segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Especial Santa Clara de Assis - A Consagração


 Clara chegou à Porciúncula. Francisco a acolheu e lhe deu as boas-vindas. Comovida, ela entrou na igreja, ajoelhou-se diante do altar e, por alguns instantes, deteve-se em oração. Depois, levantou-se com decisão; tirou o calçado, despiu-se do vestido de brocado e o trocou por uma túnica grosseira, retirou seu rico cinto e o substituiu por uma corda áspera.

Em seguida, ajoelhou-se ainda; soltou de uma vez os cabelos que deslizaram sobre os ombros; depois, permaneceu com a cabeça inclinada, à espera do último sacrifício.

Francisco recolheu com delicadeza a loura cabeleira e, bem devagarzinho, a cortou. A cerimônia estava acabada.

A reação dos parentes

Como era de se prever, a reação dos parentes de Clara não se fez esperar. Pela manhã, apenas descobriram sua fuga, puseram-se em pé de guerra e rapidamente chegaram ao mosteiro de São Paulo para reconduzi-la à casa. Ameaçaram arrombar a porta. Querem Clara, viva ou morta. Com o aparato exterior e as ameaças, esperam assustá-la, mas iludem-se! Clara é irremovível. Visto que era vã toda a ameaça, recorrem às boas maneiras, às lisonjas e às promessas; fazem apelo aos sentimentos, à dor da mãe, das irmãs, de toda a família, mas Clara é inflexível; sabe que está mais em segurança entre aquelas paredes do que se estivesse num castelo.

Agarra-se ao altar – Quando se dá conta de que estão a ponto de perder o controle e recorrer à violência, Clara, com um gesto, fez desmoronar todas as ilusões deles: foge para a igreja e corre para junto ao altar; com uma das mãos segura a toalha e com a outra retira o véu da cabeça, fazendo-a aparecer sem os cabelos que haviam sido cortados.

Demonstrava, assim, ser agora consagrada a Deus e que ninguém podia tocá-la. Diante de tanta firmeza, aos familiares outra coisa não restou senão abandonarem a igreja e o mosteiro e partirem confusos.

Transferida para o mosteiro de Santo Ângelo – Em São Paulo, Clara pôde permanecer só poucos dias. Foram talvez as próprias monjas a solicitar o afastamento dela depois da confusão provocada por sua presença.

Francisco interessou-se pela transferência dela. Mais uma vez, dirigiu-se aos Padres Beneditinos e obteve a transferência de Clara para o mosteiro de Santo Ângelo de Panzo.

Finalmente um pouco de paz! – Na quietude e no silencio do mosteiro de Santo Ângelo, Clara pôde revigorar o seu ideal de vida.

Apegava-se cuidadosamente às prescrições da Regra de São Bento, que possui como fundamento: “Ora et Labora”! Com isso, Clara não pretendia, certamente, abraçar a Regra de São Be nto. Não teria tido sentido sua fuga para a Porciúncula, durante a noite, seu total abandono a Deus para além de qualquer estrutura, a exemplo de Francisco.

No mosteiro de Santo Ângelo, Clara viveu por algumas semanas. Foram para ela dias de serenidade e de alegria indescritíveis.

A alegria de Clara estava toda no sentir-se amada e protegida pelo Senhor, como mesmo amor com que uma mãe protege sua filhinha.

A fuga de casa lhe havia fechado o mundo às costas para abrir-lhe um umbral do mistério de Deus. Sua vida, agora, havia se transformado em um arco-íris de oração e contemplação: em um agradecimento alegre e infantil.

Fugira de casa em uma noite de primavera, para abraçar o ideal de total pobreza, e encontrara a verdadeira liberdade, a perfeita alegria. Havia atingido o seu sonho.

Encontra-se com sua irmã Inês

Clara sentia a necessidade de externar sua ardente experiência mística. Quase todos os dias, sua irmã Inês ia visitá-la: era uma jovem belíssima, de somente quinze anos, de grande sensibilidade para com o sobrenatural. Depois da fuga de Clara, os familiares haviam depositado nela sua esperança.

“Cara Inês — confiava-lhe a irmã — lembra-te: é preferível viver um só dia na casa do Senhor, que mil dias fora dela. A juventude é vento que passa. A beleza se desvanece como a fumaça. A vida termina e aqui não fica nada.

“Oh! minha irmã, se tu pudesses provar a doçura do amor do Senhor! E um amor sempre jovem, que ninguém nos pode arrebatar!”

domingo, 7 de agosto de 2016

Franciscanos do dia - 07/08 - Bem-aventurados Agatángel de Vendome e Cassiano de Nantes



Sacerdotes e mártires da Primeira Ordem (+1638). Beatificados por São Pio X no dia 1º de janeiro de 1905.

O bem-aventurado Agatângelo Noury nasceu em Vendôme, na província de Tours, na França, aos 31 de julho de 1598. Conheceu os Capuchinhos, que tinham chegado, havia pouco tempo, à sua terra natal, onde o seu pai era presidente do tribunal e, ao mesmo tempo, administrador do Convento. Ainda jovem, mostrou ter vocação religiosa e foi recebido na Ordem dos Capuchinhos. Em 1620, fez a profissão religiosa. Depois, prosseguiu os estudos de humanidades, filosofia e teologia e foi ordenado sacerdote.

Nos seus primeiros anos de sacerdote encontrou-se com o Padre José Leclerc, famoso conselheiro do Cardeal Richelieu, que tinha projetado grande plano de evangelização. Agatângelo foi escolhido como candidato para a Missão da Síria. Chegou a Aleppo em 1629. Ali encontrou muçulmanos, grego-ortodoxos, armênios e, em número muito reduzido, alguns católicos. Com obras de beneficência, encontros familiares e catequese elementar, conseguiu bom resultado no seu apostolado, combatido, bem depressa, pela inveja.

Passou depois para a missão do Cairo, na qualidade de Superior. Aqui trabalhou com muita alegria para a união dos Coptas com a Igreja Católica. Destinado pela Providência a abrir o campo missionário a outros, a 27 de setembro, a Sagrada Congregação confiou-lhe a responsabilidade do grupo missionário destinado à Etiópia, composto por mais três sacerdotes capuchinhos: o Beato Cassiano de Nantes, Bento e Agatângelo Noury de Vendôme.

Os quatros missionários dividiram-se em dois grupos. Agatângelo e Cassiano, quando chegaram à fronteira da Etiópia, foram descobertos e encarcerados em Débora, com o pretexto de serem espiões e opositores do imperador e do bispo Abissino Malaro. No processo, dominado pelo sectarismo religioso e pela perfídia do pseudônimo Pedro Leão, inimigo declarado de Agatângelo, os dois missionários foram condenados à morte.
Os dois humildes filhos de São Francisco não perderam a calma. Mostraram os documentos do Patriarca Copta de Alexandria. Poucos dias depois, foram levados para Gondar, de mãos algemadas com cadeias e amarrados à cauda de um cavalo. Em Gondar, foi dura e penosa a sua prisão.

Abuna Macário, fingindo-se amigo do beato Agatângelo e o luterano, Pedro Leão, que se fizera hipocritamente monge Copta, forçaram, com acusações e calúnias junto da corte imperial, a morte dos pobres e doentes missionários. Levados à presença do imperador, foram examinados na sua fé. O beato Agatângelo respondeu: “Estou pronto a morrer pela fé e nunca a renegarei”.
A 7 de agosto de 1638, em Gondar, exposto ao escárnio da multidão, foi suspenso em cordas e apedrejado barbaramente pelo furor da multidão. Tinha 40 anos de idade. Foi beatificado a 1º de janeiro de 1905 pelo Papa Pio X.

Beato Cassiano (1607-1638)
O beato CASSIANO LOPEZ NETO, nasceu em Nantes, aos 15 de janeiro de 1607, no seio de família portuguesa. Tinha feitio dócil, inclinado às práticas de devoção e fervor religioso admirável.

Aos 17 anos foi recebido na Ordem dos Capuchinhos da Província de Paris. Fez a profissão religiosa em 1624. Concluiu os estudos teológicos em Rennes onde foi ordenado sacerdote. Aqui passou os primeiros anos do seu sacerdócio, socorrendo as pessoas atingidas pela peste que devastou a França em 1631. Pediu para ser enviado para as Missões.
Os Superiores destinaram-no à Missão da Etiópia. No Cairo, encontrou-se com o beato Agatângelo e com ele partilhou preocupações e sofrimentos apostólicos. Dotado de temperamento franco, aberto, muito sensível aos sofrimentos dos outros, entregou-se ao apostolado, cultivando sobretudo especial devoção a Nossa Senhora,a quem rezava todos os dias o Rosário com o ofício divino.

Desde o seu encontro com o beato Agatângelo até à sua heróica morte, os dois capuchinhos trabalharam juntos no Cairo, durante três anos, cuidando, especialmente, da conversão dos Coptas. Estenderam a sua atividade até aos longínquos mosteiros de Santo Antão Abade e de A. Macário, no Nitra.
Na Etiópia, a Igreja Católica tinha conseguido extraordinário desenvolvimento que culminou na conversão do próprio imperador através dos missionários jesuítas. A fé de Roma expandiu-se também sob o governo de Seitan Sagad I. Conseguiram grandes conversões que foram quase destruídas por Atiè Fassil, cuja palavra de ordem era: “Antes súbditos de Meca dos muçulmanos do que da Roma dos católicos”.
Os dois missionários decidiram, por isso, levar a sua ajuda a tantos irmãos na fé, perseguidos por aquele ímpio imperador. Obtiveram documentos do Patriarca Copta de Alexandria e, a 23 de dezembro de 1637, partiram para a Etiópia. A viagem durou três meses. Chegados às fronteiras da Etiópia foram metidos na prisão pelo Governador de Deboroa.

No processo, os dois missionários católicos foram condenados à morte como violadores das ordens do imperador, que proibia os católicos de entrarem na Etiópia. Beato Cassiano sofreu o martírio, como o Beato Agatângelo, a 7 de agosto de 1638, com 31 anos de idade. No dia 1º de janeiro de 1905 foi beatificado pelo Papa Pio X.

ORAÇÃO – Senhor, Pai Santo, que destes aos mártires Agatângelo e Cassiano a graça de combater o bom combate até dar a vida pela fé, concedei que a sua intercessão nos ajude a suportar todas as adversidades e a caminhar decididamente para vós, que sois a fonte da verdadeira vida. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Artigo - O Senhor é refúgio e abrigo



Reflexão de Frei Almir Guimarães para a primeira sexta-feira do mês. 

1. Mais uma vez, neste começo de mês, postamo-nos respeitosa e contemplativamente diante do mistério do Coração humano de Deus, do Coração de Jesus, fissurado pela lança do soldado e vertendo água e sangue. Sentimentos de gratidão tomam conta de nós, sobretudo quando pensamos palavras do Senhor: “Isto é meu corpo que é dado por vós”. Temos sempre diante dos olhos esse abaixamento de Deus que, sendo de condição divina, não hesitou em tornar-se servo e, em extremo gesto de generosidade, dá a vida, aceita a morte para dar vida ao nosso viver. Sentimentos de contemplação se misturam com súplicas de socorro e vontade de dizer ao mundo inteiro, com Francisco de Assis, que o Amor precisa ser amado.

2. Nesse momento chega à nossa mente uma breve palavra de um salmo: “Para mim, o Senhor, com certeza, é refúgio, é abrigo, é rochedo” (Sl 93(94), 22). Pensamos na cena do final do Calvário. Jesus já está morto. O soldado toca-lhe o peito com uma lança. Faz uma janela, uma brecha, uma fenda. Contemplamos tudo com toda humildade, ou seja, sem as sandálias nos pés. Somos discípulos do Senhor. Na caminhada da vida nem sempre conseguimos viver em uníssono com as batidas do coração do Senhor. Vivemos num mundo à parte. Aos poucos, o rosto do Senhor vai se tornando difuso, impreciso. Experimentamos muita sorte de águas não tão puras e percorremos caminhos que nos levam a impasses: no casamento, na vida consagrada, na família, na convivência com as pessoas sentimo-nos perdidos. Momentos há em que uma tentação nos persegue. Caímos e levantamo-nos. Aos poucos, o desalento toma conta de nós. A recitação do salmo nos faz ganhar novo alento. Três palavras: o Senhor é refúgio, abrigo e rochedo. Refúgio nas tempestades e relâmpagos, quando circunstancias fazem com que sejamos incompreendidos. Abrigo quando temos as roupas ensopadas da chuva ou molhadas com o suor. Rochedo, certeza de que nos ama e quer mostrar até onde vai seu amor. “Não existe maior amoro do que dar a vida pelos seus”.

3. De repente, palavras da Imitação de Cristo (sec. XV) ajudam-nos nessa oração contemplativa:

• Volta ao Senhor de todo o teu coração, deixa este mundo miserável e tua alma encontrará repouso. Pois o reino de Deus é paz e alegria no Espírito Santo. Cristo virá a ti, trazendo-te sua consolação, se no íntimo lhe preparares uma digna morada. Toda a sua glória e beleza está no interior. Palavras mansas, agradável consolo, grande paz, maravilhosa intimidade.

• Dá lugar a Cristo. Se possuíres Cristo, serás rico e isto te bastará. Ele cuidará de ti e será teu fiel procurador em todas as coisas e não precisarás depender dos homens.

• Não tens aqui cidade permanente e onde quer que estejas serás estrangeiro e peregrino, não encontrando descanso a não ser quando fordes intimamente unido a Cristo.

• Teus pensamentos se fixem no Altíssimo e tua súplica sem cessar se dirija a Cristo. Se não sabes meditar sobre as coisas profundas e celestes, repousa na paixão de Cristo e demora-te com gosto em suas chagas. Suporta-te a ti mesmo com Cristo e por Cristo se queres reinar com Cristo.

Frei Almir Guimarães, OFM

[Obs. Texto da Imitação de Cristo, em Liturgia das Horas III, p.476-477]

Franciscano do dia - 05/08 - Bem-aventurado Federico Janssoone

Missionário sacerdote da Primeira Ordem (1838-1916). Beatificado por São João Paulo II no dia 25 de setembro de 1988.
Federico Janssoone é uma personalidade fora do comum. Ele se comprometeu totalmente ao Evangelho na fidelidade ao carisma franciscano. Foi todo de Deus e todo do próximo, desenvolvendo seu ministério em três áreas: em sua terra natal, França; na Terra Santa, em Belém, onde no lugar do berço de Jesus construiu a Basílica de Santa Catarina; e Canadá, a sua segunda terra natal, onde foi restaurador e promotor da Ordem Franciscana.
Foi comparado a São Francisco pela austeridade de sua vida, sua extrema pobreza, o seu zelo apostólico, os milagres de conversões de pessoas a quem ele conduziu definitivamente a Cristo, e sua assiduidade na oração, mantendo-o sempre unido ao Senhor.
São numerosas suas realizações, projeção de sua fé e de seu carisma sacerdotal. Entre elas estão o Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Cap La Madeleine, convertido no templo de adoração perpétua de Quebec; as monumentais Via-Sacras, erguidas por ele em vários lugares, a promoção da Ordem Franciscana Secular, divulgação e aumento da a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, de Maria, e São José e especialmente à Eucaristia com a Santa Missa e Adoração Eucarística.
Federico nasceu em Ghuvelde, diocese de Lille, França, em 19 de outubro de 1838, filho de Pedro e Maria Isabel Bollenger, de boas condições econômicas e de sólida fé cristã. Com 14 anos recebeu a Primeira Comunhão, após longa preparação. Realizou brilhantemente os estudos de ginásio e liceu. Sentindo-se chamado ao sacerdócio entrou para o seminário. Após a morte de seu pai, a família chamou-o para casa por causa de dificuldades econômicas. Por algum tempo, ele foi vendedor de tecidos, de cidade em cidade.


Em 1861, ao ficar órfão de mãe com a idade de 26 anos, entrou no noviciado dos Frades Menores, em Amiens, comprometendo-se a observar o Evangelho e a Regra franciscana. Em 7 de agosto de 1870 foi ordenado sacerdote. Primeiro foi um capelão militar durante a guerra entre a França e a Alemanha. Ele foi enviado para Bordeaux para fundar e dirigir um novo convento ali. Ele foi levado mais tarde para Paris, para assistir ao trabalho da Terra Santa, cujos santuários são confiados aos Franciscanos. Em 1876, ele foi para a terra de Jesus. Na Palestina, permaneceu até 1881 com o cargo de vigário da Custódia Franciscana. Depois ele foi enviado para o Canadá, onde se estabeleceu em Trois-Rivières. Em 4 de agosto de 1916, a irmã morte veio buscar seu espírito para levá-lo à visão radiante de Deus. Ele tinha 78 anos.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Franciscano do dia - 03/08- Bem-aventurado João Santiago Fernández


Religioso e mártir da Primeira Ordem (1808-1860). Beatificado por Pio XI no dia 10 de outubro de 1926.

João Santiago Fernandez nasceu na Galícia (Espanha), filho de Benito e Maria Fernandez, em 25 de julho de 1808, o dia dedicado a São Tiago, padroeiro da Espanha. Passou sua infância e juventude no temor de Deus, dedicado ao estudo e, em seguida, ao trabalho manual. Ele tinha 22 anos quando, depois de ter conhecido o mundo, tomou o hábito dos Frades Menores. Depois do noviciado, fez a profissão religiosa de lutar pela perfeição seráfica. Eram anos difíceis para as ordens religiosas; muitos conventos foram fechados e os religiosos devolvidos ao mundo. João Santiago manteve sua vocação franciscana íntegra, mas convencido de que não é o hábito que faz o monge.
Em 1859, ele solicitou e obteve permissão para ir como missionário à Palestina. Depois de apenas 16 meses sacrificaram suas vidas para o Senhor no convento de Damasco. Em 1860, a Síria sofreu um massacre terrível nas mãos dos drusos, que viviam no Líbano, e que destruíram aldeias e campos e vinhas e mataram todos os cristãos, que eram cerca de seis mil, sem mesmo poupar as crianças. Em Damasco, junto com os muçulmanos, os drusos encheram de sangue e fogo as igrejas e casas dos católicos.
Entre os muitos mártires, sete foram franciscanos do convento de Damasco, que morreram heroicamente com seu guardião Manoel Ruiz Santíssima, tendo confiado a Maria e alimentados com o pão dos fortes, na noite entre 9 e 10 de julho de 1860.
João Santiago, juntamente com o confrade Francisco Pinazzo, tinha procurado refúgio no campanário, mas foram descobertos pelos drusos, que escalaram a torre do sino. Sob as ordens para abandonar a fé e tornarem-se muçulmanos, eles disseram: “Temos uma só alma e nunca a perderemos negando nossa fé. Somos cristãos e religiosos franciscanos e, como tais, queremos viver e morrer”. A tão heroica resposta agrediu com golpes de martelo, quebrando sua espinha dorsal e, em seguida, atirou-o para o quintal. Ele sobreviveu até a manhã em meio a um sofrimento incalculável. Quando passou por ele um turco e percebeu que o frade ainda estava vivo, agonizante com os membros quebrados e banhados em seu sangue, ele o matou com sua cimitarra.
Então, João Santiago Fernandez, a última vítima, alcançou o céu junto a seus irmãos que já estavam na glória de Deus. Toda a Fraternidade de Damasco havia sido imolada pela fé. A Custódia Franciscana da Terra Santa escrevia com caracteres de ouro uma nova página de sangue e de triunfos.

Fonte: “Santos Franciscanos para cada dia”, Ed. Porziuncola.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Especial - Nossa Senhora dos Anjos da Porciúncula: Jubileu do 8º centenário do Perdão de Assis


Documento que comprova a veracidade da Indulgência da Porciúncula


Carta do Bispo Teobaldo de Assis; Documento que comprova a veracidade da Indulgência da Porciúncula ou Perdão de Assis.
Celebrada sempre no dia 2 de agosto de cada ano.

Aqui se propõe o texto completo do documento traduzido a partir da recente edição paleográfica feita sob os cuidados de Stefano Brufani a partir do original, onde ainda se conserva pendente o selo de cera; documento esse conservado no arquivo público do Estado de Perugia, Corporações religiosas supressas, São Francisco ao Prado, pergaminho 56 (1310, agosto, 10), descoberto em 1964 por Roberto Abbondanza. Segue o documento:

“Irmão Teobaldo, por graça de Deus, Bispo de Assis, aos fiéis cristãos que lerem esta carta, saúde no Salvador de todos.

Por causa de alguns faladores que, impelidos pela inveja, ou talvez pela ignorância, impugnam desaforadamente a indulgência de Santa Maria dos Anjos, situada perto de Assis, somos obrigados a fazer esta comunicação a todos os fiéis cristãos. Através da presente carta, queremos comunicar o modo e a forma desse benefício e como o bem-aventurado Francisco, enquanto estava vivo, o impetrou ao senhor papa Honório.

Morando, o bem-aventurado Francisco, junto à Santa Maria dos Anjos da Porciúncula, o Senhor, durante a noite, lhe revelou que se dirigisse ao sumo Pontífice, o senhor Honório, que temporariamente se encontrava em Perugia. A finalidade era impetrar-lhe a indulgência para a mesma igreja de Santa Maria da Porciúncula, há pouco restaurada por ele mesmo. Francisco, levantando-se, de manhã, chamou frei Masseo de Marignano, companheiro seu, com o qual morava, e se apresentou diante do mencionado senhor Honório, e disse:

– Santo Padre, há pouco acabei de restaurar para o senhor uma igreja dedicada à Virgem Mãe de Cristo. Suplico à vossa Santidade que a enriqueçais com uma indulgência, mas, sem a necessidade de nenhuma oferta em dinheiro.

O Papa respondeu-lhe:

– Não convém fazer uma coisa dessas. Pois, quem pede uma indulgência precisa que a mereça dando uma mão. Mas, diz-me para quantos anos você a quer, e quanta indulgência lhe deva conceder.

São Francisco replicou-lhe:

– Santo Padre, sua santidade queira-me dar não anos, mas, almas.

E o senhor Papa respondeu:

– De que modo quer almas?

E o bem-aventurado Francisco declarou:

– Santo Padre, se aprouver à sua santidade, quero que todos quantos se achegarem a essa igreja, confessados e arrependidos e, como convém, absolvidos pelo sacerdote, se tornem libertados da pena e da culpa, no céu e na terra, desde o dia do Batismo até o dia e a hora de sua entrada na mencionada igreja.

O santo Padre acrescentou:

– Isso que pede, Francisco, é muito. E não é costume da Cúria romana conceder semelhante indulgência.

Então, o bem-aventurado Francisco respondeu:

– Senhor, não estou pedindo isto a partir de mim, mas, a partir daquele que me mandou, o Senhor Jesus Cristo.

Diante desse argumento, o senhor Papa concluiu imediatamente, dizendo por três vezes:

– Agrada-me que tenhas essa indulgência.

Os senhores Cardeais presentes, porém, intervieram:

– Vê, se o senhor der essa indulgência, estará destruindo a indulgência do além mar, bem como, virá destruída e considerada nula aquela dos Apóstolos Pedro e Paulo.

O senhor Papa respondeu:

– Agora já a damos e a concedemos; não podemos e nem convém que se destrua o que foi feito. Mas, a modificaremos, de modo que fique limitada apenas para um dia.

Então, chamou São Francisco e disse-lhe:

– Portanto, de hoje em diante, concedemos que, qualquer um que for e entrar na mencionada igreja, bem confessado e contrito, será absolvido da pena e da culpa; e queremos que isso valha todos os anos por somente um dia, das primeiras vésperas até o dia seguinte.

O bem-aventurado Francisco, de cabeça inclinada, começou a retirar-se do palácio. O senhor Papa, então, como o visse saindo, chamou-o dizendo-lhe:

– Ó, simplesinho, aonde vai? Que documento leva desta indulgência?

Respondeu Francisco:

– A mim basta sua palavra. Se for obra de Deus, Deus mesmo deverá manifestá-la. Não quero nenhum outro documento desse privilégio senão este: que a carta seja a bem-aventurada Virgem Maria, o notário Jesus Cristo e os anjos as testemunhas.

Depois disso, Francisco, deixando Perugia, retornou a Assis. No caminho repousou um pouco, juntamente com seu companheiro, num lugar chamado Colle, onde havia um hospital de leprosos, e lá passou a noite. De manhã, acordado e feita a oração, chamou o companheiro e disse-lhe:

– Frei Masseo, digo-lhe, da parte de Deus, que a indulgência a mim concedida através do sumo pontífice está confirmada pelo céu.

Tudo isso foi contado por frei Marino, sobrinho do mencionado frei Masseo, que frequentemente o ouviu da boca do tio. Esse frei Marino, ultimamente, perto do ano de 1307, repleto de dias e de santidade, repousou no Senhor.

Depois da morte do bem-aventurado Francisco, frei Leão, um dos seus companheiros, homem de vida integralíssima, passou adiante esse fato, assim como o havia recebido da boca de São Francisco; e assim, também, frei Benedito de Arezzo, um dos companheiros de São Francisco, e frei Rainério de Arezzo contaram, tanto para os frades como para os seculares, muitas coisas referentes a essa indulgência, como as tinham ouvido do mencionado frei Masseo. Muitos desses ainda estão vivos e confirmam todas essas notícias.

Não pretendemos, pois, escrever com que solenidade essa indulgência foi tornada pública, durante a consagração da mesma igreja efetuada por sete Bispos. Vamos tão somente referir aquilo que Pedro Zalfani, presente à cerimônia, falou diante do Ministro frei Ângelo, diante de frei Bonifácio, frei Guido, frei Bartolo de Perugia, e outros frades do lugar da Porciúncula. Contou ele que esteve presente à consagração da mencionada igreja no dia 2 de Agosto, e ouviu o bem-aventurado Francisco que pregava diante daqueles Bispos segurando na mão um documento, e dizia:

– Quero mandar-vos todos para o céu. Anuncio-vos a indulgência que recebi da boca do sumo pontífice: todos vós que hoje vindes e todos aqueles que virão cada ano, neste dia, com um coração bom e contrito, obterão a indulgência de todos os seus pecados.

Fizemos essas considerações acerca da indulgência por causa daqueles que a ignoram. Assim não podem mais usar como desculpa a ignorância. E, acima de tudo, o fazemos por causa dos invejosos e faladores. Estes, em alguns lugares, procuram destruir, suprimir e condenar aquilo que, toda a Itália, a França, a Espanha e outras províncias, tanto de cá como de lá dos montes, ou melhor, o próprio Deus, em reverência à sua santíssima Mãe (pois, como se sabe, a indulgência é dela), quase todos os dias, vem revelando, engrandecendo, glorificando e espalhando com frequentes e manifestos milagres.

Como ousarão invalidar, com suas funestas persuasões, aquilo que já há tanto tempo, diante da Cúria romana, permaneceu com toda sua validade? Pois, também em nosso tempo, o próprio senhor Papa Bonifácio VIII enviou para essa igrejinha seus magníficos embaixadores para que, por sua vez, no dia da indulgência, nos pregassem com toda a solenidade. Às vezes, enviou até Cardeais. Vindos pessoalmente para celebrar a indulgência e, na esperança de receber o perdão, a aprovaram como verdadeira e certa com sua própria presença.

Diante do testemunho de todas essas coisas, e na fé mais certa, assinalamos a presente carta com nosso selo.

Dada em Assis, na festa de São Lourenço, no ano do Senhor de 1310”.

Franciscano do dia - 01/08 - Bem-aventurado Francisco Pinazo


Religioso e mártir da Primeira Ordem (1812-1860). Beatificado por Pio XI no dia 10 de outubro de 1926.

Francisco Pinazo nasceu em Alpuente, província de Valência, Espanha, em 24 de agosto de 1812, de pais pobres mas ricos em fé. Ele passou sua juventude nos campos e bosques pastoreando rebanhos. Seguindo o exemplo de São Pascoal Bailão, São Salvador de Horta, São Carlos de Sezze e muitos outros que entregaram sua vida a Deus, desde o grande livro da criação.
Com doze anos, seu pai morreu, e a mãe, por necessidade familiar, se casou pela segunda vez. Felizmente, Francisco teve um novo pai, religioso e cordial. Aos 20 anos, decidiu renunciar ao mundo para se dedicar a Deus.

No convento de Huelva tomou o hábito da Ordem dos Frades Menores como um irmão leigo. Durante 13 anos, ele desfrutou de uma grande paz com seus confrades. Um dos trabalhos que desempenhou foi o de sacristão no mosteiro de Gandia. Em 1843, ele obteve permissão para ir como missionário para o Oriente. Na Palestina, passou 17 anos em vários santuários, como Aim Karem, Haifa, Nazaré, Nicósia, em Chipre e, finalmente, em Damasco.

Até que um dia sofreram o martírio. Ele e seu confrade João Santiago Fernandez foram perseguidos pelos muçulmanos e, no momento de perigo, procuraram refúgio no campanário da igreja. Foram encontrados pelos perseguidores, que não tiveram piedade nem quando eles se ajoelharam em oração, com as mãos levantadas para o céu. Os muçulmanos quebraram suas colunas vertebrais com golpes fortíssimos e os jogaram do campanário para o pátio. Os corpos permaneceram no solo, como objetos de desprezo pela multidão, cheia de ódio contra os cristãos mártires.

O apostolado franciscano cresceu muito ao redor do convento franciscano, em Damasco, e outros massacres teriam acontecido se em favor dos cristãos não tivesse intervindo o mesmo Emir Abd-el-Kader. Embora muçulmano, ele apreciava o trabalho dos missionários franciscanos e estava muito triste por não poder impedir a matança de 10 de Julho.
Reconhecendo sua boa fé, o francês Lavigerie, alguns meses depois, foi visitar Emir e deu-lhe estas palavras: “O Deus que eu sirvo é o mesmo, sem dúvida, do seu Alá, que tem inspirado tanta devoção e generosidade”. Palavras que hoje, depois do Vaticano II, tornaram-se mais claras, mas que a Igreja nunca deixou de proclamar, especialmente com o sangue de seus mártires. Francisco tinha 48 anos.