíssimo dos cristãos se manifesta na pobreza e no aniquilamento de Cristo Jesus. Por isso, a “sequela Chriti” será caminho de amadurecimento de sua oração que vai se tornar “crística”

Artigo - As linhas-força da Quaresma.



A Quaresma recebe toda a sua força de inspiração da Vigília pascal, desdobrada no Tríduo Pascal da Paixão-Morte, Sepultura e Ressurreição de Jesus Cristo.

Trata-se da preparação para a Festa da Páscoa do Cristo total, isto é, de Jesus Cristo e dos cristãos. Esta vida nova em Cristo é que chamamos de mistério pascal.

A páscoa-fato, celebrada pela Igreja, movimenta-se em três níveis: a páscoa-fonte, a Paixão-Morte, Sepultura e Ressurreição de Jesus Cristo; a páscoa participada pelos cristãos, acontecida no batismo; e a renovação da páscoa dos cristãos em Cristo no hoje pela renovação de vida, na conversão ou penitência e no compromisso renovado.

Tudo isso torna-se sacramental na páscoa-rito, na celebração da Vigília maior, desdobrada no Tríduo Pascal.

Compreendemos que a celebração da Páscoa é essencialmente uma festa batismal. Dela brotam duas linhas-força:
A primeira: A dimensão batismal. Nesta dimensão podemos realçar dois aspectos. A Páscoa é a festa da celebração do batismo daqueles e daquelas que se prepararam durante a Quaresma. Hoje, esta realidade está tornando-se sempre mais presente.

Os catecúmenos caminharam com a Igreja; a comunidade tornou-se catecúmena com os que se preparam para o batismo.

A Igreja gera novos filhos na fé. Mas enquanto ela se toma catecúmena, os cristãos se preparam para renovar os compromissos do próprio batismo.

Assim, estamos na segunda linha-força da Quaresma: a penitência ou a prática da conversão para viver o batismo ou para renovar as promessas do batismo.

Os cristãos já batizados têm consciência de que ainda não estão na plenitude do ideal cristão, que é o próprio Cristo Jesus. Todo cristão, mesmo batizado, sabe que o processo de sua conversão não chegou ao fim. Ele é um caminhante, consciente do já presente do ainda não. Embora justificado e santificado pelo batismo e pela fé, encontra-se ainda a caminho.

Além disso, ele tem consciência de que muitas vezes se torna infiel à aliança batismal, à morte libertadora de Jesus Cristo, afastando-se ou negando totalmente sua vocação e missão de batizado. Ou, então, torna-se infiel aos compromissos batismais, não correspondendo devidamente à proposta do amor de Deus em Jesus Cristo.

Daí o sentido da penitência quaresmal para todos. Será preparação para retomar os compromissos do batismo ou para fortificá-los. Esta experiência de reconciliação oferecida pela misericórdia de Deus em Cristo Jesus constitui, por sua vez, outra experiência pascal celebrada sacramentalmente na Páscoa.

Texto de “Viver o Ano Litúrgico – Reflexões para os domingos e solenidades”, de Frei Alberto Beckhauser, Editora Vozes.

- Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

domingo, 25 de fevereiro de 2018

PARA VIVER A QUARESMA - O tema da conversão



A partir de fevereiro, no seio da Igreja, vamos retomar  nossa caminhada quaresmal. Tempo de reforma da vida. Tempo de alimentar a vida do homem novo. Tempo de transformação do coração.  Simplesmente tempo de trabalhar nossa conversão ao Evangelho.

1. A palavra conversão evoca frescor, verdor e entusiasmo por um novo nascimento. Estas conotações verificam-se em qualquer idade em que venha acontecer seu começo ou se recomeço. A conversão é quase sempre descrita como experiência que plenifica, como encantadora descoberta na qual tudo parece correr de fonte. Ela pode provocar inebriamento,  euforia e, de outro lado,  serenidade, consolo, descanso que sucede a uma crise.  Através de sensações e sentimentos vividos, a experiência de conversão corresponde à busca de um caminho espiritual novo. Segundo o Novo Testamento, a palavra grega metanoia caracteriza uma mudança de rota, uma reviravolta interior que leva alguém a questionar todas as suas dimensões existenciais e todas as suas atividades. Com isso, a pessoa muda sua orientação fundamental de vida dispondo-se  ao seguimento de Cristo.

2. Somos cristãos. Fomos batizados no tempo da primeiríssima infância. Para a maioria de nós, tudo se deu num tempo em que de nada tínhamos consciência. Crescemos. Demos passos na vida e no seguimento do Senhor. A Quaresma vem nos lembrar que precisamos  alimentar e renovar nossos propósitos de conversão, de  profunda transformação da vida. Nada de mesmices e rotinas.  Nada de quaresma marcada apenas pela eventual privação do peixe na comida. Nada de piedade adocicada, sentimentalmente lamentoso, diante do Cristo na cruz.

3. Quaresma, tempo de fortalecer o homem novo. O velho homem, disto temos experiência, teima em renascer das cinzas. Sabemos que o  Senhor nos cerca, nos rodeia  e, no entanto, continuamos a viver como se ele não existisse, como se seu amor por nós não contasse, não tivesse a mínima importância.  Somos chamados a nos tornar santos como santo é o Pai celeste. Aceitamos, no entanto, a mediocridade, a fachada, a injustiça, e egoísmo e essas pulsões-forças que destroem a harmonia de nosso interior se tornam um caos insuportável à vida do mundo, com todos os desatinos. Quaresma, tempo de conversão. Um dia, esperamos firmemente, o amor de Deus nos invadirá totalmente. Até lá será preciso caminhar sem descanso na direção do Senhor.

4. A conversão é uma resposta pessoal ao amor de Deus. Ninguém se converte no lugar de ninguém. A cada um de examinar na vida aquilo que não está em consonância com o amor de Deus e dos irmãos. Particularmente, no tempo da Quaresma, somos convidados  a orientar o nosso coração para o Senhor. Urgente é feito esse convite no tempo da quaresma. A Igreja, nesse tempo de conversão,  insiste em nos dizer que ser cristão é  morrer com Cristo e com ele ressuscitar.

5. A primeira palavra do Evangelho resume a pregação de João Batista e a de Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho”. O homem consciente de seu pecado pode se tornar outro e dar uma nova direção à sua vida.  Jesus oferece o primeiro lugar ao pecador que ele deseja cobrir de bens. Os pecadores, pensando bem, são os únicos que podem ser enriquecidos, porque não são os que gozam de boa saúde  que precisam de médico, mas os doentes.

6. Comentando esta passagem dos evangelhos, Lutero escrevia: “Somente é procurada a ovelha que estava perdida, somente é libertado o que estava preso, somente o enfermo  é fortalecido, é exaltado o que é humilhado,  cheio o que estava vazio, construído o que antes não estava”.

7. A pessoa converte-se ao longo do tempo da vida. Há pessoas que sabem datar o momento de sua transformação interior. Alguma coisa nova começou a surgir. A conversão modifica as operações conscientes. Dirige o olhar, invade a imaginação, enriquece a compreensão, orienta os julgamentos e  reforça as decisões.  O que entra num processo de conversão é criatura nova.

8. Cabe, neste contexto, evocar palavras de Francisco de Assis no seu Testamento. Fala da conversão como um processo de abandonar  o espírito mundano e das coisas debaixo.  Na verdade, foi depois do encontro com a dor e a miséria do leproso que começou o processo de conversão do Pobrezinho de Assis, homem de ontem e de sempre: “Foi assim  que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco,  começar a fazer penitência; como eu estivesse em pecados, parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu  entre eles e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo; e depois demorei só um pouco e deixei o mundo”.


QUARESMA, TEMPO DE REVER A ROTA DA VIDA E RENOVAR A FÉ NO CRISTO VIVO E RESSUSCITADO.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM


Fonte: http://www.franciscanos.org.br/


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

INSPIRAÇÕES FRANCISCANAS PARA 2018 – Parte 2



Revendo o Documento do Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores de 2015, parágrafo 11, encontro ali: “No passado, quando se formava uma tempestade no mar, os marinheiros normalmente jogavam na água o peso supérfluo, como nos atesta também o livro de Jonas (Jn 1,5). Nós também somos convidados a retornar à pobreza e a nos livrarmos do supérfluo. Em nosso tempo, também nós devemos jogar fora as nossas falsas seguranças e vencer a onda do medo e da angústia através da nossa fé em Deus”. No final de ano e início de ano é um bom tempo de fazermos um rito de passagem limpando gavetas e armários, reduzindo cabides e coisas. Há certos acúmulos que não servem mais. O Papa Francisco nos diz que certas tradições não nos servem mais. Ajuntamos coisas das necessidades que não pertencem mais aos nossos desejos. Desapego é sempre um bom jeito de recomeçar. Mas não só de coisas, mas de certas convicções que estão no amontoado do sótão de nossa consciência.

Ainda acumulamos preconceitos contra as culturas, credos, etnias, condição social e nível de formação.  Há ainda amargura nas relações. Intolerância gera um ódio nocivo a saúde do corpo e alma. Há muita raiva e pouco humor. O outro e a outra não são inimigos. Sua opção religiosa ou afetiva não são um perigo. A vida particular de uma pessoa não interessa para ninguém; isto está entre a consciência pessoal dela e de Deus. O que interessa é a obra que ela faz e a obra que ela está legando para a humanidade. Hoje temos dificuldades se o nosso vizinho é espírita, se é umbandista, evangélico ou esotérico. Quem sou eu para dizer que meu catolicismo é mais coerente do que a fé que ele professa? Agredir a religião do outro significa que há um enfraquecimento na minha fé. O Espírito de Assis dialoga com culturas e religiões. Francisco dialoga com o sultão numa troca de experiência de fé. Para Francisco de Assis não precisa haver guerra entre cristianismo e islamismo quando é possível dialogar no que as pessoas possuem de mais bonito: a fé! Em 2018 devíamos exercitar mais a tolerância.

Na Regra Bulada 6,8, Francisco de Assis fala do cuidado de mãe: “Se a mãe ama e nutre o seu filho carnal, quando mais diligentemente deve cada um amar e nutrir seu irmão espiritual?” E ainda citando o Documento do Capítulo Geral de 2015, no parágrafo 15:  “Falando de mãe, Francisco tem diante dos olhos o ideal de mãe natural, mas também nos convida a darmos um passo adiante para viver uma maternidade espiritual, Ser misericordioso significa ter o coração de mãe, que quer dar tudo o que é bom ao seu filho (...) O Papa Francisco recorda que os cristãos são chamados a viver a alegria do Evangelho e convida à reflexão sobre o fato de que “quando em uma família se perde a capacidade de sonhar, as crianças não crescem e o amor não cresce, a vida enfraquece e apaga-se” ( Papa Francisco, Discurso em Manila, 16/05/2015 ).Mais uma vez,  devemos  cultivar os nossos sonhos para uma vida mais plena”.

Outro dia uma pessoa muito querida me dizia, o meu cachorrinho é muito feliz porque é muito amado. E realmente, ao conviver com o cãozinho, ele era uma inteira energia que fazia vibrar uma intensa felicidade. E as pessoas? Por que nas famílias há muitas brigas e nas fraternidades de vida religiosa e vida franciscana há tensões por coisas banais? Por que somos mais pais e mães dos pets e não dos consanguíneos? Por que em nossas fraternidades o Ser irmão e irmã é tão estranho que nos sentimos num hotel e não numa vida de convivência fraterna?  Que em 2018 isto seja também motivo de mudança.

Textos inspiracionais das nossas Fontes, extraídos da Crônica de Tomás de Eccleston: 

“Porque o justo deve julgar sua vida pelo exemplo dos melhores, uma vez que os exemplos quase sempre compungem mais do que as palavras da razão; para que tenhais algo de próprio com que possais confortar vossos caríssimos filhos” (Ec 2).

“Os irmãos daquele tempo, tendo as primícias do Espírito, serviam ao Senhor não com constituições humanas, mas com livre afeto de sua devoção” ( Ec 27)

“Em todo tempo, os irmãos eram tão bem humorados e alegres entre si que apenas por olhar-se mutuamente se entregavam ao riso” (Ec 28).

“(...) Tu és menor pelo nome, sê menor pelos atos,
Suporta a fadiga, e a paciência rebaixe a mente soberba.
Na verdade, o coração censura a mente pequena,
A paciência purifica, quando algo é de lama;
Se alguém te corrige, este é quem te guarda;
Ele odeia não a ti, mas o mal que tu fazes. (...)
Será apenas uma sombra do menor
Aquele que busca o nome sem a realidade.” (Ec 37).

“Oh! Quão fortemente obrigados, oh quão docemente vencidos pelos benefícios divinos, oh quão honrados por imensa dignidade foram aqueles que nas dúvidas puderam ser dirigidos pelos conselhos, nos acontecimentos tristes ser confortados pelas consolações, nas coisas graves ser provocados pelos exemplos de tantas e tais pessoas que tinham as primícias do espírito! Oh graça inefável, oh prerrogativa incomparável, oh afeição suavíssima de doçura inexaurível, poder gozar a amizade de tão grandes homens, alegrar-se na presente peregrinação peço especial afeto de pessoas tão eminentes, recomendar-se pela graça de homens tão famosos “ (Ec 116 ).

“Disse ainda um frade pregador: “Três coisas são necessárias para a saúde temporal: o alimento, o sono e o bom humor”. Ordenou igualmente a um irmão melancólico que bebesse por penitência um cálice cheio de ótimo vinho; e como este tivesse bebido até ao fim, disse-lhe: “Irmão caríssimo, se tivesse frequentemente tal penitência, terias em todo caso uma consciência melhor” ( Ec 118).

Que façamos uma humorada crônica de nossa vida em 2018! Paz e Bem!

FREI VITORIO MAZZUCO

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

ALGUMAS INSPIRAÇÕES FRANCISCANAS PARA 2018 – 1ª parte.



Por Frei Vitório Mazzuco

A Regra Não Bulada 10,8 registra uma das mais belas palavras de Francisco de Assis: “Possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar”. Um Capítulo dos Frades da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil tinha o sugestivo lema: “Para onde nos conduz o Espírito?” Oportuna as palavras de Francisco de Assis para este novo ano, pois podemos iniciar com aquela sensação com que terminamos 2017: há uma desesperança no ar.  Buscamos sempre soluções econômicas, políticas, financeiras, jurídicas e terapêuticas. Em meio a tudo isto nos sentimos perdidos numa clareira em meio a uma floresta fechada. Vamos filtrar mais pelo Espírito. Buscar o discernimento espiritual. Há uma força que pode iluminar o sentido das decisões que temos que tomar. Há razões mais fortes que inspiram nossas escolhas. Não podemos perder o otimismo do caminho e com ele energizar nossos passos. A retrospectiva de 2017 nos assustou, mas algo tem que mudar em 2018.

Vamos nos abandonar mais fervorosamente ao Espírito do Senhor e ao seu santo modo de operar. Há um Pentecostes em cada sala de nossa vida e uma Porciúncula nos apontando que não estamos sós. Se não temos segurança na Constituição Brasileira tão remendada e desobedecida, possuímos a força do Evangelho. A Boa Nova é sempre a lucidez para as nossas escolhas. O Evangelho pede para dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Justiça não tem meio termo, é decisão. Estamos do lado da Palavra que é luz para os nossos passos e não do lado dos incontáveis posts de Facebook e Whattsapp que dão opinião sem raiz. Eu penso a partir de que valor maior? É minha opinião ou componho uma colcha de retalhos com retalhadas opiniões que não são fundamentadas em nada.

Francisco de Assis criou uma revolução a partir do Evangelho e rompeu com a revolução econômica da época. Hoje a revolução econômica decide globalmente o destino das pessoas. Eu quero ir por este caminho? Francisco de Assis espalhou verdades incontestáveis da Boa Nova em cartas, admoestações, preces e regras de vida. E o que eu coloco na revolução digital internética que permite colocar opiniões com velocidade avassaladora?  Estou tendo a lucidez críticas das palavras?  A maior crise que existe é a perda da identidade humana imersa em conceitos de revolução tecnológica e laboratórios que violentam a natureza. Como me posiciono diante das formas de pobreza que se estendem pelas calçadas da minha vizinhança? E o medo, a agressividade, a violência, vão diminuir com a Campanha da Fraternidade deste ano? Como acolher as quedas de fronteiras que colocaram o movimento migratório bem perto de nós, espalhando a diversidade étnica e cultural em nossas cidades e vilas?

Há mudanças climáticas que desmoronam lugares enquanto governos constroem privilégios para o futuro de alguns. O mundo mudou muito, mas a pessoa não quer mudar e fica no “está bom assim mesmo”.  É preciso buscar o Espírito do Senhor para sair da estagnação.

Vamos buscar nos "Ditos do Beato Egídio" algumas iluminações para o que acima afirmamos:

“Os santos e as santas procuraram praticar as coisas em que acreditavam e que podiam realizar. As que não puderam praticar de fato, praticaram-nas pelo desejo. E assim o santo desejo cumpriu o que faltou a ação. Se alguém tiver uma fé íntegra, chegaria a ponto de ter certeza absoluta. Portanto, se realmente crês, deves agir bem”.

“Quanto mais alguém se alegra com o bem do próximo, tanto mais participará dele. Portanto, se quiseres participar do bem de todos, alegra-te com o bem de todos. Por isso, se o bem dos outros te agradar, faze-o teu; e se o mal dos outros também a ti não agradar, cuida-te dele”.

“Quem não quer honrar os outros não será honrado; quem não quer compreender não será compreendido; quem não quer se afadigar, não terá repouso”.

“Não somos fortes em suportar tribulações, porque não somos bons seguidores das consolações espirituais”.

“Disse-lhe um certo frade: “Que faremos, se nos sobrevierem grandes tribulações?” Respondeu Frei Egídio: “Se o Senhor fizesse chover pedras e rochedos do céu, estes não nos fariam mal, se fôssemos como deveríamos ser. Se o homem fosse como deveria ser, para ele o mal se converteria em bem”.

“O homem perde a perfeição por causa de sua negligência”.

“Se todos os campos e vinhedos do mundo pertencessem a um só dono, e ele não os cultivasse e nem os deixasse cultivar, que fruto se colheria? Mas se outro possuísse poucos campos e vinhas e os cultivasse bem, deles tiraria fruto para si e para muitos”.

“Não é feliz o homem que, tendo boa vontade, deixa de coloca-la em ação por meio de boas obras. Porque Deus dá a sua graça exatamente para que seja seguida”.

“Bem-aventurado quem não se deixa abater por nada que venha deste mundo; mas se deixa edificar por tudo o que vê, ouve e sabe, e de tudo procura tirar algum proveito”. 

“Vejo muitos que trabalham para o corpo e pouco para a alma. Muitos trabalham para o corpo quebrando pedras, escavando montes ou outros trabalhos pesados. E pela alma, quem se afadiga com tanto esforço e ardor?”

“Não se pode possuir uma grande graça com tranquilidade, porque sempre surgem muitas lutas contrárias”.

“Quem quer saber bastante, incline a cabeça, trabalhe muito e se abaixe até o chão. E o Senhor lhe dará muita sabedoria”.

“Quem mais ama, mas deseja!”

“Dize poucas palavras, mas úteis e pensadas”.

“Não leves contigo nada que seja extravagante, porque o coração se perde com tais coisas”.

 “Foge dos boatos inúteis, porque com eles a vontade do homem muda facilmente”.

“O que é humildade? Restituir o que não te pertence”.

“O bom costume é o caminho para todo o bem”.

Frei Egídio era hortelão de um convento primitivo de frades. Construiu seu pensamento com a oração, de olho no Evangelho e na enxada. Deixou estas pérolas para inspirar nossa vida.

 Paz e Bem!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

FONTE: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

ESPECIAL - O Natal na mística franciscana.




O mundo tornou-se presépio

A encarnação do Verbo de Deus, Jesus Cristo, mudou o curso da história, o destino do homem e do mundo. O tempo foi fecundado pelo eterno e os atos humanos ganharam uma significação decisiva: nos fatos se constrói a salvação ou a perdição da vida. Crer num Deus que assumiu a condição humana é crer que toda pessoa tem uma dignidade e um valor fundamental, pelo simples fato de viver, porque a vida é sagrada.

Depois de Cristo, tudo tem a ver com Deus: as criaturas, a natureza, as diferentes culturas, as raças, e todas as coisas mais comuns que constituem a vida humana. “Todas as coisas foram feitas por Ele e sem Ele nada se fez de tudo o que foi feito” (Jo 1,3). Hoje, a encarnação tem um caminho de volta: por meio de cada pessoa e do mundo em que vivemos, podemos descobrir a presença do Deus que assumiu nossas feições e tornou-se um de nós. “Entre nós armou sua tenda e nós vimos sua glória” (Jo 1,14).

Quando São Francisco de Assis, em sua intuição original recriou no presépio de Greccio, a expressão poética do natal, desejava experimentar e reviver na própria carne, o mistério e o encantamento, o amor e a dor, a contradição da glória divina revelada na pobreza do Filho de Deus. Desde então, compor um presépio com figuras e materiais comuns e ordinários, tornou-se um ato de fé, vislumbrando a presença do Deus encarnado em tudo aquilo que constitui a vida. Para contemplar o presépio e nele descobrir a revelação divina no cotidiano humano, há uma condição: é preciso mudar o coração e o olhar, porque o mundo tornou-se presépio.

É este o sentido de compor e imaginar a cena do nascimento de Jesus Cristo nas mais diferentes situações e culturas. É Ele o índio, é Ele o negro, é Ele o pobre, o homem comum na cidade, na favela, no campo… Porque todo ser humano tornou-se sacramento do Filho, e todo lugar e cultura tornaram-se sacramento da manjedoura de Belém. Universal não é o presépio, é sim o mistério da vida que só tem uma morada: o coração humano.

Natal e presépio revelam uma contradição: ao assumir na carne as limitações da vida humana, Deus eliminou toda distância e superou toda separação. Porque é livre, cada pessoa pode não viver nesta mesma dinâmica divina do amor e, de algum modo, vai experimentar o paradoxo de uma vida fechada em si mesma. Natal é linguagem divina. Presépio é pedagogia humana para que, na abertura ao mundo, se possa descobrir o que é essencial. Então seremos capazes de sentir, mesmo na precariedade da vida que, “Deus armou sua tenda entre nós, e vimos sua glória, e da sua plenitude TODOS nós recebemos graça sobre graça” (Jo 1,14.16).

Frei Regis Daher, ofm

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Advento - Viver o tempo da espera.



Toda a existência cristã é caracterizada pelo Advento-Vinda, o que vale dizer que somos peregrinos na história, a caminho da pátria definitiva. O Senhor permanentemente vem ao nosso encontro, caminha conosco e mantém viva a nossa esperança.

O Advento manifesta os dois aspectos da vinda do Senhor: nas duas primeiras semanas, o “Advento escatológico”, ou seja, sua vinda definitiva, e, nas duas últimas semanas, o “Advento Natalício”, sua primeira vinda, o Natal. “Abre as portas, deixa entrar o Rei da glória. É o tempo, ele vem orientar a nossa história”.

Com o profeta Isaías e com João Batista, acolhemos o apelo à conversão para que sejam superadas todas as formas de dominação, exclusão e miséria, para que se realize uma sociedade com liberdade e dignidade para todos. Com Maria, vivemos a alegria e a confiança. “A Virgem, Mãe será, um Filho, à luz dará. Seu nome, Emanuel: conosco Deus do céu; o mal desprezará, o bem acolherá”.

Com atenta vigilância, alegre expectativa e renovada esperança, vivamos o Tempo do Advento retomando o seguimento de Jesus, tornando-nos, como ele, discípulos missionários da vida e da paz, fazendo crescer em nós e em nossas comunidades a certeza de que ele continua vindo através de nós.

A esperança pessoal, coletiva e cósmica

Seríamos muito pobres se reduzíssemos o Advento, simplesmente, a um tempo de preparação para a festa do Natal. O Advento, tempo de espera, é baseado na exprectativa do Reino e a nossa atitude básica é acender e renovar em nós esse desejo e esse ânimo. Num tempo marcado pelo consumo, é preciso que afirmemos profeticamente a esperança.

No âmbito pessoal, intensificando o desejo do coração e retomando o sentido da vida. Mas as esperanças são também coletivas: é o sonho do povo por justiça e paz – “fundir suas espadas, para fazer bicos de arado, fundir suas lanças, para delas fazer foices” (Is 2,4). As esperanças são também cósmicas: “A criação geme e sofre em dores de parto até agora e nós também gememos em nosso íntimo esperando a libertação” (Rm 8, 18-23).

“O melhor da festa é esperar por ela”, diz um ditado popular. Do ponto de vista humano, a espera e a preparação de um acontecimento são tão importantes quanto o evento. Daí a necessidade de fazermos uma avaliação do que significa e de como vivenciamos o tempo do Advento em nossas comunidades. Que importância damos ao tempo do Advento?

“Deixem o Advento ser Advento”


“Atualmente, muitas comunidades eclesiais, influenciadas pela onda consumista por ocasião das festas natalinas e de final de ano, estão assumindo o costume de enfeitar suas igrejas já bem antes do Natal chegar. Em pleno tempo do Advento já ornamentam suas igrejas com flores, pisca-pisca, árvores de Natal e outros motivos natalinos, como se já fosse Natal. Não sejam tão apressadas, Não entrem na onda dos símbolos consumistas da nossa sociedade. Evitem enfeitar a igreja com motivos natalinos durante o Advento. Deixem o Advento ser Advento e o Natal ser Natal” . 

É preciso tomar cuidado de não abortar o Advento ou celebrá-lo superficialmente. Esse cuidado nos levará a não antecipar o Natal, fazendo celebrações natalinas antes do previsto, ou usando ritos e sinais próprios da festa. Mas também não podemos celebrar o Advento como se Cristo ainda não tivesse nascido. A longa noite da espera terminou. O mundo já foi redimido, embora a história da salvação continue…