sexta-feira, 17 de março de 2017

OFS: Uma formação que motive e acenda a chama.



Ordem Franciscana Secular
Capítulo Ordinário Avaliativo
Campo Largo, PR
17 a 19 de março de 2017
Tema: “Franciscano secular: revisitar o seu interior em vista da missão”
Lema: “Uma formação que motive e acenda a chama”

FORMAÇÃO NA ORDEM FRANCISCANA SECULAR
O que é, objetivos e desafios
Os franciscanos seculares do Brasil se reúnem em Campo Limpo (PR) para a realização de capitulo avaliativo. O lema escolhido propõe que aos seculares seja oferecida uma formação que motivadora do ser gente, ser cristão, ser franciscano. Sugere que tal formação acenda uma chama nova.

Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM, Assistente nacional pelos Menores

 A pessoa necessita de um solo vital sobre o qual possa construir com coerência seu próprio relato, assentar suas fidelidades e compromissos pessoais. Sem isso sua biografia se resume num somatório de acontecimentos pessoais desconexos e soltos. Fundar a pessoa, ajudá-la a conseguir esse solo pessoal, deve ser o grande objetivo dos processos educativos.

Patxi Álvares de los Mozos, SJ


1. Em sua origem a palavra “formar” significa dar uma forma, esculpir alguma coisa segundo um modelo preestabelecido. Os objetos copiados de um mesmo modelo são iguais uns aos outros. As coisas se passam diferentemente quando se trata de pessoas. Não fazemos clones. Cada pessoa é única em seu patrimônio genético, em sua história, a partir das experiências vividas ao longo da vida, história única aos olhos de Deus. Formar uma pessoa significa, antes de tudo, acompanhar seu crescimento humano e, em nosso caso, cristão e franciscano. A formação demanda tempo. Se queimamos etapas o fruto não amadurece. A formação propõe ao formando instrumentos que permitam seu crescimento. Evidentemente a formação é transmissão de conhecimentos, mas ela passa também pela vida. Trata-se de partilhar experiências e viver ou vivenciar encontros. Uma iniciação na oração será fundamental para que tudo seja interiorizado, assimilado. Assim, o processo formativo da pessoa, do cristão e do franciscano é complexo e leva tempo para atingir seu objetivo. Não se resume às tinturas apenas na formação inicial. Deus continua agindo nas pessoas ao longo de sua vida e será preciso vigilância. Daí a importância de uma formação ininterrupta.

2. Será que se pode definir a formação cristã? Trata-se do conjunto de elementos usados para que a pessoas façam aflorar as riquezas pessoais que a vida lhes deu, que venham a fazer um encontro pessoal com o Deus vivo e seu Cristo, que entrem num processo de conversão e de adesão ao espírito do Evangelho. Formação tem a ver com evangelização da pessoa, catequese, acompanhamento espiritual, convite à leitura, iniciação na meditação, capacidade de superar o negativo da vida e respirar, no dia a dia, o espírito do Evangelho. A formação faz com que a pessoa viva o presente com os olhos fitos naquilo que ainda não conseguiu. Leva a tornar a pessoa madura e o cristão, um santo.

3. A formação é um processo que dura a vida toda. É obra que precisa sempre ser retomada. Tem tudo a ver com uma educação permanente. Leva a pessoa a se confrontar com sua verdade pessoal, detectar entraves e curar feridas do passado. Mostra caminhos que levam a uma plena realização do educando como pessoa, dono de sua história, como discípulo do Ressuscitado, como seguidor do jeito de viver de Francisco e suscita o desejo ou a urgência de ser sal da terra, luz do mundo e fermento na massa. A formação nada tem a ver com o incentivo de devocionalismos laterais. Ela será marcadamente cristocêntrica. Formar uma pessoa, no caso de um franciscano secular, é acompanhá-la em seu crescimento humano, espiritual e franciscano. A formação comporta ensino, partilha e oração.

4. Lembramos alguns dos agentes de formação. O primeiro deles é o próprio formando. Os irmãos precisarão ficar atentos à ação do Espírito em sua vida pessoal, na Igreja e na fraternidade. Cada irmão é o primeiro formador de si mesmo. Trata-se de tomar a decisão de caminhar na trilha cristã-franciscana. Leitura, fidelidade aos encontros da fraternidade, busca de orientação pessoal e mesmo de uma direção espiritual. Há o formador e sua equipe. Não é aqui o lugar de traçar demoradamente do perfil do formador: seriedade, competência, vigilância, saber escutar, corrigir fraternalmente… Formadora é a fraternidade com o conjunto dos irmãos que dão o testemunho de busca da santidade. O formando haverá de fazer constantes revisões de vida para ter a certeza de não perder tempo. Formador ainda é o assistente espiritual.

5. Busca-se a formação cristã, segundo as orientações do Documento de Aparecida. Ali, com efeito, se insiste na formação do discípulo missionário: encontro pessoal e profundo com o Cristo ressuscitado; enveredar pela trilha da conversão (caminho penitencial franciscano); ter senso de Igreja; sair em missão. Os formadores franciscanos haverão de fazer de sorte que esses ensinamentos penetrem os irmãos. Não se trata apenas de um empenho a ser feito na formação inicial, mas em todo o tempo da vida (cf. Documento de Aparecida: O processo da formação do discípulo missionário, 276-285, particularmente 278).

6. Desnecessário dizer que vivemos um tempo de instabilidade e de mudanças profundas na sociedade, na Igreja e em nossa Ordem. Ninguém se forma de uma vez por todas. Estamos em estado de mudança e de permanente revisão da formação. Quais as configurações da Fraternidade Franciscana Secular amanhã? Hoje as coisas parecem ter o gosto do provisório. Precisamos aprender a viver na intempérie. José Arregui, OFM refletindo sobre a problemática da vida consagrada aponta para situações que também vivem os seculares. Nosso destino nestes tempos fragilizados de transição e de incerteza é aprender a viver a espiritualidade do êxodo e da intempérie. Nossa atitude de base é de sofrer a incerteza, perseverar na insegurança. Sinal de maturidade é que aprendamos a suportar a perplexidade, sem adotarmos posição de defesa, nem incorrer na resignação e na amargura. É sadio aprender a viver na intempérie, na incerteza sem ceticismo ou desespero. É sinal de maturidade desaprender muitas coisas, deixar cair o que não tem futuro e não ficar aferrados ao passado. É sadio viver abertos e orientados para o futuro de Deus no mundo, na Igreja, na vida consagrada. É sadio, sobretudo, reaprender a simplicidade da confiança simples, a esperança desnudada (cf. José Arregui, OFM, Ante el futuro de la vida religiosa, in Lumen (Espanha), 2001, p. 201-202. Não existe festa de formatura nem diploma para aqueles que fizeram parte da caminhada da formação. Tudo precisa ser refeito. Necessário seguir em frente. Uma palavra forte: coragem. Uma preocupação: procurar águas mais profundas. Nada de mediocridade e superficialidade. Quais as características da Ordem nos próximos anos? Para onde os ventos sopram?

7. Vivemos numa sociedade movediça, que duvida de tudo e de si mesma, que tem visão “desencantada” do mundo, exprimindo muitas vezes indiferença para todos e para com tudo. Vale tudo. As pessoas empurram as coisas para frente sem muita convicção do que estão fazendo. Será preciso ter confiança no futuro. Os cristãos se contentam com certo verniz de religiosidade. Será fundamental descobrir a própria intimidade. As pessoas estão por demais derramadas no exterior. Há perguntas que precisam ser respondidas: Quem sou eu? A quem pertenço? A quem devo satisfações? O que devo ‘perseguir’ em minha vida? O que significa, efetivamente, ser franciscano secular? Fala-se de uma desorientação identitária. Não existimos para sustentar instituições. Um autor escreve: A busca da própria identidade se converteu em nossos dias, talvez, na tarefa vitalmente mais relevante para a qual, no entanto, não nos sentimos preparados. A palavra é personalização. Levar as convicções ao interior. Na formação se busca levar a processos de interiorização que permitam entrar dentro da própria pessoa e extrair dali o fonte de seu ser. Por meio da interiorização se gera e se robustece a pessoa em bases próprias. Esse processo exige ferramentas básicas imprescindíveis: conhecimento e manejo dos próprios sentimentos, certo grau de contemplação, capacidade de conviver consigo mesmo, cultivo da dimensão do silêncio. A fundação da pessoa é feita de pequenos compromissos que devem desembocar num compromisso vital que leva a uma projeto de vida que, por sua vez, leva à identidade. O primeiro e fundamental dos compromissos é ser cristão.

8. Faz parte da formação uma vivência e prática da oração pessoal de intimidade com o Senhor e uma consciente prática da vida litúrgica. Nutriremos uma paixão esponsal pelo Senhor: oração sólida e suculenta, contato carinhoso com a Palavra do Senhor, sentir a presença do Senhor quando dois ou três estão reunidos em seu nome, descoberta de mestres de oração, retiros que sejam acontecimentos espirituais, familiaridade com os salmos, descoberta da meditação. Necessário que os formandos instaurem o costume da leitura espiritual da vida e de um regular exame de consciência. Até que ponto podemos ajudar os formandos a fazerem uma verdadeira experiência de Deus? Neste contexto de iniciação à oração se deveria destacar elementos da vida e da caminhada de Clara. No final da formação inicial os formandos deveriam ter adquirido gosto pela vivência do tempo litúrgico.

9. Tentemos aqui fazer um elenco sumário de valores humanos: maturidade, coragem, clara noção do que vem a ser assumir um compromisso, superar o universo dos melindres e susceptibilidades, capacidade de conviver com o diferente, capacidade de olhar o que se passa à sua volta, senso de admiração diante das coisas e das pessoas.

10. A formação franciscana vai na linha da impregnação dos valores que marcaram Francisco e Clara:



• postura de simplicidade;
• vida despojada;
• sensibilidade para com o fraterno: amar o irmão como uma mãe ama seu filho;
• não querer sobrepor-se aos outros;
• não apagar a ação do Espírito;
• trabalhar e agir sem perder o espírito da santa oração;
• ir pelo mundo e, ao mesmo tempo, ter saudade do eremo;
• exercitar-se na práxis da desapropriação;
• saber extasiar-se diante de coisas simples: a beleza da natureza, a graça de uma criança;
• saber levar as coisas até o fundo do coração;
• saber que estamos convidados a restaurar a Igreja.

11. Queremos aprender a ser irmãos. “A vocação franciscana é um chamamento para se viver o Evangelho na Fraternidade e no mundo (…). A vida fraterna é resultado de um testemunho humilde e simples; depende da disponibilidade pessoal de morrer como o grão de trigo; é a protelação nunca definitivamente atingida, de um constante heroísmo cotidiano. A vida fraterna se realiza quando deixamos de ser indivíduos e passamos a ser pessoas, ou seja, quando se entra em relação, porque a pessoa nasce e se desenvolve nos relacionamentos, na consciência do próprio valor e no valor dos outros, na reciprocidade do dar e receber, no ter cuidados e no confiar-se, na partilha e na gratidão. A identidade pessoal se adquire nos relacionamentos fraternos. À luz destas perspectivas fundamentais se compreende como, para quem quer fazer parte da Ordem Franciscana Secular, a Fraternidade é um dom que deriva da Profissão, de viver com particular atenção, porque os recíprocos relacionamentos de comunhão tornam-se lugar da própria santificação e do testemunho do amor de Deus que revelado e dado em Cristo. Assim, a Fraternidade se torna indiscutível missão. Portanto, como profissionais da paz e do bem, os Irmãos e Irmãs da Penitência vivem no mundo como fermento evangélico, de modo que os homens, vendo sua vida fraterna vivida no espírito das bem-aventuranças tomem consciência de que já começou em seu meio o Reino de Deus” (Manual para Assistência à Ordem Franciscana Secular e Juventude Franciscana, p. 89-92).

12. A formação, desde o começo, insistirá na formação do candidato na linha de um leigo maduro capaz de dar sua contribuição à missão da Igreja. Os franciscanos seculares são leigos com os quais a Igreja pode contar. Na medida do possível precisam organizar seu tempo que possam atuar, ir pelo mundo, ser Igreja em saída. Há tarefas nas paróquias: catequese, preparação dos moços para a crisma e para o casamento, assistência aos doentes e pastoral da esperança. Tem-se a impressão que há certos campos mais aptos para ação de leigos maduros: a própria família e a evangelização da família, educação, desenvolvimento da consciência política. Já no tempo da iniciação e da formação os candidatos são chamados, de alguma forma, a fazerem a experiências do leproso: visitas e certo convívio com os mais pobres, os doente, os presidiários, os rejeitados. Sem a experiência do leproso a formação ficava deficiente.

13. Nossas fraternidades viverão um clima de profunda alegria. A alegria forma: passa confiança, espanta o desânimo. Esta se manifestará na criação de um espaço de beleza-alegria para a realização de nossos encontros ( imagens e estampas, toalhas, tudo que serve ao altar). Haverá a alegria de jovens, de música, dos filhos e netos. Não haverá de esquecer o ensinamento da perfeita alegria.

14. Benedeto Lino: A formação que realiza um formador é transmissão viva de fé, da descoberta pessoal de Deus que nos transformou em novas criaturas, das verdades que nos abriram os olhos e deram sentido à nossa vida, experiência de viver com Cristo e de Cristo, a beleza de nossa vocação comum, ardor de querer realizar o projeto de Deus a nosso respeito. Ela não é de estilo acadêmico; não é cultura, mas cria. Não é constituída de conferências mais ou menos bem elaboradas, mas impessoais. Não consiste no papel de um manual nem nas luzes e movimentos de um audiovisual, nem é catequese embora a suponha.

15. Perfil do formador segundo um documento Potissimum institutioni (Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica): “Bom conhecimento da doutrina católica no que se refere à fé e aos costumes; capacidade humana de intuição e acolhida; experiência de Deus e da oração; sabedoria que seja resultado de atenta e prolongada escuta da Palavra de Deus; amor pela Liturgia e compreensão de seu papel na educação espiritual e eclesial; competência cultural necessária; disponibilidade de tempo e boa vontade para dedicar-se ao cuidado pessoal de cada candidato”.

Conclusão

Formador, equipe de formação, a própria fraternidade vivem estado de formação. José Antonio Merino fala de desafios que franciscanos e franciscanas deverão enfrentar:

• retorno a um Evangelho mais puro, levando em conta suas exigências, vivenciar a mensagem de Jesus Cristo, com coragem e alegria;
• estabelecer diálogo entre ateísmo e religião a partir da perspectiva franciscana;
• oferecer pressupostos para a justiça e paz sociais;
• relançar uma cultura e uma mística ecológicas;
• promover valores humanos que levem à ética da frugalidade.

Bibliografia de apoio:

• O que é a formação cristã, e em particular a formação para nós franciscanos seculares – Benedetto Lino, OFS, CIOFS
• Vocazione specifica per uma missione particolare, Benedetto Lino, OFS, CIOFS
• Qu’est-ce que la formation? Anne Mulqueen OFS e Marie-Odile Blanty, OFS, Curso do CIOFS

Especial São José - São José, entre a devoção e a liturgia



Frei José Ariovaldo da Silva

Dia 19 de março, a Igreja celebra solenemente São José, esposo da Virgem Maria.
Antes de tudo um esclarecimento. Ao falar aqui de «devoção», refiro-me ao aspecto histórico da devoção a São José, a saber, procurarei oferecer algumas informações históricas gerais sobre esta devoção, para então desembocarmos na liturgia atual da festa do santo patriarca, atendo-nos exclusivamente à missa do dia. Com isso, creio poder oferecer ao leitor (a) elementos suficientes para a reflexão e enriquecimento espiritual.

1. Devoção a São José. Informações históricas gerais

São José foi um personagem sempre conhecido dos cristãos, desde os primórdios da Igreja. Provam-no os relatos evangélicos, que falam de São José (cap. 1 e 2 de Mateus e LucasJ, e que, naturalmente, sempre foram lidos, meditados e comentados pelos seguidores do divino Mestre. No entanto, isto não significa que sempre houve uma devoção especial ou culto a São José. Não houve, principalmente na antiguidade cristã.

Só lá pelo século IV/V é que podemos perceber os primeiros indícios de uma veneração ao santo patriarca. É na piedade oriental que São José começa a ocupar um lugar de considerável relevância. Provam-no os sermões de São João Crisóstomo (+ 407), melhor ainda os sermões do diácono Santo Efrém (+ 373),  sobretudo a famosa “História de José o Carpinteiro” (apócrifo do Novo Testamento, cujas recensões mais antigas remontam ao século IV/V), que testemunham a presença de uma devoção viva a São José que chega a desabrochar em culto. Na verdade, pela documentação pode-se deduzir desta época – o que já foi feito pelos historiadores – a existência de uma festa de São José, no Oriente, com leitura litúrgica da “História de José o Carpinteiro”, e até mesmo um templo a ele dedicado.

As numerosas versões do citado apócrifo provam que o movimento de devoção e culto a São José no Oriente teve boa expansão bem cedo. Isso se liga com a psicologia do oriental, naturalmente muito espontânea, muito humana e mística, dada à contemplação e admiração cheia de ternura e afeto para com a Virgem Mãe e o Menino Jesus. Impossível, por exemplo, imaginar ou representar o Menino Jesus sem, ao mesmo tempo, perceber ao seu lado a figura profundamente humana e carinhosa do bom José, com suas dúvidas, dramas e virtudes heroicas. Assim, pode-se dizer que a “História de José o Carpinteiro” como que desdobra para um lado afetuoso e terno os relatos evangélicos da infância de Jesus, que já falam do bondoso José.

No Ocidente já não foi bem assim. Temos aí, na mesma época (século IV/V), algumas primeiras manifestações de devoção a São José. Encontramo-las, sobretudo, em São Jerônimo (+ 419) e Santo Agostinho (+ 430). Mas são ainda muito tímidas e bem mais aquém daquela devoção calorosa e terna já presente no Oriente. A razão está nas próprias tendências do gênio latino, mais discursivo, contido e reservado, menos terno, menos ligado à santa humanidade de Cristo e mais preocupado com precisão de ideias e fundamentação doutrinal.

A piedade ocidental demorou bastante para chegar a uma devoção a São José. Praticamente começou a se difundir só no século XI, sob a influência dos cruzados, que construíram em Nazaré uma basílica em honra do santo, e da Terra Santa começaram a trazer «relíquias» e notícias interessantes e curiosas sobre o lugar onde viveu a Sagrada Família. Mas é um início devocional ainda muito pálido. De culto há indícios neste período e antes (já a partir do século IX), notadamente na Itália e Inglaterra (1), mas muito pouco impregnado ainda de devoção. Como comenta J. Dusserre: «Tem-se a impressão que se trata de um tesouro mais possuído do que amado, e sem dúvida de um bem oriental ainda pouco assimilado». (2)

No século XII de repente assistimos a algo novo. Na Alemanha, com a poetisa Ava (+ 1127),  sobretudo na França com São Bernardo de Claraval (+ 1153), inaugura-se um movimento de devoção terna e apaixonada para com São José. Um movimento que praticamente ignora a existência de um culto, e tem influências do Oriente por meio dos cruzados. Está ligado a uma corrente de devoção à humanidade de Cristo, característica da espiritualidade do século XII e todo o restante da Idade Média. O Ocidente enfim compreende aquilo que no Oriente há muito tempo os cristãos já curtiam, a saber, a realidade doce e ao mesmo tempo amarga da vida humana do Salvador. São Bernardo foi sem dúvida o grande campeão da época na contemplação e admiração do lado profundamente humano do mistério de Cristo. Para ele, cada detalhe da vida de Cristo provoca afeição, sobretudo a infância e a Paixão. Ora, toda vez que medita os mistérios da manjedoura, necessariamente se defronta com a figura do bom José. E, consequentemente, toda a afeição apaixonada que prova pelo Menino Jesus alarga-se também para Maria e para José: a figura do patriarca é descrita e admirada então com encanto e doçura. Em São Bernardo e seus seguidores podemos notar que quanto mais uma pessoa se liga com terno amor ao mistério do Homem-Deus, mais compreende e se aprofunda na devoção à Virgem Santa e a São José.

O século seguinte, século XII, assiste à implantação  da corrente intelectualista, cujo expoente maior é Santo Tomás (+ 1274). Este, por exemplo, fala com bastante frequência de São José. Mas é frio, objetivo. Não se arrisca em “devaneios” místicos. Não traz nenhuma palavra que exprima devoção. Contudo, as atividades espirituais não foram absorvidas por esta corrente. A tendência mística e, consequentemente, a devoção ao santo patriarca, tiveram seus representantes, como, por exemplo, São Boaventura (+ 1274), o beato Hermann Joseph de Colônia (+ 1241), e um ofício de São José composto no mosteiro beneditino de Saint Laurent, em Liège. E não podemos esquecer também a grande influência das relíquias trazidas pelos cruzados, no crescimento da devoção a São José.

É no século XIV que se abre um período de pleno desenvolvimento da devoção a São José, sob a influência da mística franciscana. Compreende-se: Francisco de Assis como que dá continuidade e amplia aquela espiritualidade muito terna e humana de São Bernardo, o que vai ajudar a enfatizar ainda mais e tornar cada vez mais comum a veneração a São José. Na verdade, são franciscanos os mais influentes propagadores desta devoção nos séculos XIV e XV. Eis alguns: o autor das “Meditações sobre a vida de Cristo”, e também Ubertino de Casale (cujos traços se perdem depois de 1325), Bartolomeu de Pisa (+ 1401), mas sobretudo São Bernardino de Sena (+ 1444). Foram eles os grandes promotores da celebração e da liturgia do nosso santo, sendo Ubertino de Casale o doutor que, num capítulo do seu “Arbor vitae Crucifixae Jesu” (1305), deu os elementos essenciais para o que depois se chamará de a teologia de São José. (3)

Entramos assim no século XV. A esta altura, devoção e culto praticamente se juntam. São José é cada vez mais amado e buscado como intercessor, tanto em orações privadas como litúrgicas oficiais. Seus devotos são numerosos, seus apóstolos são incansáveis e de um zelo extraordinário: Jean Gerson (+ cerca 1419), Pedra d’Ailly (+ 1420) e o grande São Bernardino de Sena. E, enfim, como que para coroar a obra deste século e fechar esta fase, o papa Sixto IV (1471-1484), que pertencera à família franciscana, introduz oficialmente a festa e o culto a São José em toda a Igreja. A data da festa é 19 de março. (4)

Outros ainda, posteriormente, continuaram a obra de difusão do culto a São José. O dominicano Isidoro de lsolânis, em 1522, na sua “Summa de donis Sancti Joseph”, ressaltará o valor teológico do culto. Santo Inácio de Loyola (+ 1556), São Francisco de Sales (+ 1622) e outros vão implantando sempre mais esta devoção entre o povo cristão, tornando-a cada vez mais familiar a todos.

Em 1621, o papa Gregório XV elevou a festa de 19 de março à categoria de dia santo de guarda; em nível, portanto, de uma grande solenidade. É bom lembrar que nesta época (século XVII) foram fundadas bem umas três ordens e uma congregação religiosa feminina com o nome de São José!

O século XIX foi também particularmente fecundo na expansão da devoção josefina. Santa Teresa do Menino Jesus (+ 1897) foi a grande apóstola desta devoção. Interessante notar que neste mesmo século contamos com a fundação de pelo menos 23 congregações religiosas masculinas e femininas com o nome de São José. E foi neste século, precisamente em 1887, que o papa Pio IX declarou São José Patrono da Igreja universal, introduzindo em sua honra uma nova festa, a do Patrocínio de São José, (5) no 3º domingo depois da Páscoa, que foi depois transladada por Pio X para a quarta-feira anterior. Pio XII suprimiu a festa em 1956, introduzindo em seu lugar, mas no dia 1º de maio, Dia do Trabalho, a festa de São José Operário.(6)

A nova edição do Missal Romano de 1920 traz pela primeira vez um Prefácio próprio de São José, que foi conservado no Missal de 1970, em uso atualmente na Igreja. Convém notar também que em 1962 João XXIII mandou inserir o nome de São José no Cânon da Missa: reflexo do grande carinho da Igreja por São José, numa devoção-patrimônio de todos os cristãos.

E hoje o nome de São José está espalhado em todos os recantos do mundo cristão. Em sua honra e como devoção, José e São José dá nome a pessoas, estabelecimentos comerciais, hospitais, escolas, creches, ruas, cidades, e até pais! (São José da Costa Rica), dioceses, paróquias, igrejas, comunidades religiosas etc. E quantos trazem no peito uma medalha de São José! E quantos o invocam nas horas de aperto, principalmente na hora do aperto maior, a morte; tanto que São José é também chamado de patrono dos agonizantes. Mas ele é, sobretudo, patrono da Igreja peregrina neste mundo …

São José a partir dos textos da missa de sua festa no dia 19 de março

1) Refletindo a partir das leituras bíblicas da solenidade

A «Solenidade de São José, Esposo de Nossa Senhora», como oficialmente vem chamada a festa de 19 de março, como que concentra toda a história da salvação. Realmente, pelas leituras bíblicas do dia (2 Sm 7,4-5a.12-14c. 16;  Rm 4,13.16-18.22; Mt 1,16.18-22.24) temos resumido toda o caminho da salvação, que vai de Abraão, passando por Davi, e chegando ao Salvador prometido. E tudo tem sua íntima ligação com São José, que desempenha um importante papel num dos momentos-auge dessa história.

a) José, filho de Abraão

Abraão é chamado pai da fé e de todos os que creem em Deus. Como tal, representa o início da história da salvação. O rei Davi, por sua vez, prefigura a vinda do Messias. Ambos, Abraão e Davi, compendiam respectivamente, a promessa e a espera do Messias. E Jesus, por sua vez, é a própria concretização pessoal da bênção de Deus a Abraão e da promessa feita a Davi. E José está aí no meio! Como?

José é filho de Abraão por ser descendente mesmo de Abraão (Mt 1,1.16.20). Mas, muito mais, ele é filho de Abraão também e, sobretudo, pela sua fé e pela sua justiça (Mt 1,19.20). Em outras palavras, São José é justo não segundo a lei, mas segundo a justiça que provém da fé em Deus (Rm 4,13). Como Abraão, ele aparece perfeitamente «ajustado» (justo!) à vontade de Deus. Tão «ajustado» que a misteriosa gravidez de Maria lhe causa por um momento perplexidade: Não queria difamá-la. Mas também tão «ajustado» que continua crendo na Palavra e nas promessas de Deus: como Abraão, esperou contra toda esperança humana (Rm 4,17). E, justo como era, percebendo pela voz do anjo que tudo o que acontecia era obra de Deus, aceitou plenamente a realidade misteriosa, disposto a colaborar com ela e agir plenamente por ela: «José fez como lhe propusera o anjo do Senhor» (Mt 1,24).

A esta altura, até se poderia dizer que a fé e a disponibilidade de José são bem maiores que a fé do próprio Abraão. Este, na sua fé e total disponibilidade à vontade de Deus, esteve pronto a sacrificar seu próprio filho Isaac. José, muito mais, na sua total disponibilidade interior, estava pronto a sacrificar totalmente a si mesmo: seu próprio nome, toda a sua pessoa. Na verdade, aceita a criança de Maria como filho seu, e lhe dá o nome de Jesus.

Dar o nome significa assumir a paternidade’ e todo o peso da filiação. José, portanto, reconhecendo Jesus como seu filho, transmite a ele os direitos da própria paternidade e de parentesco com o rei Davi.

b) José, filho de Davi

José é também descendente de Davi. Filho de Davi, portanto (Mt 1,20). E, como já dissemos, é pelo ato de dar o nome ao menino que José liga Jesus à sua parentela, já que a concepção se deu por obra do Espírito Santo. Em nível de concepção, Jesus, filho de Maria, é e permanece “Filho de Deus. Em nível de «adoção» realizada por José, «Filho de Davi», Jesus entra na descendência de Davi. E o que acontece? A fé e a disponibilidade de José, que assume plenamente esta criança, possibilitaram a realização histórica concreta das promessas de Deus feitas ao rei mediante o profeta Natan: «Quando chegares ao fim de teus dias e repousares com teus pais, suscitarei para te suceder um teu descendente, nascido de tuas estranhas, e confirmarei a sua realeza. Ele levantará uma casa para o meu nome e eu confirmarei para sempre o seu trono real. Eu serei para ele um pai, e ele, será meu filho» (2 Sm 7,12-14). Que maravilha! A justiça de José possibilitou ao Justo o seu indispensável lugar na história da salvação como «Filho de Davi».

c) Fé e obediência de José

Jesus, na sua vida, pouco a pouco se revelará e se mostrará como Filho de Deus, isto é, que Deus é o seu verdadeiro e único Pai. Está se cumprindo o oráculo de Natan: «Eu serei para ele um pai, e ele será meu filho» (2Sm 7,14). E mais: Jesus, o Emanuel (= Deus-conosco), é visto como o lugar da presença do Deus salvador sobre a face da terra, a «casa» de Deus entre os homens, «casa» esta que, depois, pelo mistério pascal, vai se tornar

Tudo por quê? Por causa da obediência de José, que aceitou com fé e humildade colaborar, ser instrumento, na realização do projeto salvífico de Deus. Através da fé e obediência deste homem, que «fez o que lhe propusera o anjo», Deus concretiza de uma vez por todas suas promessas e sua fidelidade. Em José a fidelidade de Deus se encontrou com a fé confiante e obediente do homem. E neste encontro abrem-se as portas para o cumprimento do projeto histórico-salvífico de Deus. Enfim, cumprida a sua missão de colaborador tão admirável, a José depois não resta mais senão sair da cena, desaparecendo no silêncio e na humildade, para escondido continuar a colaborar como protetor da família de Deus peregrina por este’ mundo…


2) Refletindo a partir das orações da missa do dia

«Eis o servo fiel e prudente, a quem o Senhor confiou a sua casa» (Lc 12,42), é a antífona de entrada na Missa do dia. Esta antífona, tirada do evangelho de Lucas, visa caracterizar a figura de São José como «servo fiel e prudente», ou, se quisermos, como servo prudente e responsável. A fidelidade e a prudência são duas virtudes de São José contempladas pela liturgia. E mais: à fidelidade e prudência deste homem santo «o Senhor confiou a sua casa». Que casa? Primeiro, como já dissemos, Jesus Cristo, visto pelo evangelho de João como tenda/templo de Deus entre os homens (Jo 1,14; 2,18-22). Depois, também Maria Santíssima, que, aliás, é vista pela espiritualidade franciscana como «palácio», «tabernáculo», «morada» do Senhor. (7) Depois, a casa do Senhor, isto é, o lugar da habitação de Deus, pelo mistério pascal, passou a ser a grande família de Deus, a Igreja (cf. 1Cor 12,12-30; Ef 2,19-22; 1Pe 2,4-6): Corpo de Cristo, edifício santo, edifício espiritual. Todos enxertados em Cristo pelo batismo, formamos o seu Corpo, o novo Templo, a nova Casa do Senhor. Ora, se Jesus de Nazaré foi com Maria confiado à fidelidade e à prudência de São José, consequentemente também a

Igreja-Corpo de Cristo está sob sua proteção por via de continuidade. Sobretudo esta Igreja peregrina, sofredora, oprimida, na América Latina, onde cerca de 70% dos cristãos são empobrecidos e perseguidos pela ganância dos ‘herodes’ dos nossos tempos.

Vimos há pouco como São José, totalmente “ajustado” (justo) à vontade de Deus, desempenhou um importante papel na história da salvação. Marcou presença atuante na vida de Jesus e de Maria. Acontece que agora, por via de continuidade, ele continua marcando tal presença na vida da Igreja, que é o novo modo de Cristo ser hoje; Corpo composto de muitos membros. Por isso confiamos nas preces de São José. Daí que a nossa oração logo no início a missa soa assim:

«Deus todo-poderoso,
pelas preces de São José,
a quem confiastes as primícias da Igreja,
concedei que ela possa levar à plenitude
os mistérios da salvação» (Oração coleta).

 Em outras palavras, pedimos que as preces de São José, o servo bom e fiel que entrou na alegria do seu Senhor (cf. Antífona de Comunhão), garantam à Igreja a possibilidade de contribuir eficazmente, até à plenitude, para a libertação dos oprimidos. Se o Vaticano II chama a Igreja de sacramento da salvação (LG 1, 48, 59), isso quer dizer que, na sua atuação, na sua práxis libertadora como comunidade eclesial realmente organizada na luta em favor da

Vida, contra tudo o que é morte e leva à morte, deve aparecer o característico da Igreja: sinal de salvação, sinal e instrumento libertador de Jesus Cristo hoje. Pedimos, portanto, que, sob a proteção de São José, a Igreja seja esse sinal libertador, proteja e salve o Cristo de hoje com feições sofridas tão diversificadas (cf. Puebla 31-39). Que ela, a Igreja, possa levar à plenitude «os mistérios da salvação», isto é, que ela, sob o exemplo, apoio e proteção de São José, possa garantir no mundo a plena presença do que a Eucaristia que celebramos significa como presença do Reino de justiça e de paz. É o que, no fundo, se torna a pedir logo em seguida, ao colocarmos as oferendas sobre o altar:

«Ó Deus de bondade,
assim como São José se consagrou ao serviço
do vosso Filho, nascido da Virgem Maria,
fazei que também nós sirvamos de coração puro
aos mistérios do vosso altar»
(Oração sobre as oferendas).

 Em outras palavras, pedimos confiantes na bondade de Deus (“Ó Deus de bondade”!) que, a exemplo de São José que consagrou sua vida (desapego de si!) ao serviço de Jesus, nós Igreja nos entreguemos com toda a renúncia de nós mesmos (“de coração puro”) ao serviço dos mistérios do altar, quer dizer, ao serviço do que a Eucaristia significa como presença da total doação do Amor de Deus pela libertação do homem: obediência, justiça, persistência, luta. É difícil. Não é fácil. Como não foi fácil a missão de São José. Nele se repete o drama de Abraão que teve que crer “contra toda esperança”, mas “apoiado na esperança creu” (Rm 4,13.16-18.22), e assim nos mostrou que é possível viver a vontade de Deus e colaborar para a concretização desta vontade no meio dos homens, a saber, que todos sejam salvos (Jo 6,39-40). Pois bem, movida pela esperança que é suscitada pelo exemplo de São José anunciado pelo evangelho (cf. Mt 1,19), a assembleia eclesial, reunida em liturgia, ouve feliz ressoar este hino de ação de graças e exultação:

«Na verdade” ó Pai,
Deus eterno e todo-poderoso,
é nosso dever dar-vos graças,
é nossa salvação dar-vos glória,
em todo tempo e lugar,
e, na solenidade de São José,
celebrar os vossos louvores.
Sendo ele um homem justo,
vós o destes por esposo à Virgem Mãe,
e, servo fiel e prudente,
o fizestes chefe da Vossa família,
para que guardasse como pai
o vosso Filho único,
concebido do Espírito Santo,
Jesus Cristo, Senhor nosso» (Prefácio).


Enfim, nesta festa, o nosso desejo é que, alimentados pela Eucaristia, Deus nos proteja sem cessar e, guarde em nos os seus dons (Oração depois da comunhão). Quer dizer: Alimentados por esta Eucaristia, partamos para a prática Concreta da justiça celebrada e comungada nesta ceia santa, na obediência total à vontade do Senhor, a exemplo de São José.

Conclusão

Ao final desta exposição, salientaria como conclusão os seguintes pontos:

 >> É muito bom sermos profundamente humanos em nossa vida espiritual. Pensar e viver a vida espiritual também com o coração! E quem assim fizer, sem dúvida encontrará em São José a figura de um pai extraordinariamente bom, inspirador de confiança, animador da esperança, e, sobretudo, criador de serenidade decidida. Parece que a história da devoção a São José nos ensina isso.

 >> Impressiona-me em São José a figura do homem justo. Como dissemos, ele é o tipo do homem totalmente «ajustado» à vontade de Deus. Por isso mesmo, é o homem do equilíbrio completo: Não o vemos «desajustado» frente às delicadas e embaraçosas situações que o surpreendem.

 >> Dá gosto pensar em São José, e saber que, como viveu na sua família de Nazaré, vive também hoje na grande família que Somos nós Igreja, principalmente nossa Igreja latino-americana perseguida pelos ‘herodes’ dos tempos modernos, ricos cada vez mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres, verdadeira matança de inocentes. A presença de São José nos garante: A mansidão dos humildes triunfará sobre a arrogância dos poderosos.

 >> A presença escondida e serena de São José nos encoraja à persistência na luta pelo Reino da Justiça.

 >> A fé e obediência de José possibilitaram a concretização histórica da salvação de Deus em Jesus Cristo. Isto significa: pela nossa fé e obediência ao modo-de-ser de Deus (Amor, Doação, Comunhão, Trindade), é possível, hoje mais do que nunca, tornar concretamente presente a Libertação que todos sonham. É possível fazer Liturgia: adorar o Pai em espírito e em verdade (cf. Jo 4,23).




1. São José consta em vários martirológios desta época e também em ladainhas. Inclusive existia uma capela a ele dedicada em Bolonha (cf. J. Dusserre, ‘Origines de la dévotion à Saint Joseph”, Cahiers de Joséphologie I (1953). p. 41-42).
2. Id., vol, II (1954), p. 28.
3. Não se pense, é claro, em monopólio absoluto dos franciscanos na difusão da devoção nesta época. Lembremo-nos, por exemplo, da beata Margarida de Médola (+1920). Ludolfo o Cartuxo (+1370) e Santa Brígida (+1373).
4. Quanto ao porquê da data de 19 de março é dificil ter clareza. Sabemos que o Oriente se costumava celebrar a festa de São José no dia 20 de julho, como testemunham alguns calendários coptas do século VIII/IX (cf. A. Adam, “O ano litúrgico, São Paulo 1982, p. 224). O mesmo é testemunhado por Isidoro de Isolânis, no século XVI, ao comentar uma versão latina da História de “José o Carpinteiro” saída em 1340: ‘Os Católicos do Oriente costumam celebrar com grande veneração a festa de São José no dia 20 de julho. Prestam grandes honras a São José e aprontam ruidosas manifestações nesta solenidade” (cit. em J. Dusserre, ibid. I (1953). p. 40). No Ocidente, a partir do século IX/X existem vários martirológios com o nome de São José inscritos para a data de 19 de março. Certamente é consequência de uma confusão “entre o nosso santo e um São José mártir de Antioquia, cuja data de festa caía no dia 20 de março. Esta data teria ‘puxado” o nome do nosso São José para o seu lado: 19 de março, e assim ficou até hoje.
5. Festa que os carmelitas da Itália e da França celebram desde 1680.
6. Ao criar esta festa o papa foi levado pelo intento de enriquecer o 1º de maio, Dia do Trabalho, com a celebração de um santo operário em sentido cristão. Ela levou o título completo de “Solenidade de São José Operário. Esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, Confessor e Patrono dos Operários”.
7. São Francisco de Assis, “Saudação à Mãe de Deus’ 4, Escritos de São Francisco de Assis, crônicas e outros testemunhos do primeiro século franciscano, Petrópolis 1981, p. 165.
BIBLIOGRAFIA

A. ADAM, O Ano litúrgico, Paulinas, São Paulo 1982, p. 224-227.
J. LÓPEZ MARTIN, El Ano litúrgico, Historia y teología de los tiempos festivos cristianos, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid 1984, p. 250-251.
J. DUSSERRE, “Les origines de la dévotion à Saint Joseph”, Cahiers de Joséphologie I (1953), p. 24-54; 169-196; II (1954), p. 5-30.
VV.AA., “Joseph, Nährvater Jesu”, Lexikon für Theologie und Kirche 5, col. 1129-1133.
H. LECLERCO, “Joseph (Saint)”, Dictionnaire d’Archéologie Chrétienne et de Liturgie, t. VII/2, col. 2656-2666.
G. MARCHESI, Il Vangelo della Misericordia. Commento biblico e teologico alle letture delle domeniche e feste, Anno C, Città Nuova Editrice, Roma 1985, p. 403-406.
V. RAFFA, Liturgia Festiva. Per l’omelia e la meditazione. Anno A, B, C, Libreria Editrice Vaticano, Città dei Vaticano 1977, p. 600-610.
J. KONNINGS, Espírito e Mensagem da Liturgia Dominical. Subsídios para a Liturgia, Pregação e Catequese (Anos A, B e C), Vozes, Petrópolis 1986, p. 444-445.
M. STAROWIEYSKI (Org.), I Padri Vivi. Commenti patristici al Vangelo domenicale, solennità e feste, Città Nuova Editrice, Roma 1982, p. 104-115.

Frei José Ariovaldo da Silva é professor do Instituto Teológico Franciscano. Este texto foi publicado na Revista “Grande Sinal”, uma publicação da Editora Vozes e Província da Imaculada Conceição do Brasil

quinta-feira, 16 de março de 2017

OFS: revisitar o seu interior em vista da missão



ORDEM FRANCISCANA SECULAR DO BRASIL

Capítulo Ordinário Avaliativo

Campo Largo,  PR - 17 a 19 de março  de 2017

Tema:  Franciscano secular: revisitar o seu interior em vista da missão
Lema: Uma formação que motive e acenda a chama  

Neste mês de março, os franciscanos seculares do Brasil estarão reunidos em Capítulo Avaliativo, no município de Campo Largo (PR). Apresentamos aos leitores deste site algumas ideias centrais a respeito do tema  escolhido: revisitar o interior em vista da missão. Redescobrir o “lugar do coração” para que a nossa missão seja  significativa e não apenas “nuvens sem água”.

 Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM, Assistente Nacional pelos Menores


Revisitar, redescobrir o interior de cada um, eis uma tarefa árdua de se realizar. Trata-se de descobrir a própria interioridade, de ir ao fundo de sua identidade. Somos bem mais que esta capa que nos reveste. Somos pernas, braços, pulmões, pulsões, mas também seres desejosos de um amanhã que estamos a perseguir. Carregamos sonhos e apelos. Somos uma contradição ambulante. Queremos o bem e é o mal que fazemos. Viemos do passado, caminhamos para o amanhã. Somos um ser de desejos com outros seres de desejos e vamos assim rasgando a nossa história no tempo que passa, nesse mundo que é nosso e no coração da Igreja, esposa de Cristo, sinal de sua Presença no mundo. Precisamos ser pessoas conscientes de nós mesmos e do verdadeiro sentido da vida. Haveremos de viver com alma. Não podemos deixar nosso interior criar teias de aranha. Precisa ser arejado. O homem, o cristão, o franciscano e o missionário que somos, o somos a partir do “lugar do coração”.

“A pessoa necessita de um solo vital sobre o qual possa construir com coerência seu próprio relato, assentar suas fidelidades e compromissos pessoais. Sem isso a sua biografia se resume a um somatório de acontecimentos pessoais, desconexos e soltos. Fundar a pessoa, ajudá-la a conseguir esse solo pessoal, deve ser o grande objetivo dos processos educativos” (Patxi Álvares de los Mozos, SJ).

Interior, interioridade. Quando abordamos o tema não estamos querendo defender uma espécie de fuga da realidade, de desprezo pelas coisas do mundo e mergulho no mundo de um subjetivismo oco e alienante. Somos cidadãos do grande mundo e sentimos que nosso lugar é nele para humanizá-lo transformá-lo à luz do Evangelho e de nossa vocação franciscana. Claro. Revisitar o interior, no entanto, é tarefa inadiável. Isso precisa ficar claro. Mesmo como franciscanos corremos o risco de sermos vazios, superficiais, sem consistência.

A profundidade e a velocidade de transformações de nossa sociedade, o abandono de crenças (da fé), a superestimulação a que somos submetidos, o ruído externo e interno, as tecnologias, a competitividade, a falta de pontos de referência estão fazendo com as pessoas tenha perdido suas raízes. Conhecemos a expressão consagrada de “sociedade líquida”. O conhecido sociólogo Z. Baumann, recentemente falecido, falava dos “náufragos existenciais”. Pessoas que necessitam de casa, paz e solo. Nesse contexto é que se deve situar a busca da interioridade.

Vivemos o tempo do consumo e da gastança. Os aparelhos mais sofisticados tornam-se obsoletos da noite para o dia. Tudo é rápido. Há um convite para comprar o novo, adquirir o que dá status. Uns têm vergonha de ir a um casamento com a mesma roupa que usaram numa festa do ano que passou. As pessoas gastam comendo, comprando aquilo que não é importante, acumulando, juntando. Consumimos bens e consumimos pessoas. Uns se enamoram um tempo e depois se largam, se descartam. Houve decisão, houve escolha, houve alguma coisa que tenha partido do mais íntimo da pessoa? Por que tantas desistências de frades e tantos pedidos de afastamento em nossas fraternidades seculares. As pessoas mudam de opções, de parceiros com se muda de camisa. Decisões na vida tomadas por pessoas sem consistência, decisões reformáveis demais.

“Um dos paradoxos do individualismo contemporâneo é de ignorar a singularidade insubstituível da pessoa e fabricar indivíduos sem consistência, indivíduos sem ancoradouro e modeláveis segundo os seus desejos, “identidades se pessoa” (Nathalie Sarthou-Lajus, revista Études 4122, fev. 2010, p 152).


Dentro de cada pessoa há um mundo quase inexplorado. Muitos nem suspeitam do que dorme em seu interior. Vivem só a partir de fora. Com esta afirmação não pensamos aqui no mundo dos sentimentos e dos afetos. Nem se trata de psicologia ou psiquiatria. É um país mais profundo e misterioso. Chama-se, de fato, interioridade. Desse mundo nasce a pergunta mais simples e mais elementar do ser humano. Quem sou eu? Antes mesmo que possamos responder a outras indagações que vão brotando: De onde venho? Por que estou na vida? Para quê? Como terminará tudo isso? Os irmãos que chegam trazem suas riquezas pessoais. Será que elas veem à tona? Será que os formadores são suficientemente habilidosos para acolher o presente do outro, da profundidade do outro?

Viver, vida, vida interior, vida espiritual. Há esse nascer, crescer, morrer, deitar, levantar, correr, vender, casar, ter nascido numa família católica, ter sido batizado, casado na Igreja. Há esse casal aparentemente ajustado, parecendo respirar harmonia. Será que os dois vivem um amor em plenitude? Não constituem apenas a justaposição de dois individualismos? Há uma paixão para ser pai e ser mãe? Há a paixão de viver de verdade e não simplesmente empurrar a vida para frente? Há ainda esse mendigo deitado sob uma marquise, enrolado em trapos, fumando pontas de cigarro que recolhe do chão ainda fumegantes. Vidas, vidas em caminho da plenitude e vidas vazias. Sem eira, sem beira. Não adianta apenas deitar, levantar, correr, trabalhar, ser mãe, ser pai, ser católico, ser franciscano. É preciso viver tudo isso a partir do mistério do interior. Necessário viver com alma. Quando se escuta dizer que muitas de nossas fraternidades franciscanas seculares estão desmotivas não se deveria dizer que elas perdem o endereço do “lugar” do coração?

Não se trata de se comprazer em cultivar uma interioridade desencarnada, alheia ao mundo, a tudo. Basta de religiões e práticas religiosas sentimentais, alienadas, afetuosas e quentes. Quando falamos em interioridade não pensamos nessas aberrações, nos psicologismos, e numa frenética busca religiosa alienante. O homem é irmão do homem, o cristão é sal da terra, luz do mundo e fermento na massa. Não vive para contemplar as belezas e feiuras de seu interior. Vive-se para os outros. Isto, no entanto, não pode fazer com que as pessoas sejam derramados nos acontecimentos, no vazio e no superficial.

A sociedade contemporânea vem focada sobre o indivíduo, fragmentado com uma identidade fluída. Temos diante de nós uma mudança radical da visão do homem, determinada sobretudo pela tecnologia. Importante que o indivíduo permaneça sujeito desse desenvolvimento, sobretudo a partir da verdade sobre si mesmo. Acontece que ocorre termos medo de entrar em nós mesmos, com a pobreza de sentimentos, de afetos, de capacidade de amar e ser amado. No espaço da interioridade, o silêncio pede a escuta de nós mesmos, dos outros da realidade. Na verdade, tornamo-nos estranhos a nós mesmos. O caminho para dentro de nós mesmos torna-se, para nossa interioridade e para o silêncio torna-se testemunho de uma vida alternativa. O caminho para a interioridade é um itinerário de tratamento das feridas mais profundas. Não se pode conceber conversão evangélica, o trilhar do caminho de penitência, de transformação do coração pela conversão a não ser a partir do interior. Esse é precisamente o programa da Quaresma: deserto, silêncio, oração.

Na vida que levamos, agitada, rápida demais, tudo com pressa vamos sentindo que nossa vitalidade interior fica comprometida. Vamos nos tornando figuras sem transparência, sem clareza, sem nitidez, fantasmas sem cor, sem corpo, sem vida. Necessário se faz recuperar a vitalidade, refrescar nosso ser, retomar práticas que nos permitam gostar da vida e de tudo a partir de nosso interior. Não se trata de buscar fora de nós o que possa nos saciar. Há uma sabedoria na interioridade que vamos encontrar no que chamamos de coração. Não sabemos escutar as vozes interiores. Como esses mananciais que brotam do interior da terra ou da pedra com força à maneira de jatos, necessitamos viver de uma água interior. Nesse cotidiano apressado pode ser que, aos poucos, dentro de nós tenham sido depositadas aos poucos camadas de cinza e de areia. Decepções, rotina, superficialidade, futilidades, quem sabe, forma obstruindo nossas fontes interiores. E somos cristãos por costumes. Somos franciscanos sem alma.

Nossas raízes encontram-se num lugar essencial chamado coração. Necessitamos reencontrar o coração como lugar primordial dos desejos, como o interior de onde brotam as fontes da vida. Somente assim poderemos nos apropriar das fontes da vida. Cultivar, alimentar o desejo, a busca da plenitude significa sair da vulgaridade, da superficialidade. E esse desejo anda adormecido, entorpecido, sedado com tantas comunicações.

Abrir-se ao mundo interior – mundo do espírito e da alma – quando isso de fato acontece – quer dizer expor-se à Realidade transcendente, ao Mistério, à Presença. Quando visitamos o interior, refletimos sobre os nossos mistérios sentimo-nos transpassados por uma Presença luminosa. É nesse interior mais íntimo que encontramos o chamado para seguir Cristo, para iluminar nossa vida com o gênero franciscano de viver. Por toda a nossa vida seguimos a lei do Evangelho e do espírito franciscano.
Transcendência e subjetividade convergem numa dimensão interior que longe de esgotar em si mesma projeta-se na direção de um estar no mundo de um outro modo. É um estar pessoal, existencialmente significativo, a partir da verdade e do amor. As pessoas que habitam seu interior olham o mundo de outro modo. Não há apenas caras, mas semblantes que constituem chamada e epifania. Não há trivialidade, mas transparência que evoca o Mistério.
Quando se vive a partir do interior e não da superficialidade é possível que se crie uma subjetividade consistente que, por sua vez permite uma aproximação correta da realidade e não marcada por imaturidades e precisamente por inconsistências de caráter e de seguimento a Cristo Jesus. Assim entendida a interioridade faz com que aprendamos a não olhar instrumentalmente para as pessoas, para o mundo. Leva-nos a posturas de gratuidade e de assombro. Faz com que nos afastemos de emoções efêmeras e da superficialidade.

Desnecessário evocar todos os escritos, episódios da vida da Francisco que falam desse busca do Senhor na interioridade: noites em silêncio, hesitação em assumir o apostolado ou a vida contemplativa, regra para os eremitérios, insistência em seus escritos de preparar morada digna para o Senhor e tanto mais. Basta ler o cap. 23 da Regra não Bulada. Na linha de se refazer o nosso solo íntimo, nossa pessoa, alguns elementos:

•  Sem questionamentos vitais não pode haver crescimento. Não se pode viver de rotina. Necessário buscar experiências novas que coloquem a pessoa em movimento. Sempre de novo viver experiências na linha da própria vocação: ser homem, ser mulher, ser pai e ser mãe, ser cristão e franciscano em tudo isso.

•  No tempo da formação e ao longo da vida três grandes experiências a serem vivenciadas e sempre revistas: profundo e pessoal conhecimento do Senhor, aproximação do que é sem valor, pobre, doente e certeza de um fraternismo universal que comporta também o cuidado pela criação.

•  Levar as pessoas a frequentar o interior e adquirir o hábito de examinar a vida, questionar posicionamentos, evitar agir com rotina, mas a partir da verdade mais íntima de cada um. Por que? Para quê? Não adormecer nas escolhas feitas: casamento, maternidade, ser cristão, ser franciscano. Nada de rotina, mas decisões retomadas a partir do interior.

•  Adquirir o hábito de viver momentos de silêncio para reorganizar a vida, arrumar o interior, examinar tudo (ver, julgar, agir).

•  Organizar um projeto de vida com marcas evangélicas e franciscanas: sair do consumismo, estilo de vida simples, ter gosto pelo que não é tão doce, ter o gosto de dar lugar aos outros. Deixar-se impregnar do espírito da Regra que forçosamente forma nosso homem interior.

•  Solidificar sua personalidade: leitura espiritual, partilha de vida na fraternidade. A leitura meditada do evangelho, das Regras e das Admoestações, ao longo do tempo, cria interioridade.

•  Rever seriamente o capítulo da oração. Pessoalmente cuidar de envolver-se de fato com o Senhor. Importância da meditação frequente feita a portas fechadas. Os franciscanos e franciscanas sentem sempre saudade do eremo.
•  A reunião da fraternidade e pequenos grupos são de fundamental importância para a reconstrução da pessoa. Temos insistido demais na qualidade das reuniões gerais.

• Revisitar o interior em vista da missão:
Esta a segunda parte da enunciação do tema do Capítulo Avaliativo. De um lado precisamos rever os expedientes que andamos empreendendo para alimentar o “lugar do coração” e, de outro, lado cuidar de nosso ir pelo mundo.

Os franciscanos seculares fazem suas as palavras de Paulo: “Ai de mim senão evangelizar”. Todo o empenho de revisitar o interior, o dar força ao nosso eu mais profundo banhado na graça de Cristo, leva o cristão à missão. “O lugar do coração torna-se um espaço de sensibilidade ao grito de dor das criaturas e dos pobres. A redescoberta da interioridade leva-nos ao outro, na verdade e no amor”.

•  Missão, pastoral, evangelização são palavras muito sérias. Não se improvisa a missão. Os que agem na missão são precedidos pela graça do Senhor. Os “servos missionários” ou preparam os caminhos para o Senhor ou agem depois que o Senhor veio a tocar os corações, ou seja, ajudam a fé nascer e contribuem para que seja vigorosa. Há uma mística na missão.

•  A Ordem Franciscana Secular está sempre a serviço da Igreja e da dilatação do Reino de Deus. Não somos pessoas dopadas por um ativismo. Nosso agir evangelizador parte de nosso nó interior. Como leigos, os franciscanos seculares, embora se coloquem à disposição de bispos e padres para o serviço do altar e dos sacramentos, sabem que seu lugar de pastoral e de missão é na massa, no mundo, na escola, no trabalho, na família, no mais íntimo do casal, na política, no engajamento em ações que sejam significativas para humanizar o homem e que tenham sua fonte no carisma franciscano: estar ao lado dos mais abandonados, empreendimentos que visam a transformação da sociedade.

•  Não é necessário que cada fraternidade organize “sua” pastoral. Importante evangelizar. Há três modos de evangelização que já lembrava Paulo VI em Evangelica Testificatio: testemunho modesto, serviço humilde e anuncio explícito. Os franciscanos podem se inserir em pastorais e missões da Igreja.

•  Tomo a liberdade de evocar alguns tipos de missão que são urgentes e que podem ser assumidos pelos terceiros franciscanos: preparar jovens para o casamento e a vida familiar (com cores franciscanas), trabalho na pastoral carcerária, organizar tarde de estudo e de oração para levar as pessoas para seu interior e lá encontrar o Mistério.

 Textos para reflexão

1. Consolidar o sujeito

Consolidar supõe dar condições para que cresça, que aprofunde e deite raízes; que floresça. Tal consolidação se opera no interior do sujeito, precisando, é claro, também do entorno comunitário que venha a possibilitá-lo. Tal consolidação não se realiza sem algum tipo de laço comunitário. Devido a isso a importância de espaços comunitários verdes e estáveis. Há algumas expedientes que podem contribuir para esse crescimento.

O acompanhamento é uma dessas práticas básicas. Consiste em permitir que outra pessoa que sintoniza com o próprio projeto vital tenha ocasião de fazer uma verificação. Trata-se de colocarmo-nos nas mãos de outros para podermos ser fiéis à nossa própria intimidade. Se assim não for, os enganos haverão de suceder-se.
Precisamos renovar nossa própria vocação, o próprio sentido da vida, refrescar nossa memória, voltar aos primeiros tempos e ao primeiro amor. Atualiza-la em sua mais profunda radicalidade e em suas fontes.

São necessárias celebrações do sentido da própria vida. O que não é mais celebrado perde a transcendência de seu sentido e acaba por desaparecer.

Fundar, reabilitar, provar, consolidar. Do sucesso desse empreendimento depende que possamos, no futuro, contar com pessoas e grupos humanos que creiam e se comprometam na construção de um mundo mais conforme a vontade de Deus. Por isso, personalizar – permitir-se ao luxo de se viver com paixão, de viver com alma – hoje é o maior desafio societal que devemos afrontar.
Vivir con alma.
Necessitados de personalizacción 
Patxi Álvares de los Mozos, SJ
Sal Terrae 91 (2003), p. 494

2. A cela interior e o coração puro
São Francisco olha o cristão como alguém que foi transformado pelo Espírito do Senhor em sua habitação permanente (1CtFi 48), alguém que foi chamado a preparar dentro de si mesmo uma morada para Ele (RNB 22,24) e, ao mesmo tempo, morar na comunhão trinitária (RNB 22,50). O coração é o templo vivo, onde cresce o relacionamento entre Deus e a criatura humana.

São Francisco convida-nos a “conservar no coração os segredos do Senhor” (Adm 28,3) através da paz e da meditação, sem nervosismos nem dissipação (Adm 27,4). São Francisco insiste sobre a cela interior a carregar sempre conosco. O silêncio a ser observado é aquele do Evangelho, que evita a dissipar em palavras ociosas e inúteis o fruto da oração. Assim nos tornaremos sempre mais “unificados” no coração a partir do coração. A Virgem Maria é o modelo daqueles que acolhem a Palavra, a guardam no coração e a vivem todos os dias.
São Francisco admoesta-nos a “adorar e ver o Senhor Deus, vivo e verdadeiro, com coração e mente pura “ (Adm 16,2). O coração puro sabe também escutar o silêncio de Deus diante das misérias humanas.

O caminho que leva ao “lugar do coração”
Achegas para descobrir interioridade e silêncio na vida franciscana
Curia Geral OFM
Roma 2003, 19-11

3. Personalização
Podemos dizer que a personalização é o maior desafio que precisaremos enfrentar nos próximas décadas. É o maior por ser contracultural porque a atual sociedade reclama e fomenta indivíduos fragilizados, consumistas, débeis, descompromissados. A personalização dá lugar a pessoas “inquietas”, com certo grau de inadaptação. É o maior por ser subversivo, porque não existe força mais revolucionária do que a vontade livre do sujeito quando se erige em sujeito. É maior, além disso, por ser radical, pois supõe o descer às raízes do ser humano, onde tudo acontece, ali onde somos interpelados em nossa consciência pela Transcendência. E maior, finalmente, por ser evangelizador, porque somente os que se adentram neste caminho encontrarão o vigor da fé.
Patxi Álvarez de los Mozos, SJ
op. cit. supra, 491

4.Leigos franciscanos hoje
Leigo franciscano é um cristão que percebe um apelo de Deus a seguir o Cristo à maneira de São Francisco de Assis porque descobre em si uma cumplicidade espiritual com as intuições evangélicas de Francisco. É um cristão que percebe um apelo do Espírito para viver hoje esse carisma franciscano necessário para a vida da Igreja e do mundo.

É um cristão que deseja marcar sua vida com tempos de oração gratuitos para encontrar Deus e o Cristo e dar um sentido à sua vida.

É um cristão que deseja fazer o aprendizado da vida fraterna com irmãos e irmãs, sacerdotes, religiosos, leigos casados ou celibatários, em reciprocidade vital.

É um cristão que tem necessidade de uma fraternidade de irmãos e de irmãs para enraizar e amadurecer em diversos engajamentos na luta contra toda forma de injustiça, de violência, de racismo, de falta de respeito pela vida, por pessoas e para com a criação e para concretizar sua paixão pela paz.

Irmãos e irmãs de São Francisco temos uma “partitura” própria a tocar no futuro que devemos construir com homens e mulheres de boa vontade privilegiando as pessoas no seio da Fraternidade universal; manifestando a novidade do Evangelho, fonte de felicidade; encarnando no cotidiano dos relacionamentos, o amor salvador de Cristo; esforçando-nos por sermos testemunhas da liberdade interior no Espírito; recusando a ditadura do dinheiro e a pauperização de dois terços do planeta. Construir o futuro encantando-nos com a beleza da criatura e promovendo um desenvolvimento humano sustentável; apaixonados pela paz e pelo diálogo entre as religiões; solidários com uma Igreja por vezes pecadora, por vezes luminosa.

Um mundo novo está em parturição. A família franciscana deverá nesta hora fazer ouvir sua música.
Michel Hubaut
Chemins d’intériorité avec Saint François
Éditions Franciscaines, 2012, p. 17-19

Reflexão - Evoluir como pessoa



É realmente muito importante que você se sinta bem consigo mesma (a). Cada pessoa é dotada de infinitas possibilidades. Pensar e sentir estão na mesma sintonia, pois um complementa o outro. Antes de existir o pensamento, já existe a intuição e o desejo. Quando desejamos, criamos as condições ideais para que nossa pensar seja produtivo e criativo. O pensar verdadeiro é aquele que cria condições para a evolução da pessoa e da humanidade.

Quando criamos essa disposição interna de avançar, de transcender, de querer saber o que está para além dos muros, estamos rompendo com as leis que tentam nos aprisionar. O humano foi criado para romper fronteiras, e, como tal não se contenta como pouco… Ele quer o muito de si mesmo, ou melhor, ele quer atingir a sua integridade e totalidade…

Frei Paulo Sérgio, OFM