quinta-feira, 30 de junho de 2016

Meu São Francisco Brasileiro.



2. Francisco ergueu templos

A descoberta da alma da natureza e a possibilidade de com ela dialogar, na maneira simples de São Francisco, tornou-se para a arte uma vertente caudalosa que, invadindo a seara dos artistas, convidou-os a transplantar para suas telas – primeiro Giotto timidamente e depois os outros sempre mais arrojados – toda a riqueza que Deus semeara no cosmos, em substituição à monótona coloração sem vida ou forma. 

E a pintura e a escultura e a arquitetura e a poesia se tornaram “franciscanas”, porque assumiram a sensibilidade de Francisco de captar o belo semeado na envolvência da vida. E, no Brasil, onde o ouro vinha na abundância de uma terra em tudo dadivosa, os artistas esqueceram Dona Pobreza e seu Esposo e colocaram ouro nas vestes remendadas do Poverello, e colocaram o próprio Poverello dentro de templos esplendorosos, como no sublime exemplo da igreja de Salvador, Bahia, onde o barroco se esmerou nas talhas douradas e policromadas, emprestando à arte uma fala que afirma: Francisco é o único capaz de se fazer o portador fiel das riquezas do homem até Deus, doador de toda riqueza. Quem lá entra fica dominado pela fé transformada em harmonia que os artistas do século XVIII alcançaram cravar naquele complexo. 

Descobre, igualmente, que foi esta a forma que estes artistas encontraram para glorificar o pequenino homem de Assis que lá está abraçado ao seu Cristo, nu e despojado, pisando firme sobre o mundo com suas riquezas e vaidades, ainda que colocado num nicho de ouro. Olhos fixos no Cristo, ouro. Olhos fixos no Cristo, ouro algum do mundo apaga aquela luz que lhe prende os olhos e lhe enche o coração. Aqueles antepassados nossos não entendiam apenas de arte, entendiam também de mística… Por isso, o que saiu das mãos deles é tão rico de terra, quão rico de céu.

Lá em Ouro Preto, a lendária Vila Rica, encontra-se, no dizer de Eduardo Etzel, “a joia da arquitetura barroca de Minas Gerais”: um templo dedicado a São Francisco de Assis, cujas linhas arquitetônicas todos conhecemos. Ali deixou o Aleijadinho, na pedra fria, a marca de seu gênio sofrido, como uma canção eterna que seu amor ditou em homenagem ao Patriarca de Assis, pois, São Francisco deve ter ensinado ao Aleijadinho louvar o Senhor pelas deformações também. Complete este poema cinzelado na pedra, a policromia dos pincéis de grandes mestres da pintura, como Mestre Costa Ataíde.

Entre os monumentos que adornam São João Del Rey, domina altaneira outra igreja dedicada a São Francisco, cantando a mesma fé e proclamando o mesmo carinho despertado pelos Pobrezinhos de Cristo em outros recantos desta terra dadivosa, que de Francisco aprendeu que Deus merece o que de melhor a terra produz e o gênio do homem é capaz de criar.

E, no Rio de Janeiro, em meio há tanta beleza natural por Deus ali semeada, plantou a fé outro templo a São Francisco, menor que todos talvez, mas não menos esplendoroso, não menos eloquente, não menos carregado de amor que os outros templos que a arte colonial ergueu a São Francisco. E lá, em pleno sertão do Ceará, ergue-se o que Frei Pedro Sinzig chamava, em 1926, “o maior santuário de São Francisco no mundo”: é a Basílica de São Francisco das Chagas de Canindé, um cacto florescendo na aridez da terra.

Sem nos determos em tantos outros templos que homenageiam São Francisco, vamos parar junto a um templo moderno que se espelha nas águas da Pampulha, em Belo Horizonte, proclamando a arte de Oscar Niemeyer e o pincel vigoroso de Cândido Portinari. Lá está São Francisco, no painel central, profeticamente retratado em seu despojamento contorcido, com enorme lobo domesticado junto a si, numa atitude de ternura, numa clara alusão de que o homem moderno precisa da volta deste domador de feras. O tamanho do lobo parece insinuar a dimensão da ferocidade do homem hodierno… 

Entre o barroco que nasceu com o Brasil e o moderno da Pampulha que lutou para impor-se, corre toda uma linha de fé e carinho para  com este novo Cristo, chagado e ardente, nos quadros e na estatuária dos grandes mestres e do gênio inculto de nosso povo devoto. Em toda parte, plasticamente, brota a figura de Francisco de Assis, marcada com um pouco daquilo que cada um vê retratado nele e que gostaria de chegar a ser…

Frei Hugo D. Baggio

Texto publicado na Revista Grande Sinal, Revista de Espiritualidade e Pastoral, publicada pela Editora Vozes.  

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