quarta-feira, 16 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 5



Reflexão de Frei Vitório Mazzuco Filho

De uma primeira leitura destes textos podemos pensar que não haja uma correspondência de fundo com o Ano Santo da Misericórdia. Porém, conseguimos ver neles os valores proclamados no Ano Santo. 

Vejamos alguns detalhes: Francisco, na sua juventude e mesmo já no maduro caminho de sua vida, ele é um peregrino. A Legenda dos Três Companheiros diz: “Ele andou não muitos dias depois disto a Roma (LTC 3,10) e em 2Cel: "Por isto, uma vez, tendo andado a Roma em peregrinação”; e na LM 1,6: “Tendo pois, naquele tempo, visitado com grande devoção a Igreja de São Pedro, em Roma”. Se olharmos bem os textos maiores que citamos acima, vemos as características bem nítidas da peregrinação: veneração da memória apostólica, estar numa basílica, fazer ofertas, dar esmolas, emoções interiores, impulsos, entusiasmo e testemunho evidente. 

A ligação com a Cátedra de Pedro está implícita na peregrinação medieval e na veneração dos túmulos dos apóstolos. É um senso de pertença, de unidade, de comunhão com a Igreja de Roma, é a Romaria; mesmo que a eclesiologia da época não empolgasse muito, pois estava mais preocupada com reinos e reis, Cruzadas e poder. Mas se há unidade com a Igreja a eclesiologia tem que mudar. 

 Esta atitude de Francisco de ir à Roma tem uma relação de contraste com os Movimentos Penitenciais de então. Alguns ao lado da Cúria Romana, outros nem tanto; pois havia uma contestação dos movimentos considerados heréticos, que eram anticlericais e anti-eclesiais na sua rebeldia e na oposição. Francisco vai à Roma e não abre mão da Igreja.

Não podemos esquecer os elementos fortes de uma piedade popular que estava na peregrinação: a grande devoção e religiosidade, a prece constante, o silêncio contemplativo e as vestes despojadas. Em Francisco podemos considerar peregrinação o seu projeto de chegar um dia a Santiago de Compostella, ao Monte Gargano, e à Terra Santa.

Continua...

Fonte:   http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

terça-feira, 15 de março de 2016

Franciscano do dia - 15/03 - Bem-aventurado Andrés Carlos Ferrari



Cardeal Arcebispo de Milão, da Terceira Ordem (1850-1921). Beatificado por São João Paulo II no dia 10 de maio de 1987. 


Andrés Ferrari nasceu em Lalatta, diocese de Parma, no dia 13 de agosto de 1850. De pais humildades, frequentou o seminário, ordenou-se padre a 19 de dezembro de 1873.

Como pároco, teve especial cuidado com a juventude. Pouco tempo esteve à frente do trabalho paroquial, pois foi nomeado professor e reitor do seminário de Parma. Distinguindo-se por sua piedade, doutrina e direção de almas, Leão XIII nomeou-o Bispo de Gustalla, no dia 23 de Junho de 1890, não contando ainda 40 anos de idade. Foi tal o seu proceder à frente da pequena diocese que o mesmo Sumo Pontífice resolveu transferi-lo para outra maior e mais importante, a de Como.

Nos anos em que permaneceu nessa diocese, percorreu-a de lés a lés, visitando todas as freguesias, por menores e remotas que fossem. Empenhou-se sobremaneira na formação do clero e desenvolvimento da Ação católica. No consistório de 18 de maio de 1894, Leão XIII, que estimava o Bispo de Como, inclui-o no número de Cardeais, e três anos depois confiou-lhe o governo da Arquidiocese de Milão.

No dia em que foi nomeado Arcebispo dessa cidade, o Servo de Deus acrescentou o nome de Carlos ao de André, que recebera no batismo, para honrar S. Carlos Borromeu, Pastor imortal e glória da igreja milanesa. O que ele fez neste novo campo de apostolado, é-nos referido por São João Paulo II na homilia que proferiu no dia da beatificação do Cardeal, a 10 de maio de 1987; «Cristo foi a “porta” da santidade para o cardeal André Carlos Ferrari que, depois de ter sido Bispo de Guastalla e de Como, dirigiu por cerca de 27 anos a Arquidiocese de Milão, seguindo com fervor apaixonado as pegadas dos grandes predecessores, Ambrósio e Carlos.

Sustentado por fé robusta e zelo iluminado, ele soube indicar com tino seguro o caminho a percorrer entre novas e difíceis realidades emergentes no contexto religioso e social do seu tempo. Soube ver os problemas pastorais, que as circunstâncias históricas apresentavam, com o olhar do Bom Pastor, indicando os modos para os enfrentar e resolver.

Visitou quatro vezes a vasta arquidiocese ambrosiana, indo às localidades mais distantes e inacessíveis, mesmo a cavalo e a pé, onde deste tempo imemoriável não se tinha visto um Bispo. Por esta razão, ante a sua pastoral incansável, alguns diziam: “S. Carlos voltou”. A solicitude do Pastor foi expressa também na promoção de formas novas de assistência, adequadas às mudanças dos tempos e aos jovens abandonados, os trabalhadores e os pobres”.

O bem-aventurado André Carlos Ferrari faleceu em Milão, no dia 2 de Fevereiro de 1921. Amou a São Francisco e o franciscanismo, apreciou a carismática figura de P. Lino Maupas, e animou o Padre Agustín Gemelli na fundação da Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão. Tornou-se terceiro franciscano no dia 30 de junho de 1876 e um ano depois fez a sua profissão. Em 1965 foram exumados seus restos e se encontravam ainda intactos.

Fonte: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

sábado, 12 de março de 2016

Santo franciscano do dia - 12/03 - São Luís Orione



Sacerdote da Terceira Ordem Franciscana (1872-1940). Fundador da Pequena Obra da Providência. 

Orione é um dos maiores e mais conhecidos dos apóstolos da caridade do nosso tempo, que nos deu um luminoso testemunho de amor a Cristo e aos irmãos, mediante uma profunda fidelidade e devoção à Santa Igreja de Roma e ao Papa.

Nascido em Pontecurone, em 23 de junho de 1872, de uma família muito pobre, mas de uma fé viva, grande honestidade e assíduo trabalho.

Muito cedo sentiu o impulso para a vocação sacerdotal e religiosa. Passou seis meses com os frades franciscanos de Voghera; porém, o Senhor, não lhe reservava a vocação de frade franciscano. Amava a São Francisco e seu ideal de pobreza evangélica. Em toda a sua vida procurou viver seus exemplos e a espiritualidade franciscana. Ingressou na Ordem Terceira.

Durante três anos foi aluno entusiasta de São João Bosco, estando com ele na hora de sua morte. Também o Senhor não o queria salesiano. No seminário diocesano de Tortona preparou-se para o sacerdócio. Aos vinte anos encontrou-se com um jovem expulso da catequese por indisciplina e daquele encontro nasceu sua congregação: a Pequena Obra da Divina Providência. Desta surgiu o ramo feminino com o nome de Pequenas Missionárias da Caridade.

Em 1903, Dom Orione recebeu a aprovação canônica aos “Filhos da Divina Providência”, Congregação Religiosa de Padres, Irmãos e Eremitas da Família da Pequena Obra da Divina Providência. A Congregação e toda a Família Religiosa propunham-se a “trabalhar para levar os pequenos os pobres e o povo à Igreja e ao Papa, mediante obras de caridade”.

Dom Orione teve atuação heroica no socorro às vítimas dos terremotos de Reggio e Messina (1908) e da Marsica (1915). Por decisão do Papa São Pio X, foi nomeado Vigário Geral da Diocese de Messina por 3 anos. Vinte anos depois da fundação dos “Filhos da Divina Providência”, em 1915, surgiu como novo ramo a Congregação das “Pequenas Irmãs Missionárias da Caridade”, Religiosas movidas pelo mesmo carisma fundacional.

O zelo missionário de Dom Orione cedo se manifestou com o envio de missionários ao Brasil em 1913 e, em seguida, à Argentina, ao Uruguai e diversos países espalhados pelo mundo. Dom Orione esteve pessoalmente como missionário, duas vezes, na América Latina: em 1921 e nos anos de 1934 a 1937, no Brasil, na Argentina e no Uruguai, tendo chegado até ao Chile.

Foi pregador popular, confessor e organizador de peregrinações, de missões populares e de presépios vivos. Grande devoto de Nossa Senhora, propagou de todos os modos a devoção mariana e ergueu santuários, entre os quais o de Nossa Senhora da Guarda em Tortona e o de Nossa Senhora de Caravaggio; na construção desses santuários será sempre lembrada a iniciativa de Dom Orione de colocar seus clérigos no trabalho braçal ao lado dos mais operários civis.

Em 1940, Dom Orione atacado por graves doenças de coração e das vias respiratórias foi enviado para Sanremo. E ali, três dias depois de ter chegado, morreu no dia 12 de Março, aos 68 anos, sussurrando suas últimas palavras: “Jesus! Jesus! Estou indo.”

Vinte e cinco anos depois, em 1965, seu corpo foi encontrado incorrupto e depositado numa urna para veneração pública, junto ao Santuário da Guarda, em Sanremo na Itália.

O Papa Pio XII o denominou “pai dos pobres, benfeitor da humanidade sofredora e abandonada” e o Papa São João Paulo II depois de tê-lo declarado beato em 26 de outubro de 1980, finalmente o canonizou em 16 de maio de 2004.

Fonte: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Franciscano do dia - 11/03 - Bem-aventurado João Batista de Fabriano


Sacerdote da Primeira Ordem (1469-1539). Seu culto foi aprovado por Leão XIII no dia 7 de setembro de 1903. 


Nasceu em Fabriano, na nobre família Righi, por volta de 1470, João viveu a espiritualidade cristã no seio da família, num ambiente verdadeiramente medieval.

Professou na Ordem Franciscana e viveu no convento de Forano; mais tarde, para alcançar maior perfeição, fez-se eremita numa gruta chamada «La Romita», em Massaccio. Viveu na penitência e na austeridade, rezando, lendo os Padres da Igreja e entregando-se às pessoas com quem contatava.

Morreu em 1539 e está sepultado na igreja franciscana de São Tiago della Romita em Ancona, onde é venerado.

Fonte: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

terça-feira, 8 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 4


Reflexão de Frei Vitório Mazzuco Filho

Continuemos lendo os relatos de Tomás de Celano e de São Boaventura: “Ama os pobres de maneira especial, os sagrados inícios já davam indicações daquilo que ele haveria de ser de maneira perfeita. Despindo-se frequentemente a si mesmo, vestia os pobres, aos quais procurava assemelhar-se, conquanto ainda não pela prática, mas já de todo coração”.

Numa ocasião, ao fazer uma peregrinação a Roma, Francisco depôs as vestes delicadas por amor da pobreza e, coberto com as vestes de um pobre, no átrio diante da igreja de São Pedro, que é um lugar cheio de pobres, sentou-se alegremente entre os pobres e, considerando-se como um deles, come avidamente com eles. Muitas vezes, ele teria feito semelhante coisa, se não tivesse sido impedido pela vergonha dos conhecidos. Quando se aproximou do altar do príncipe dos apóstolos, admirando-se de que aí os visitantes faziam tão módicas ofertas, lança dinheiro com a mão cheia no lugar, indicando que deve ser mais especialmente honrado por todos aquele que Deus honrou mais do que os outros” (2Cel 8). “Também a suavidade da compaixão brotara para o servo do Senhor com tanta profusão e plenitude da fonte da misericórdia que ele parecia ter vísceras maternas para aliviar a miséria das pessoas miseráveis, visto que tinha também uma clemência congênita que a compaixão de Cristo, infundida copiosamente sobre ele, duplicava. E assim seu espírito se liquefazia para com os enfermos e pobres, e aos que não podia oferecer a mão, oferecia o afeto; pelo fato de que referia a Cristo, com doçura de piedosa compaixão, tudo o que via de penúria, tudo o que via de necessidade em alguém. E ao ver em todos os pobres a imagem de Cristo, dava generosamente aos que vinham ao seu encontro não só as coisas necessárias à vida, que por acaso também lhe haviam sido dadas, mas também julgava que deviam ser-lhes restituídas, como se fossem próprias deles. Não poupava coisa alguma, nem capas nem túnicas, nem livros nem mesmo paramentos do altar sem dar, enquanto podia, tudo isto aos necessitados, desejando, para cumprir o ofício da perfeita compaixão, desgastar-se até a si próprio” (Lm 7).

Leiamos o belo relato de I Fioretti: “O maravilhoso servo e seguidor de Cristo, isto é, São Francisco, para se conformar perfeitamente com Cristo em todas as coisas, o qual, segundo diz o Evangelho, mandou os discípulos dois a dois a todas aquelas cidades e regiões aonde devia ir; depois que, a exemplo de Cristo, reunira doze companheiros, os enviou pelo mundo a pregar dois a dois. E, para lhes dar o exemplo da verdadeira obediência, começou ele primeiramente a fazer do que a ensinar (...) Tomando Frei Masseu por seu companheiro, seguiu para a província da França. E chegando um dia, com muita fome, a uma cidade, andaram, segundo a Regra, mendigando pão pelo amor de Deus; e São Francisco foi por uma parte, e Frei Masseu por outra. Mas, por ser São Francisco um homem muito desprezível e pequeno de corpo e por isso reputado um vil pobrezinho por quem não o conhecia, só recolheu algumas côdeas e pedacinhos de pão seco. Mas Frei Masseu, pelo fato de ser um homem alto e cheio de corpo, deram muitos e bons pedaços grandes de pães inteiros. Acabada a mendigação, reuniram-se fora da cidade para comer em um lugar onde havia uma bela fonte e junto uma bela pedra larga, sobre a qual cada um colocou as esmolas recebidas. E vendo São Francisco que os pedaços de Frei Masseu eram em maior número e mais belos e maiores que os dele, mostrou grande alegria e disse assim: “Ó Frei Masseu, não somos dignos deste grande tesouro”. E, repetindo estas palavras várias vezes, respondeu-lhe Frei Masseu: “Pai, como se pode chamar de tesouro, onde há tanta pobreza e falta de coisas que necessitamos? Aqui não há toalha, nem faca, nem garfo, nem prato, nem casa, nem mesa, nem criada, nem criado”. Então, disse São Francisco: "Isto é o que considero grande tesouro, porque não há coisa nenhuma feita por indústria humana, mas o que aqui existe é feito pela Providência divina, como se vê manifestadamente pelo pão mendigado, pela mesa de pedra tão bela e pela fonte tão clara: por isso quero que peçamos a Deus que o tesouro da santa pobreza tão nobre, o qual  tem Deus para servir, seja amado de todo coração”. E ditas estas palavras e rezada a oração e tomada a refeição corporal com aqueles pedaços de pão e aquela água, levantaram-se para ir à França (...). E feito isso disse São Francisco: “Companheiro caríssimo, vamos a São Pedro e São Paulo, e roguemos-lhe que nos ensinem e nos ajudem a possuir o desmesurado tesouro da santíssima pobreza” (I Fioretti 13).

"Francisco e Masseu na fonte", ilustração do livro de J.M. Dent & Sons Ltd, publicado em 1919, em Londres.

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/frequentemente a si mesmo, vestia os pobres, aos quais procurava assemelhar-se, conquanto ainda não pela prática, mas já de todo coração”.

Numa ocasião, ao fazer uma peregrinação a Roma, Francisco depôs as vestes delicadas por amor da pobreza e, coberto com as vestes de um pobre, no átrio diante da igreja de São Pedro, que é um lugar cheio de pobres, sentou-se alegremente entre os pobres e, considerando-se como um deles, come avidamente com eles. Muitas vezes, ele teria feito semelhante coisa, se não tivesse sido impedido pela vergonha dos conhecidos. Quando se aproximou do altar do príncipe dos apóstolos, admirando-se de que aí os visitantes faziam tão módicas ofertas, lança dinheiro com a mão cheia no lugar, indicando que deve ser mais especialmente honrado por todos aquele que Deus honrou mais do que os outros” (2Cel 8). “Também a suavidade da compaixão brotara para o servo do Senhor com tanta profusão e plenitude da fonte da misericórdia que ele parecia ter vísceras maternas para aliviar a miséria das pessoas miseráveis, visto que tinha também uma clemência congênita que a compaixão de Cristo, infundida copiosamente sobre ele, duplicava. E assim seu espírito se liquefazia para com os enfermos e pobres, e aos que não podia oferecer a mão, oferecia o afeto; pelo fato de que referia a Cristo, com doçura de piedosa compaixão, tudo o que via de penúria, tudo o que via de necessidade em alguém. E ao ver em todos os pobres a imagem de Cristo, dava generosamente aos que vinham ao seu encontro não só as coisas necessárias à vida, que por acaso também lhe haviam sido dadas, mas também julgava que deviam ser-lhes restituídas, como se fossem próprias deles. Não poupava coisa alguma, nem capas nem túnicas, nem livros nem mesmo paramentos do altar sem dar, enquanto podia, tudo isto aos necessitados, desejando, para cumprir o ofício da perfeita compaixão, desgastar-se até a si próprio” (Lm 7).

Leiamos o belo relato de I Fioretti: “O maravilhoso servo e seguidor de Cristo, isto é, São Francisco, para se conformar perfeitamente com Cristo em todas as coisas, o qual, segundo diz o Evangelho, mandou os discípulos dois a dois a todas aquelas cidades e regiões aonde devia ir; depois que, a exemplo de Cristo, reunira doze companheiros, os enviou pelo mundo a pregar dois a dois. E, para lhes dar o exemplo da verdadeira obediência, começou ele primeiramente a fazer do que a ensinar (...) Tomando Frei Masseu por seu companheiro, seguiu para a província da França. E chegando um dia, com muita fome, a uma cidade, andaram, segundo a Regra, mendigando pão pelo amor de Deus; e São Francisco foi por uma parte, e Frei Masseu por outra. Mas, por ser São Francisco um homem muito desprezível e pequeno de corpo e por isso reputado um vil pobrezinho por quem não o conhecia, só recolheu algumas côdeas e pedacinhos de pão seco. Mas Frei Masseu, pelo fato de ser um homem alto e cheio de corpo, deram muitos e bons pedaços grandes de pães inteiros. Acabada a mendigação, reuniram-se fora da cidade para comer em um lugar onde havia uma bela fonte e junto uma bela pedra larga, sobre a qual cada um colocou as esmolas recebidas. E vendo São Francisco que os pedaços de Frei Masseu eram em maior número e mais belos e maiores que os dele, mostrou grande alegria e disse assim: “Ó Frei Masseu, não somos dignos deste grande tesouro”. E, repetindo estas palavras várias vezes, respondeu-lhe Frei Masseu: “Pai, como se pode chamar de tesouro, onde há tanta pobreza e falta de coisas que necessitamos? Aqui não há toalha, nem faca, nem garfo, nem prato, nem casa, nem mesa, nem criada, nem criado”. Então, disse São Francisco: "Isto é o que considero grande tesouro, porque não há coisa nenhuma feita por indústria humana, mas o que aqui existe é feito pela Providência divina, como se vê manifestadamente pelo pão mendigado, pela mesa de pedra tão bela e pela fonte tão clara: por isso quero que peçamos a Deus que o tesouro da santa pobreza tão nobre, o qual  tem Deus para servir, seja amado de todo coração”. E ditas estas palavras e rezada a oração e tomada a refeição corporal com aqueles pedaços de pão e aquela água, levantaram-se para ir à França (...). E feito isso disse São Francisco: “Companheiro caríssimo, vamos a São Pedro e São Paulo, e roguemos-lhe que nos ensinem e nos ajudem a possuir o desmesurado tesouro da santíssima pobreza” (I Fioretti 13).

"Francisco e Masseu na fonte", ilustração do livro de J.M. Dent & Sons Ltd, publicado em 1919, em Londres.

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/

sexta-feira, 4 de março de 2016

Reflexão desta sexta - Encontros de Jesus



A adúltera, uma mulher sem importância

Ao longo deste ano vamos tentar fazer algumas meditações em torno de encontros de Jesus nos evangelhos. Neles manifesta-se o grande do amor do Coração do Senhor. Começamos com o episódio da mulher de Samaria. No mês de janeiro refletimos sobre o episódio da mulher de Samaria e, em fevereiro, misericórdia do amor de Deus manifestada na vida de um homem chamado Zaqueu. 

Estamos vivendo o Ano da Misericórdia. Toda primeira sexta-feira é ocasião de comtemplar a misericórdia do Senhor Jesus manifestada no lado aberto em seu peito. Um coração que amou até o fim! O episódio da pecadora que estava para ser apedrejada pode servir para nossa meditação daquilo que é o essencial do cristianismo: casa e espaço de misericórdia.

Texto evangélico
Por aquela ocasião Jesus foi para o monte das Oliveiras. De madrugada voltou de novo ao templo. Todo o povo se reuniu à volta dele. Sentando-se começou a ensiná-los. Nesse ínterim, os mestres da lei trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, disseram a Jesus: “Mestre esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés, na lei, mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?” Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu os olhos e disse: “Quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. E tornando-se a inclinar-se, continuou a escrever no chão. E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho com a mulher que estava lá, no meio do povo. Então Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles. Ninguém te condenou?” Ela respondeu; “Ninguém, Senhor”. “Eu também não te condeno. Podes ir e, de agora em diante, não peques mais”. (João 8, 1-11)

Jesus costumava passar a noite no Monte das Oliveiras. Lá se encontrava mais uma vez. De manhãzinha volta ao Templo. Imediatamente numerosos judeus se reúnem em volta dele. À maneira dos mestres da época, Jesus se senta num canto no pátio do Templo e começa a ensinar. Certamente falava das coisas relativas a esse mundo novo e belo que ele designava de reino de Deus, proposto às pessoas que tivessem um coração simples e pobre. Sem dúvida andava falando da misericórdia e da boa acolhida a ser dada às pessoas. Quem sabe, nesta manhã, não havia ele contado a maravilhosa parábola do filho pródigo?

Seus ouvintes prestavam atenção em suas palavras. Nada se ouvia, a não ser o rumor das palavras. De repente, a calma foi quebrada com um grupo barulhento que chegava. Fariseus e escribas traziam uma mulher surpreendida em adultério e como que a lançaram perto de Jesus. Depois de instantes de estupor o silêncio se restabelece. Um daqueles que haviam chegado no grupo dirigiu-se a Jesus: “Moisés, na lei, mandou apedrejar tais mulheres. O que dizes?” Falavam assim, segundo João, “para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar”. Não queriam questionar o rigor do castigo e sua terrível aplicação. A mulher não contava. Não davam importância à sua pessoa. Era uma mulher sem importância. Nas mãos daqueles falsos justos ela era mero pretexto para acusar Jesus. Os motivos a levavam a se prostituir, seus sentimentos, suas reações contavam pouco. E lá estava ela no meio de pessoas hostis, tremendo de vergonha e de medo, já imaginando morrer de morte atroz e horrenda.

Num primeiro momento Jesus não dirige o olhar para a pecadora, mas começa a escrever na terra. Acontece um silêncio pesado. Os discípulos, certamente, se perguntavam como Jesus se livraria da armadilha. Se apoiasse o apedrejamento estaria em oposição à sua pregação sobre a misericórdia. Se impedisse o ato estaria contra a lei de Moisés, e assim, mesmo contra Deus.

Cessando de escrever, Jesus se ergue e diz: “Quem dentre vós não tiver pecado seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Volta, então, a curvar-se e continua a escrever na terra. Outro silêncio, mas não o mesmo. Agora, o silêncio daqueles que se interrogam e fazem uma viagem em seu interior. Esses “justiceiros” são homens como os outros, homens comuns e pecadores, cheios de falhas e de faltas. Quem ousaria afirmar que nunca tivesse pecado? Se alguém ousasse dizer impecável, certamente ouviria a voz de alguém provando o contrário.

A pergunta de Jesus fez com que eles passassem do papel de acusadores a acusados. Jesus interessa-se pela mulher ainda jogada no chão e pelos seus acusadores. O Mestre sai vencedor da armadilha que lhe havia sido estendida. Esses homens reconheceram sua verdade e, a partir dos mais velhos, foram saindo um após o outro. Seriam os mais idosos, os mais lúcidos ou os muitos anos vividos havia acumulado mais e mais pecados?

Jesus fica sozinho com a mulher. Levanta-se e, pela primeira vez dirige-se a ela, olhos nos olhos. Desde o começo da cena ela estava no coração de seu pensamento e no coração de seu coração. Jesus teve a preocupação de não humilhá-la diante dos outros. Agora o olhar do Mestre lhe devolve a dignidade, recria-a.

 Bem provavelmente é sorrindo que lhe diz: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” E ela respondeu: “Ninguém, Senhor?” E Jesus: “Eu também não te condeno. Podes ir e de agora em diante não peques mais”.

Eu não te condeno. Não vim para condenar, mas para salvar. Vim revelar ao pecador que, apesar de sua falta, ele é amado por Deus. Vim para dizer que o amor é maior do que a falta e o abismo provocado pela falta. Não te condeno. A partir de agora, no entanto, não peques mais. Fizeste hoje a experiência do amor de Deus para contigo. Que não venhas a trair esse amor.

Nesta manhã, uma mulher nova deixava o pátio do Templo. Naquela manhã para ela o ar estava menos pesado. Ela não era mais a mesma. Toda sua experiência de mulher estava orientada agora para outros caminhos. Depois de ter encontrado Jesus voltou para seu marido com um coração novo, reconciliado. Será que ela conseguiu se fazer junto dele testemunha do perdão possível e de uma vida no amor e na fidelidade?

François Montfort, Rencontres avec le Christ – Fêtes et Saisons, n. 312, p. 9

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/

quinta-feira, 3 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 3


Reflexão de Frei Vitório Mazzuco Filho

Vejamos algumas aproximações bem afinadas do Ano Santo com a nossa espiritualidade. Para o modo franciscano, o Ano Santo deve ser um chamado às aproximações, ao estar junto, ao “em saída”, ao ir junto, estar junto, a itinerância de peregrinos e forasteiros que nos remete à intimidade da realidade. São Francisco fez duas visitas à Basílica de São Pedro, em Roma.  Uma quando era bastante jovem e procurava soluções para as suas crises interiores; outra, já convertido mas não deixando nunca o processo de conversão, queria deixar mais clara ainda a sua escolha pelo Evangelho.

Vamos reler a Legenda dos Três Companheiros: “Transformado assim pela graça divina, embora ainda estivesse no hábito secular, desejava estar em outra cidade onde, como desconhecido, pudesse despir-se de suas próprias roupas e vestir-se com as vestimentas de algum pobre, recebidas em troca, e fazer a experiência de pedir esmolas por amor de Deus. Naquela época, aconteceu que, por motivo de peregrinação, chegou a Roma. E, entrando na igreja de São Pedro, considerou como eram pequenas as ofertas de alguns e disse consigo mesmo: "Como o príncipe dos apóstolos deve ser magnificamente honrado, porque esses fazem ofertas tão pequeninas na igreja onde o corpo dele repousa?” E assim, com grande fervor, colocou a sua mão na bolsa e tirou-a cheia de moedas e, lançando-as pela janela do altar, fez tanto barulho que todos os presentes ficaram admirados com tão magnífica oferta.

Saindo, porém, para diante da porta da igreja, onde estavam presentes muitos pobres para pedir esmolas, sigilosamente recebeu em troca as roupas de um homem  pobrezinho e, depondo as suas, as vestiu. E, postando-se nos degraus da igreja com os outros pobres, pedia esmola em francês, porque de bom grado falava a língua francesa, embora não a soubesse falar corretamente.

Mas depois, despindo-se das ditas roupas e retomando as suas, retornou para Assis e começou a rezar ao Senhor para que dirigisse seu caminho. A ninguém revelava o seu segredo e, neste ponto, não se servia do conselho de ninguém, a não ser somente do de Deus, que começara a dirigir seu caminho e, de vez em quando, do conselho do bispo de Asssis, porque naquele tempo não se encontrava em ninguém a verdadeira pobreza que ele desejava acima de todas as coisas deste mundo, querendo nela viver e morrer”  Legenda dos Três Companheiros 3,10 )

São duas posturas que este relato nos propõe. Uma postura ir e fazer uma ressonante oferta na convicção de que para Deus se dá o melhor e o máximo; para o Apóstolo e sua Basílica dar o muito como reconhecimento e restituição. A outra postura é vestir a roupa do pobre não para chamar a atenção, como um autêntico ritual de investidura para assumir o espírito da misericórdia e da prodigalidade, vestir-se da humildade e da simplicidade para renunciar todas as pompas possíveis, saber pedir e saber oferecer.

Imagem: Estátua de São Francisco na praça em frente à Basílica de São João Latrão

Continua...

Fonte: http://carismafranciscano.blogspot.com.br/